quinta-feira, 14 de junho de 2018

[Versos de través] Pena capital

Carina Bratt  

Eu era apenas uma avezinha  
Presa numa gaiola pequena
Jogada num corredor
De uma casa enorme.
A casinha de vime ficava pendurada
Bem lá num cantinho.

Ali eu passava os dias,
dias sombrios e
horas entediadas.
Os meses compridos e vazios
e pior, sempre iguais,
sem sentidos, enervantes.

Eu, passarinho.
Avezinha engaiolada, 
Pequena
O corredor
Enorme.
A casa imensa...

A ração de todas as manhãs,
O homem trazia.
Limpava meus dejetos
Trocava a minha água
Às vezes me colocava
Um pouco no sol

Noutras me esquecia
na chuva,
no tempo,
de quando em vez um gato
vigiava curioso,
meus movimentos.

No geral,
tudo era sistematicamente igual,
igual, igual, desleal,
igual, igual, irreal.
Tudo era
Sistematicamente anormal.

E eu, eu passarinho,
a gaiola pequena.
O corredor enorme,
a casa imensa.
E eu seguia inerte,
no meu cantinho.

Se eu pudesse abrir a porta
daquela prisão
e voar... voar... voar...
ganhar a liberdade, a imensidão...
talvez não sofresse tanto
essa dor doida e ingente.

Um dia, ao vir me alimentar,
por descuido o homem deixou
a porta da gaiola aberta.
Então resolvi fugir,
voar... voar... voar...
daquela maldita gaiola não me deixar aprisionada.

Foi quando descobri
O que se escondia
De mim, o segredo, enfim,
O medo da vida lá fora,
O gato, o tempo,
a magia de não poder voltar

De alguma forma,
dentro da gaiola,
eu estava protegida
do desconhecido.
Do que eu nunca vira
nem havia vivido.

Então fiquei.
Não fugi,
não voei...
me aprisionei,
acovardada e temerosa
Desse tempo todo que esperdicei.

Eu passarinho
A gaiola pequena
o corredor enorme
a casa imensa.
Melhor ficar quieta
No meu cantinho... serena.
Título e Texto: Carina Bratt, secretária e assessora de imprensa do jornalista e escritor Aparecido Raimundo de Souza. Do Rio de Janeiro. 13-6-2018

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