quarta-feira, 25 de julho de 2018

[Aparecido rasga o verbo] Raio de giro

Aparecido Raimundo de Souza

LIGUEI PARA O SAC, Serviço de Assistência ao Consumidor, em face de uma caixinha de cotonetes que comprei na farmácia.

No segundo toque, uma jovem de voz agradável me atendeu:
- Bom dia, senhor. Meu nome é Márcia. Em que posso ajudá-lo?
Falei:
- Bom dia. Estou com um problema com um cotonete que adquiri de vocês agora pela manhã, na farmácia aqui perto de casa.
- Que problema, senhor?
- Assim que abri a caixinha e me dispus a usar uma unidade, o algodãozinho que fica na ponta, se soltou...
- Não entendi, senhor. Pode, por favor, repetir? 

- O algodãozinho da ponta se soltou...
- Entendi. Senhor, o algodãozinho da haste se soltou. De qual das pontas, o senhor saberia precisar?
- Não.
- As nossas “cotonelas” são flexíveis e inquebráveis...
- Eu sei, filha. Quanto a isso, não tenho a menor dúvida. O que estou tentando lhe dizer é que a que pretendia usar, soltou o algodãozinho da ponta. 
- Perfeito, senhor.  Entenda. As nossas “cotonelas” são flexíveis e inquebráveis. Os algodões que revestem as cabecinhas das hastes são macios e absorventes...

Comecei a ficar nervoso.
- Senhorita, me ouça com atenção. De tudo isso eu sei. Não precisa repetir. Liguei para vocês, para informar que ao abrir a caixa de cotonetes o algodãozinho que fica na ponta...
- Ok, senhor. Entendi!
- Então, o que eu faço?
- O senhor não respondeu a uma indagação que fiz. De qual ponta da haste o algodãozinho saiu?
- Como vou saber?
- Senhor, nossas “cotonelas...”.

- Pelo amor de Deus... de novo não.
- Calma, senhor. Deixa terminar. Se formos por esse caminho não chegaremos a um acordo.
- Tudo bem, prossiga.
- De qual lado da haste, insisto... de qual lado da haste, o algodãozinho se soltou?
- Filha, não sei. Não existe nada que demarque os lados.
- O senhor concorda que elas têm duas bandas distintas?
- Concordo plenamente.
- E quando o senhor introduziu – devo imaginar que para fazer a limpeza de um dos ouvidos, o algodãozinho se soltou. Correto?

Aquela imbecil efetivamente estava tirando uma com a minha cara. Resolvi ponderar. Contei até dez.
- Correto...
- Pois então, repare. Na embalagem vem escrito que não se deve introduzir as hastes no canal dos ouvidos externos. Digo internos. Está seguindo meu raciocínio?
- Estou. Continue...
- O senhor deve manter o conteúdo fora do alcance de crianças. O senhor tem filhos?
- Querida, como é mesmo seu nome?
- Márcia, senhor. Em que posso ajudá-lo?
- Princesa, preste atenção. Agora cedo fui usar um dos seus cotonetes e o algodãozinho de uma das pontas...
- O senhor já relatou esse fato. Ponto pacífico. Gerei um protocolo de atendimento. Por favor, queira anotar... 8... 5... 2...

Meu lado animal, de repente, aflorou:
- Senhorita, por tudo quanto é mais sagrado, me ouça. Não quero saber de número de protocolo.
- Tudo bem. Esqueçamos o protocolo. Voltando às “cotonelas”, devo lembrá-lo que as nossas hastes são de polipropileno, algodão embebido em hydoxyethyl celuloseado com solução antimicrobiana (ou cloreto de benzalcônio). As nossas “cotonelas”, como um todo, têm validade de três anos, a partir da data da fabricação. O senhor olhou no recipiente em que vieram se a data de validade está dentro do período pré-estabelecido pela embaladora, perdão, pelo fabricante? Outra coisa...

Interrompi colérico, completamente fora de mim:
- Minha fofa e elegante Marcinha... gatinha linda... posso dizer uma coisa que está entalada na minha garganta para terminar nosso papo?
- Sinta-se à vontade, senhor...
Quando ensaiei um baita palavrão bem cabeludo para dizer a ela, e, de roldão, mandar enfiar as informações das tais “cotonelas” com protocolo e tudo naquele lugar, meu telefone desligou. A bateria havia acabado.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista. Do Hospital Meridional, Serra, Espírito Santo, ES. 24-7-2018

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