quinta-feira, 5 de julho de 2018

O Jornal de Angola não aprende nada

Moaini Matondo


Neste tempo de aparente renovação, o que se pode dizer do Jornal de Angola é que “não aprendeu, mas esqueceu”. Vem isto a propósito do recente editorial “O debate autárquico e os cépticos”, publicado a 3 de julho passado.

Mas antes, revisitemos a História. Em 1814, em França, um novo rei Bourbon, Luís XVIII, assumiu o poder depois da tempestade da Revolução Francesa e de Napoleão. O seu irmão mais velho, Luís XVI, havia sido guilhotinado nos alvores da Revolução, em 1793, à semelhança de muitos outros familiares. Mesmo assim, quando restaurou a dinastia, Luís XVIII repetiu comportamentos do falecido irmão morto e perseguiu os antigos revolucionários. Em consequência, a família apenas reinou por mais 16 anos, sendo definitivamente erradicada do trono francês em 1830. Pelos seus erros constantes e reiterados, diz-se dos Bourbons que “não aprenderam, nem esqueceram”.

Voltando ao Jornal de Angola: o editorialista dedica-se a um exercício de enaltecimento das virtudes do “processo de auscultação e recolha de contribuições para o pacote legislativo sobre as eleições autárquicas”. Depressa, porém, deixa cair a máscara e fustiga as vozes dissonantes, os cépticos e os contraproducentes. Assanhado, acusa os cépticos de produzirem “alusões infundadas segundo as quais ‘estava tudo cozinhado’ e que o presente processo mais não era senão um mero exercício sem qualquer relevância”.

Mas então, na perspectiva do Jornal de Angola, o que é a auscultação? É emitir uma dúzia de rascunhos de normas jurídicas mal amanhadas e pedir contribuições na distribuição das vírgulas e dos pontos finais?

De facto, o Jornal de Angola não aprendeu nada sobre o que é a democracia. A democracia é o dissenso, a diferença de opiniões, a oposição. É deste exercício de dissonância, de crítica, de cepticismo que nascem as soluções democráticas. Se não existisse o cepticismo, Galileu nunca teria descoberto que a Terra se move à volta do Sol, e ainda todos julgaríamos que a Terra era o centro do Universo. Foi o cepticismo que permitiu a evolução da ciência e da humanidade. Mais do que qualquer outra atitude, a atitude céptica é a grande responsável pelo progresso.

Ah! Mas no Jornal de Angola ainda julgam que o Sol anda à volta da Terra e esta é o centro. A Terra do Jornal de Angola chama-se agora João Lourenço, outrora José Eduardo dos Santos. E os cépticos que duvidam de que estas personagens sejam o centro do mundo estão condenados à fogueira.

É aqui que entra o esquecimento. O Jornal de Angola esqueceu-se dos anos em que, em uníssono com a restante imprensa estatal, defendeu de forma canina o saque do país, a impunidade, a ditadura, tudo em nome do patriotismo e do semi-endeusamento de José Eduardo dos Santos, assim como da inexistência de vozes dissonantes. Esqueceu-se das loas que teceu a José Eduardo dos Santos e à sua família. Esqueceu-se que defendeu empedernidamente a posição de Isabel dos Santos como presidente da Sonangol, que agora ataca.

Não aprende, mas esquece.

Infelizmente, a incapacidade de aprendizagem é o traço constante do Jornal de Angola. Antes atacavam quem José Eduardo dos Santos mandava. Agora atacam quem João Lourenço manda. Os atacados são, exclusivamente, aqueles que o presidente em exercício indica, caso contrário já teriam surgido umas questõezinhas sobre a impunidade de Manuel Vicente…

A verdade é que o Jornal de Angola não investiga, não tem iniciativa. Vive de invectivas alucinadas e do que lhe mandam dizer.

Se quer discutir as autarquias, devia discutir, desde logo, a inconstitucionalidade deste processo de gradualismo geográfico, que só existe na imaginação dos estrategas do poder, ou apresentar-nos modelos comparados. A realidade é que, para as autárquicas, está a ser montada mais uma farsa. Onde se viu um país que demora vinte anos a instaurar autarquias? Em que o partido do poder escolhe onde vão ser as primeiras eleições?

Se o MPLA quisesse levar a sério a criação das autarquias e respectivas eleições, se estivesse minimamente empenhado no processo próprio das democracias, teria chegado a um acordo de regime sobre o tema com os principais partidos da oposição. Assim, é o partido que define tudo, uma pura batota… E é este partido-Estado, este regime despótico, que o Jornal de Angola defende.

Não há discussão, nem democracia no Jornal de Angola, apenas uma sintonização obediente e servil com o novo chefe.

O Jornal de Angola esqueceu o seu velho dono, mas não aprendeu nada.
Título, Imagem e Texto: Moaini Matondo, Maka Angola, 4-7-2018

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