sábado, 14 de julho de 2018

[Aparecido rasga o verbo] O Armando


Aparecido Raimundo de Souza

HOJE FUI DE NOVO PASSAR O FINAL DE SEMANA no sítio de meu avô João Raymundo. Logo que cheguei e após ter acabado de tomar o café e saído para o terreiro, escutei quando ele disse ao Waldir, seu capataz:
- Não se esqueça de mandar a peãozada dar o Armando para os cavalos comerem...
Confesso que esse fato me deixou deveras encabulado e constrangido. Sobretudo, aturdido, de queixo caído. Vovô criava e comercializava cavalos da raça Mangalarga Marchador no sitio, entre outras espécies de igual naipe, embora essa, em especial, sobressaísse entre as demais.  

Entre atônito e espantado, surpreso e atabalhoado, aquele fato (ou melhor, aquela conversa dele com o Waldir) me deixou com a pulga atrás da orelha. Não era possível que meu querido avô, a quem eu nutria um carinho especial, e alimentava uma paixão doentia, fosse capaz de fazer uma maldade tão grande com um pobre ser humano. O Armando era isso. Um ser humano. E vovô meu herói favorito. Morava num lugar especial dentro de meu peito. Assim como o Armando. Vovô fazia todas as minhas vontades, como também as de minha irmã Luzia, filha de meu pai Roberto com outra companheira, a Ermelinda.

O Armando em questão vinha a ser um dos filhos da Catarina. Catarina labutava na cozinha junto com a Mirtes. Ambas sob os olhos atentos de vovó Martinha preparavam a nossa comida e também a dos empregados. Armando contava doze anos. Magramente esquelético alto e branquelo, parecia nunca ter visto a luz do sol na vida, embora vivesse exposto às intempéries rudimentares da fazenda. Diferente da Sandrinha, sua irmã. Sandrinha estava como eu, na casa dos quinze anos. Moça bonita, cabelos compridos, seios fartos, pernas bem torneadas, possuía uma bundinha que fazia inveja aos meus pendurados. Eu e Armando gostávamos de espiá-la às escondidas (tomando banho peladinha como veio ao mundo), na cachoeira que distava da casa grande mais ou menos meio quilômetro.

Eu e Armando éramos como irmãos. Unha e carne. Dente e cárie. Xícara e pires. Quando na fazenda, pulávamos cedo da cama e saíamos aprontar. Soltávamos pipas no quintal, matávamos passarinhos, botávamos pedras e galhos de árvores no leito das linhas dos trens que cortavam a fazenda.  De outra feita, soltávamos as galinhas que os empregados custavam para prender depois no galinheiro, botávamos fogo na mata. Enfim. Armando, o meu melhor amigo. Do peito, a quem confessávamos nossos pecados infantis um ao outro, sem medos e receios da entrega, a depois, aos nossos responsáveis.

Armando sabia que eu tinha uma quedinha pela irmã dele. Em nossas algazarras gritos e aprontações nos chamávamos de cunhado. “Se você casar com a minha irmã – dizia ele num sorriso franco -, será meu cunhado”. Nunca brigávamos, mesmo quando certa vez, ao partirmos para as peraltices roubei e escondi as roupas da Sandrinha, que a se ver sem nada para voltar para as obrigações junto à mãe, botou a boca no mundo quando saiu das águas límpidas e frias da cachoeira. 
   
Portanto, vovô João querer dar de comer aos cavalos o meu melhor amigo, o Armando, me deixou sem chão.  Precisava fazer algo. Afinal, ele era meu amigo e mais que isso, a futuro, seria meu cunhado. Eu casaria com a Sandrinha, nem que precisasse mover céu terras e mares para conseguir tal intento. Na minha inocência, imaginei aqueles cavalos brutamonteados se fartando das partes do pobre do Armando. Lado outro, sabia que o coitado não aguentaria, na peida, aquele falo descomunal. Constantemente assistíamos as éguas que coabitavam com os animais. Na hora em que os peões amarravam as fêmeas nas cercas, ou em árvores (o que eles chamavam de cobertura) e o ferro entrava, nos doía as estocadas até os ossos.  O Armando não seguraria o rojão. Um pé de mesa daquele tamanho, puta que pariu! Seu fiofozinho explodiria junto com as pregas.

