segunda-feira, 7 de maio de 2018

Cataláxia

Rui A.

Estive, hoje, na apresentação da edição comemorativa do 25º aniversário do notável livro Cataláxia, da autoria do meu querido amigo Pedro Arroja [foto], que reúne crónicas que ele foi publicando nessa época, quando era um liberal convicto.


Esse livro influenciou-me na altura, apesar de eu ser já, por esses tempos, um firme liberal, graças à leitura da edição francesa, da PUF, do Law, Legislation an Liberty, de Hayek, que considero ser a obra que melhor expõe a teoria social ordinalista, não racionalista, que, em minha opinião, deve suportar qualquer abordagem liberal clássica, e por ter travado conhecimento com Orlando Vitorino, que levei, com mais alguns amigos, à defunta Universidade Livre, para o ouvirmos falar sobre uma doutrina que era, então, absolutamente desconhecida em Portugal.

Cataláxia mantém uma impressionante frescura e atualidade, arriscando-me a dizer que nenhum liberal português o poderá ser sem a sua leitura integral. Por conseguinte, às meninas e aos meninos que por aí andam a fazer partidos liberais proponho-lhes a imediata leitura desta obra, antes de se porem a escrever manifestos, programas políticos ou o que quer que seja que lhes saia das cabecinhas. Eu mesmo irei relê-lo e fiz questão de levar comigo o meu filho Rui, que está com 16 anos, para que ele leia também o livro.

Ora, se o livro se mantém atual, sensato e verdadeiro, o que se passou com o seu autor para praticamente ter enjeitado o que de essencial ali escreveu? Foi apenas o facto de ter abandonado um ateísmo e, principalmente, um anticlericalismo militante, que marcou alguns dos seus textos de então? Nada disso, até porque o essencial do pensamento liberal é perfeitamente transversal a quaisquer convicções religiosas ou mesmo à ausência de qualquer uma delas. Foi ter passado a acreditar nas virtudes do intervencionismo estatal, contra o primado da iniciativa privada? Também não me parece.

O motivo principal da rejeição arrojiana do liberalismo, que brilhantemente defendeu durante anos, foi outro: a adopção de Portugal como paradigma existencial, recusando, consequentemente, uma doutrina que o Pedro considerava de importação. Na verdade, quando o autor do Cataláxia escreveu os textos que compilou nessa obra, tinha acabado de regressar de uma longa estada de oito anos num país económica e politicamente civilizado – o Canadá – para um país que, sendo o seu, se encontrava num momento horroroso, que ele naturalmente rejeitou. O liberalismo que, nessa altura, o Pedro defendeu foi, por isso, a consequência inevitável de uma comparação. Só que, há medida que o Pedro se foi integrando nesse país que é o seu, ele foi entendendo que, apesar das muitas desgraças que nos atingiam, Portugal é um país extraordinário, onde se pode ser feliz sem pedir muito. A partir daí o Pedro Arroja procurou uma doutrina de liberdade que fosse eminentemente nacional e virou costas a um pensamento liberal que ele considera, com razão, estrangeirado, como ele mesmo era por essa altura.

O problema é que, por muito que tenha procurado, não encontrou, na História e no pensamento político e filosófico nacional, nada que verdadeiramente mereça muito mais do que simples menções de pé de página de referências a doutrinas e a autores estrangeiros. Existe um pensamento social e político verdadeiramente português? A resposta, para mim que também pairo por essas águas, é claramente negativa. Herculano não foi mais do que um seguidor de Tocqueville na sua crítica ao centralismo francês, e o seu liberalismo admirava o modelo de vida da Inglaterra. Os homens de 1820, por sua vez, seguiram, quase todos sem excepção, a cartilha francesa do racionalismo cartesiano e do Abade de Sieyès. Fernando Pessoa foi um pensador espasmódico, que tanto abraçou o liberalismo saxónico, como o construtivismo republicano e o delírio esotérico sebastianista. No século XX, não se produziu praticamente uma única linha de pensamento político português original. E, naquele em que nos encontramos, as coisas são ainda piores.

O que ficou então, ao fim de vinte e cinco anos? A inexistência de uma filosofia portuguesa que seja merecedora do país notável que somos, apesar da fragilidade social em que continuamos a viver. Desse ponto de vista, no Cataláxia, do Pedro Arroja, continuamos a encontrar, ainda que vindas de fora, um conjunto de ideias que nunca soubemos produzir e que nos podem ser, ainda hoje, de grande utilidade. À falta de melhor, regressemos, então, a elas. 
Título e Texto: Rui A., Blasfémias, 5-5-2018

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