terça-feira, 7 de agosto de 2018

[Aparecido rasga o verbo] Estágio três

Aparecido Raimundo de Souza

E talvegue a vez de quem talvez não mais navegue”.
Rico Salomão no pórtico de seu livro “Painel de Silêncio”. Editora Independente. 2018.

- Aqui dentro é realmente complicado. Nada para se fazer nada para se distrair nada para se comer. Nada para se ver ou ouvir. Uma televisão para eu acompanhar os jogos do meu Botafogo. O que mais apavora? Ficar o tempo todo deitado. Ou aqui, como estamos agora, parado feito dois idiotas olhando para o tempo. Estou com o corpo cansado. Moído. Meu Deus! Reparou que ando meio arcado?

- Ao amigo assiste total razão. Realmente aqui é um pé no saco. Me atrevo a ir até mais além. Se ao menos tivéssemos uma academia para dar trabalho aos ossos, uma biblioteca, uma piscina, uma pracinha para a gente se sentar e jogar uma partida de buraco, dama, xadrez ou sei lá. Qualquer merda seria melhor que essa ociosidade. A ociosidade escraviza a alma. E o nada para fazer, envelhece o espírito, enruga o coração.

- Verdade. Falei com o seu Elizeu aqui do nosso lado. Ele me garantiu que falaria com o administrador, mas, ao que parece...
- Vai ver esqueceu. Depois que a gente vem para cá e fica longe da família, dá uma espécie de leseira mental irreversível. A mim, por exemplo, às vezes me custa lembrar certas coisinhas básicas, como a rua e a quadra que moramos, o lote, o número do buraco.

Risos.
- Comigo não é diferente. O mesmo fato ocorre. Ontem mesmo a Samanta me perguntou a idade e você acredita que deu um branco?
- Acredito.
- Um porre, quando isso vem à tona.
- Verdade.
- E conseguiu lembrar depois?
-Sim... foi só sair da beira dela, pimba, tudo aclarou.
- E para que a Samanta queria ou quer saber a sua idade?
Esquece. Não vem ao caso.

O outro interlocutor, todavia, com um sorriso de deboche, insistiu:
- Fale.
- Coisas de mulher. Elas são curiosas aos extremos.
- Desembucha. Para que todo esse mistério?
- Estamos trocando ideias.
- Entendi. Havia percebido.
- É?
- Sim... vocês dois falam pelos olhos...
- Bom saber.
- Dá para a gente captar de longe que entre vocês rola um queimão, como dizem os jovens.
- Entendo.
- Por conta disso, posso fazer uma pergunta indiscreta?
- Faça.

- Ela é bem mais nova que você, não é?
- Sim é. E muito. E eu pergunto: e daí?  No que isso muda as coisas? O que importa o que manda o que conta é o coração.
- Isso mesmo. Você está coberto de razão. A propósito disso, qual a sua idade?
- Cinquenta.
O indagante caiu na mais estrondosa gargalhada.
- Cinquenta? Fala sério!
- Estou falando.
- Depois de velho deu para mentir. Quando você veio para cá tinha sessenta. Vinte anos se passaram, desde então. Logo...

- Logo?
- Você está hoje, pelas minhas contas, com oitenta ou mais um pouquinho. E bota pouquinho nosso...
- Tudo bem. Aonde exatamente você quer chegar?
- A lugar nenhum. Aliás, aqui nas nossas condições atuais não chegaremos à parte alguma.  Estamos no mesmo barco. Futuro incerto dias sombrios noites escuras.
- Esquece. O que importa é o amor. Confesso sem medo de errar. Estou amando. Ela idem. Não conta, pois, a nossa diferença de idade.
- Quando Samanta chegou aqui, me lembro como se fosse hoje.   Ainda uma menina. Vinte e dois anos. Brigara com o namorado, os dois se desentenderam... e então...
- De tudo isso eu sei. Ela me contou.  Repetindo o já dito. Não me incomoda a idade que ela tenha. Como você mesmo disse, “nós dois falamos pelos olhos”.

O perguntante não dava tréguas. Queria infernizar.
- Cá entre nós. Não me leve a mal. Ela tem idade para ser sua filha ou pior, neta.
- O quê?
- Brincadeirinha. Escapou sem querer.
O amigo para não sair do sério imitava zombando da cara do chato. Além de vazio de ideias, a figura era um fatigante maçador. Para rebater a altura, a essas tiradas sem graça, mudava a voz de propósito para dar mais ênfase à observação recebida:
- “Brincadeirinha. Escapou sem querer”.
Ao que o mala sem alça respondia, tentando emendar a sua estupidez.
- Desejo sorte. Afinal, todos nós temos direito a felicidade. O amor é eterno.
- E você? Não se abriu para o amor?
- Claro que me abri.
- Temos umas gracinhas aqui em volta de nós. É só escolher. Gina, Luana, Vera Lúcia, a dona do salão, a Cacilda da padaria...
- Eu sei que temos. Foi daqui mesmo que escolhi. Todavia, depois da Lindinha... não quero mais saber de me apaixonar.
- O que houve com a Lindinha? Não conheci!
- Partiu uns dias antes de você se mudar de mala e cuia para cá. Foi meu grande amor, depois da minha falecida Amância com quem estive casado mais de quarenta anos. Conheci a Lindinha aqui na entrada do condomínio, e como aconteceu com você, amor à primeira trocada de olhares. Fiquei com os quatro pneus furados.
- Uau! E o que aconteceu? Você nunca comentou sobre esse particular.

- Verdade, meu amigo. Vivemos uma paixão muito forte, prometia, inclusive, ser imorredoura.
- Prometia?
- Sim. Apesar da minha idade avançada... ela mais nova que eu vinte e oito anos... chegou a engravidar... imagine... de repente...
- Continue...
O cricri, nesse momento, começou a chorar como uma criança que perdera um presente valioso. Naquele sujeito sem nexo e irritante, vulgar e calombo, surgiu um semblante amargurado. Dois olhos entristecidos sobressaíram em seu rosto consternado.  No lugar do pegajoso que se abria sempre em deboches e pilhérias, uma mágoa profunda, fechada, doida e inconsequente, se altaneirou:

- Vamos, meu amigo. Se abra. Sou seu amigo...
- O tempo dela... sabe essa história dos cinco anos? Pois então! A coisa venceu. Ela não tinha, como nós, a perpétua. A administração ligou.  Dias depois os irmãos, juntamente com os pais, vieram aqui e transferiram os restos mortais dela para outro cemitério.  
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista. Da Bienal do Livro, São Paulo, Capital. 7-8-2018  

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