terça-feira, 8 de maio de 2018

A crise argentina: há riscos de contaminação no Brasil? Econômica, não. Política, pode ser

Cesar Maia

1.  Ontem os contatos que este Ex-Blog fez com importantes economistas e com autoridades econômicas do governo brasileiro, produziram um significativo alívio. Menos pelo consenso que os riscos de contaminação da crise do dólar e da crise financeira argentina não tendem a atingir o Brasil, e muito mais pelas razões.

2. Todos eles/as afirmaram que há alguns pontos que garantem essa blindagem do Brasil e o diferenciam dos problemas argentinos. Em primeiro lugar, as reservas internacionais do Brasil superam os 380 bilhões de dólares. As contas externas brasileiras são apenas levemente deficitárias em 1% do PIB, contra 5% da Argentina. O forte saldo da balança comercial brasileira se tornou sustentável.

3. O déficit fiscal primário da Argentina e do Brasil são percentualmente semelhantes, mas a adoção pelo Brasil, por lei, de um teto, produziu uma segurança muito maior. Semana passada, a Argentina definiu um déficit primário menor que 3% do PIB. Mas, por enquanto, é uma meta, ou um desejo. 

4. A inflação argentina, na casa dos 20% ao ano, com metas ou desejos decrescentes, ainda não produziram confiança. A inflação brasileira se tornou sustentável na faixa dos 3. "No ano, o peso argentino foi a moeda que mais se desvalorizou em relação ao dólar, considerando uma cesta de 31 principais divisas do mundo. A queda é de 15,2%".

5. O real aparece em quinto, com depreciação de 6,2%. A desvalorização do real ocorreu de forma progressiva, sem choque, como ocorre com o peso argentino. Em função disso, o banco central argentino elevou a taxa básica de juros para 40, a maior do mundo.

6. Mas o fator político continua no Brasil. Outra vez, o fator político é o que preocupa. Na Argentina, a avaliação do governo do presidente Macri vem caindo desde fins de 2017, de certa maneira antecipando a crise econômico-financeira. No Brasil, há uma paradoxal relação entre a confiança na economia e a desconfiança na política. Alguns dados do último mês devem gerar atenção, com pequenas reversões de alguns indicadores econômicos, como o crescimento da indústria.

7. Provavelmente, a crise argentina chegará às eleições presidenciais brasileiras. A esquerda -por oportunismo- levantará dúvidas sobre a dinâmica econômica brasileira, comparando com a política econômica de Macri e seus paralelismos com a política econômica brasileira e a semelhança entre os dois discursos liberais.

8. Se a crise argentina não contaminou e não deve contaminar a economia brasileira, o mesmo não se pode garantir em relação à política, especialmente num ano eleitoral. Sendo assim, há que se estender a blindagem para a esfera política, rejeitando liminarmente a relação de uma com outra e evitando que o velho discurso do medo venha a afetar as decisões dos eleitores. 
Título e Texto: Cesar Maia, 7-5-2018

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