Diante desse inevitável, o que fazer? Estava com um nó na garganta. Contar a verdade? Se o fizesse, exatamente a quem me abriria? Esquecer? Deixar quieto? Não. Jamais. Ainda que não quisesse, precisava alertar alguma criatura que se predispusesse a me ouvir. No entanto, quem? Com Waldir? Credo em cruz! Ele seria o carrasco que daria a ordem de execução. Algum dos funcionários? Impossível! Ao todo uns setenta. Catarina? Vovô poderia manda-la embora. Mirtes? Nada a ver. Vovó? 

Vovô João nem pensar. Meu Deus! Fora de cogitação. Certamente meu velho consanguíneo se enfureceria. Eu seria expulso da fazenda. Pior, me proibiria de voltar àquele paraíso que eu tanto amava. Sem levar a termo concreto que não mais veria a Sandrinha, o grande amor porvindouro da minha vida. Sandrinha, Sandrinha, por meu amigo e por ela, pelo meu coração, decididamente necessitava fazer algo. Tomar uma decisão. Uma decisão urgente. Sem mais delongas. Resolvi falar com o Waldir.

Afinal, seria ele o capataz de vovô, quem levaria o meu amigão para o abate. Andava, pois, meu “cunhadinho”, na corda bamba. Em péssima situação, por sinal. Carecia fazer isso ou nunca mais me perdoaria. Criei coragem. Imbuído nela, fui.
- Seu Waldir - vomitei, de chofre. - Quando é que o senhor vai dar o meu amigo Armando para os cavalos? Por acaso vai ser hoje?
- Não estou entendendo, meu pequeno patrãozinho. Seu amigo? Que amigo?
- É, meu amigo. Vovô não lhe deu a ordem hoje, depois do café?
- Sim. Deu. Mas... que amigo?
- O Armando. O senhor acha que ele vai aguentar um pedaço de tora igual aos mourões que são cortados para cercar os currais? Pense num troço daquele tamanho entrando na sua... o senhor sabe onde... o Armando é tão franzino e definhado! Poderá morrer... imagine... afinal de contas ele não tem uma... uma perereca igual ao das éguas que vivem aí, soltas pelas quintas de vovô.   

Seu Waldir captou a minha mensagem. A ficha caiu. Deu uma risada longa e gostosa ao instante em que se ajoelhou à minha altura:
- Patrãozinho, precisamos desfazer um grande equívoco aqui...
- Que isso?
- Equívoco? A mesma coisa que confusão.
- Mas seu Waldir, o Armando – interrompi, de novo, aos prantos. – Ele é meu amigo... é dele que falo. E vovô mandou o senhor dar ele para os cavalos. Eu ouvi toda a conversa...
Seu Waldir voltou a gargalhar, não sem antes me acalmar.
- Não chore meu patrãozinho. Vou lhe explicar todo esse mal-entendido. Não é o seu amigo Armando que vamos dar agora à tarde para os cavalos... minha Mãe Santíssima, de onde você tirou essa ideia?

- Vovô...
Seu Waldir colocou a mão direita em minha boca:
- Armando, meu pequeno, nada tem a ver com seu amigo Armandinho, de quem gosto tanto, filho de dona Catarina, nossa cozinheira. Esse Armando ao qual se referiu seu avô, meu patrão, é uma espécie de papa que damos aos cavalos, para abrir-lhes o apetite...
Diante desse esclarecimento me acalmei. Sai correndo, desembestado, alegre, saltitando o coração, misturando lágrimas e emoções, emoções e lágrimas, num só contentamento dentro do âmago ainda em frangalhos. Meu amigo Armando e seu rabicó estavam salvos.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista. De Brasília, Capital Federal. 13-7-2018

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Um comentário:

  1. Os grandes enganos da vida , se dão nas incompreensões simples da vida.

    Tiago de Souza

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