sexta-feira, 3 de agosto de 2018

[Aparecido rasga o verbo] As desculpas do “Se...”

Aparecido Raimundo de Souza

Se eu fosse vivo, juro que não morreria de novo”.

SE EU TIVESSE DINHEIRO, faria uma viagem ao redor do mundo, do meu mundo particular e, depois, voltaria correndo à realidade, não do meu mundo, mas do planeta que gira descontroladamente do lado de fora de mim mesmo. Declamaria versos de cordéis de um poeta cearense batizado Jesus Sindeaux, que, como buen hijo de su tierra, no duda em cantar sus composiciones al que las quiera escuchar. Em seguida, roubaria uma das mais de cem pedras gigantes do famoso Lajedo de Pai Mateus, plantado no Sertão do Cariri, em Cabaceiras, a mais ou menos duzentos quilômetros de João Pessoa e colocaria como se fosse um troféu na entrada do meu condomínio.  

Se eu não tivesse medo de entrar num avião, iria conhecer Chinatown, onde viveu minha namorada Débora, desde os cinco anos, um bairro oriental fora da Ásia, com suas ruelas apinhadas de vendedores, letreiros, que misturam inglês com mandarim e restaurantes típicos de cada canto do país de origem. Abraçado a ela, entre beijos e abraços, rumaríamos para o Columbus Park, bem cedinho, logo assim que acordássemos para nos encantarmos com uma música suave, casi de meditación, que acompanã a los practicantes de tai chi chuan.

Se fosse solteiro, nos meus pés não faltariam mulheres bonitas do tipo da Sabrina Petráglia ou da Isis Valverde. Se eu fosse casado, seria fiel às minhas esposas e infiel a uma das amantes. Claro que levaria a todas (uma de cada vez) para um passeio de chalana pelo Corixo São Domingos. De repente, se me desse na veneta, jogaria uma delas (ou todas, quem sabe?!) entre meio as águas cheias de piranhas desse suntuoso paraíso.  Depois me esconderia na fronteira da Argentina com o Chile, entre as Torres Gêmeas do Parque Nacional del Paine e por lá ficaria entocado até que me desse na veneta de voltar.

Se eu não fosse viciado em cigarros, guardaria dinheiro para comprar uns maços clandestinos no Paraguai e vender para otários fora do Paraguai. Se fosse bom de bola, ou se soubesse chutar com precisão, acertaria a cabeça do Belgo, o filho de um vizinho meu, que já me quebrou o vidro do para-brisa do meu carro no estacionamento na garagem por duas vezes consecutivas. Acaso desse problema com os pais, fugiria feito cachorro assustado para o Jalapão, em Tocantins e por lá me acalmaria até à próxima colheita do capim dourado.

Se soubesse dirigir, compraria uma bicicleta elétrica igual as que rodam por toda Tel Aviv e levaria a Glorinha, do seu Moacir, para dar uma volta no quarteirão. Se soubesse brigar, dava uma tremenda porrada na cara do português da padaria e outra na fuça do Pedrão da quitanda. No português da padaria, porque fabrica uns pães duros que não deveria vender, mas dar para a mãe dele. No Pedrão porque gosta de bancar o esperto e vender nabos estragados nas feiras de domingo, como se fossem fresquinhos. Fresquinho, todos nós sabemos, é o filho do Berredo que, às escondidas, senta no pepino do filho do Moacir da Mercearia e morde a cenoura do Julinho, enteado do seu Calisto, da barbearia.

Se pudesse voar, voaria no pescoço da Cléo, uma vizinha gostosa pra chuchu, que anda pelada em seu apê, fazendo umas poses sensuais diante de um espelho em formato de coração. Outro dia, de sacanagem, ela telefonou para a polícia, alegando que me flagrara dando ‘uns amassos’ numa boneca inflável que eu trouxera de um camelô da ‘Vinte e cinco de março’, enquanto espiava para o interior da residência dela, por detrás dos olhos atentos das cortinas.  De contrapeso, se eu não fosse medroso, teria escapado de passar uma noite inteirinha na delegacia. Atalhava pelo alpendre do meu apartamento que fica situado no décimo andar e varava no contíguo do meu amigo Sinfrônio e deixava os babacas da lei batendo com seus focinhos e insígnias da Civil no corredor a minha espera.  

Se eu fosse dono de... meu Pai Eterno, se eu fosse dono de mim... passaria os cinco dedos em meu coração e juntaria meus trapinhos velhos com as calcinhas fogosas da Tieta (não a ‘do agreste’, de Jorge Amado, ou a ‘cansada de guerra’, do mesmo autor). Sairia da vista de todos, com meu banquinho de pai de santo fajuto e promoveria no cemitério de São João Batista, perto daqui de onde moro, um festival de músicas sertanejas para defuntos famosos recém-chegados. Gritaria ‘eu te amo’ para a Jéssica, uma jovem que faleceu semana passada, vítima de uma bala perdida (que ela achou não se sabe como) na favela da Rocinha. O meu problema, porém, é que as calcinhas da Jéssica foram doadas para o Centro de Captação de Recursos Retiro dos Artistas, em Jacarepaguá. Até onde sei, essas lingeries com as quais ela desfilava mostrando, ‘entre aspas’, seus dotes magnânimos, estão com os pneus arreados pelas cuecas incansáveis do Toni Ramos. 
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista. De Assis, Estado de São Paulo. 3-8-2018

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Um comentário:

  1. São tantos "se"já virou moda,quem nunca ficou na dúvida se vai ou fica,ou se eu pudesse,ou se eu tivesse enfim sempre haverá essa expectativa, sempre haverá um motivo para tantos "se" ate que chega um momento que tudo fica cruel e você desiste do se.Parabens ótimo texto

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