domingo, 8 de julho de 2018

Os (a)pagadores de promessas

Nuno Rogeiro

A Europa parte-se, quanto aos imigrantes e aos refugiados. Todos os acordos são limitados, duvidosos, quase não sinceros. O dito “populismo” que se propaga, é que devora governos a fio, é a reação natural às pomposas declarações, às grandes promessas e aos enormes planos, que levaram ao caos e ao impasse.

Em 2013 explode a crise entre Passos Coelho e Paulo Portas. Há uma demissão por SMS, nervos e picardia, a intervenção pacificadora e austera de Cavaco. Salva -se por um triz o "governo de salvação nacional".

Tudo derivava, para além das abismais diferenças pessoais, de um problema político real: como reagir, com rigor, mas sem injustiça social, à crise da dívida soberana e ao ultimato da troika, depois da bancarrota socrática?

O mesmo para o corrente drama de faca e alguidar entre Angela Merkel, da CDU, e Horst Seehofer, da fracção/facção bávara CSU. A chanceler quer continuar uma política de imigração "responsável", mas que respeite "as responsabilidades e os compromissos" europeus, enquanto o ministro do Interior exige restrições severas, e controlos fronteiriços cada vez mais rigorosos, em face do que apelida de "compromissos ocos" e "falhanços estrondosos".


Seehofer não está sozinho: tem o chefe do governo da Baviera, Markus Söder, e o chefe das regiões locais, Alexander Dobrindt, consigo. E percebe que, por causa da pressão demográfica (real ou imaginada), está a refundar-se o sistema partidário alemão, com o triunfo relativo do AfD.

Merkel também não luta sem aliados. O principal apoio vem da legitimidade histórica da sua experiência e sobrevivência. Depois há o encorajamento – modesto, mas detectável – de Emmanuel Macron e outros líderes da "velha ideia" de Europa. Por fim, o suporte de boa parte da CDU e do SPD. Mas estes, como os chefes europeus referidos, estão também em crise e em recuo.

O principal culpado, o papão, a besta negra, é, evidentemente, o "populismo".

Mas o que é o "populismo" senão outro nome para a impaciência de cidadãos cansados de uma "democracia" meramente representativa e indireta, ritual e cíclica?

E este "populismo" não é mais do que a reação a uma outra forma de demagogia. A dos grupos irresponsáveis da dita "esquerda radical" (o que vale hoje um rótulo?), que advogaram uma imigração sem verificação biométrica, sem limites, sem medição das possibilidades de acolhimento, integração, sustentação e incentivo ao retorno.

A frase destes tribunos, entretanto abandonados pela plebe, hoje silenciosos, era "deixem entrar, e depois veremos".

Vimos. Estamos agora na fase de (a)pagar as promessas.

Todos perceberam, a partir de 2012-2014, que a Europa seria a fortaleza decadente, mas ainda assim próspera, invadida por sobreviventes de guerras mais ou menos próximas. Todos entenderam que era preciso ser generoso e lidar com a emergência. Mas do acordo de princípio nunca se chegou à disciplina dos meios, nem à sólida construção dos fins.

Estamos assim num novo impasse, mesmo que as torrentes migratórias já não sejam as avalanches que italianos, gregos e espanhóis tiveram de enfrentar, quase sozinhos.

Devemos fortificar a guarda-costeira líbia? Devemos ajudar Marrocos, a Tunísia, o Egito, a construir megacampos de acolhimento, seleção e triagem? Como acabar com a guerra na Síria, e convencer os vivos a regressar aos sítios de morte? Como responsabilizar os estados vizinhos da Síria e do Afeganistão, que deixaram à Turquia, ao Líbano e à Jordânia todo o ónus humanitário? Como criar um cordão sanitário em torno do intratável Sahel?

Demasiadas perguntas, demasiadas incertezas.
Título, Imagem e Texto: Nuno Rogeiro, SÁBADO, nº 740, de 5 a 11 de julho de 2018

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