terça-feira, 14 de agosto de 2018

[Aparecido rasga o verbo] Nervosa agonia em surto contagiante

Aparecido Raimundo de Souza

OS BANDIDOS CHEGARAM de supetão e pegaram o casalzinho dentro do carro, de surpresa. Os jovens estavam numa estrada deserta, nos arredores da cidade, de onde uma vista maravilhosa se descortinava à frente deles. O mais forte dos dois meliantes, anunciou o assalto batendo na janela entreaberta do motorista enquanto o outro se deslocava para a porta do carona.
- Perdeu, perdeu. Quietinhos. Mãos na cabeça.

O casalzinho, no maior agarramento, tomou um susto tremendo.

- Calma aí, meus amigos. Podem levar tudo. Aqui está a chave do carro. Minha carteira tem grana. Pode olhar.  Só nos deixa ficar vivos. Calma. Vou liberar a minha namorada...
- Cala a boca, seu covarde. Pula pra fora da charanga e tira o tênis, a cueca, a calça, e a camisa.
- Amigo, quê isso?
- Um assalto diferente, seu imbecil. Obedeça e não discuta. Tira tudo como mandei. Vamos. Tudo...

- Ok.
- Rápido.
- Calma, meu amigo. Não faça nada com a minha namorada.
- Fecha essa matraca.
- Pronto. Está tudo aí.
- Legal. Agora “pro banco” de trás. Devagar sem fazer gracinhas ou leva um caroço de azeitona no meio da fuça.

Pelado e acomodado à primeira vítima, o bandido se voltou para concentrar sua fúria na bela e estonteante companheira. 
- Agora é a sua vez, gracinha. Saia do carro e tira o vestido.

Gritou para o outro comparsa.
- Vigia o galã. Senta ali do lado dele. Vamos, moça, o vestido.
- Senhor, vai me deixar pelada?
- O vestido...

Sem saída a jovem obedeceu.

Ambos os sujeitos nessa hora, arregalaram os olhos ao verem as partes da formosa expostas à visitação de suas bestialidades mais peçonhentas.
- Cadê a calcinha?

- Ficou aí dentro do carro.
- Pega. Quero a calcinha.
- Pra quê?
- Pega, vadia. E não faça perguntas.

De novo, a jovem acatou. Que poderia fazer diante de uma arma engatilhada?
- Muito bem. Agora “pro banco” com seu amorzinho. Rápido. Não tenho todo o tempo do mundo. Vai, vai...
A moça se acomodou ficando entre ela e o namorado, o segundo vilão.
- Para onde pretende nos levar, amigo? Vamos conversar... olha eu posso...
- Quem faz as perguntas aqui sou eu. Quem pode ou não pode aqui sou eu. Nem um pio. Ou morre. Quer ver papai do céu mais cedo?

O que abordou o casal assumiu o comando do volante.  Nesse interregno, enquanto o carro se movimentava ligeiro, o outro delinquente começou a assediar a lindeza escultural que viajava ao alcance de sua maldade.

- Nossa, que boca perfeita, que seios lindos... que pernas maravilhosas. Aí, gatinha vou dar uma pegadinha. Uauuuuuu!...
A garota se debateu, tentando fugir das investidas. Em vão.
- Pelo amor de Deus. Pare com isso...
- Eu dou as ordens. Fecha essa boca imunda.

O namorado num ato impensado partiu em defesa agredindo o contraventor. Porém, acabou tomando fortes tapas e safanões no meio do rosto, a ponto de sangrar o nariz.

- Quer morrer, desgraçado? Veja o que faço com a sua amada.
E virando-se para a garota, trêmula e chorosa.
- Fica de lado. Quero ver o seu traseiro...
- Moço, pelo amor de Deus. O que vocês querem com a gente?
- Cala a boca, sua vagabunda vadia. Se começar a latir vou lhe dar, além de umas dedadas no meio do rabo, “umas cacetada” na sua carinha de anjo. Olha pro seu queridinho aqui do meu lado. Viu como deixei o focinho dele?

O carro cruzou toda a cidade e seguiu em direção a grande ponte que atravessava o canal. Os desalmados, na verdade, estavam saindo de uma cidade e indo para outra, pela via expressa. Abaixo deles, um mar escuro e imenso como a noite sem estrelas, dava medo. Entrementes, o carro estancou. Freou na parte mais alta da estrutura.  Pouco movimento àquela hora. O que viera ao volante, desceu, deu a volta e abriu a porta traseira. Puxou a moça pelos braços, numa violência desnecessária.
- Venha.
- O que vai fazer?

O segundo capanga fez o mesmo com o rapaz.
- Fora, seu cu sujo. Olha o que me aprontou. Cagou nas pernas e ainda sujou toda minha calça de bosta. Filho da puta.

Os dois facínoras arrastaram o casal para perto da amurada da ponte.
- Suba gostosa.
- Moço, me escuta.  Tenho medo de altura.
- Suba. Deixa de frescura.
Completamente manietada a infeliz se subjugou. Trepou na amurada tentando não olhar para baixo. O outro parceiro sinalizou procedimento idêntico ao rapaz.

- Muito bem, seu frescalhão.  Fique ao lado da sua namorada. Não se mexam. Qualquer movimento será fatal. Dê uma olhada básica em volta. Repararam na altura? Vista linda não acham? Sentem um friozinho na barriga?

O casal como veio ao mundo, em pé sobre o parapeito traiçoeiro, qualquer descuido poderia selar seu destino de forma fatal, o que levaria, sem dúvida alguma, os dois para os braços tétricos da morte. Carros e mais carros começam a parar, atravancando o trânsito. Pessoas saíam para ver o que acontecia. Uns com câmeras fotográficas, outros com celulares. O caos se formou. Em questão de segundos, toda a ponte se transformou num congestionado infernal em paralela ambidestria, apesar das quatro pistas que compunham o complexo.

Sem perda de tempo, e em meio à balbúrdia que se generalizou, os fora-da-lei sinalizaram aos infelizes obrigando-os a se despencarem  projetados num pulo sem volta.
- Salta aí sua sem vergonha, você também, cagão. Ou “levam bala”.

A moça gritava em prantos. Implorava desesperada:
- Moço, pelo amor de Deus, nós vamos morrer. Deixa a gente ir embora. Por favor...
- Salta agora os dois ou leva chumbo “nos peito”. Vou contar até três. Um... dois...
Os enamorados, sem saída, sem ter para onde correr, acuados, se deram as mãos, se abraçaram e então se precipitaram no espaço.

Sirenes de carros da polícia abriam caminho em meio à fuzarca. Juntos, bombeiros e ambulâncias, repórteres dos canais de televisão, a multidão de transeuntes e curiosos, todos, a um só coro em uníssono, esturravam, esbravejavam, fremiam, por uma aproximação emergencial. O que estavam assistindo, não tinha como ser descrito. “Os caras fizeram os jovens pular - vociferou um”.  “Filma, filma, filma isso – estardalhaçou outro”.

Nessa hora, contudo, o imprevisto, o inesperado. O inopinado, o brusco incogitado. Os dois criminosos subiram igualmente no gradil da proteção se beijaram se deram as mãos e, como as duas vidas inocentes que haviam acabado de sacrificar, se arremessaram, numa dança dantesca e macabra, no vórtice em direção ao nada. 
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista. De Ribeirão Preto, São Paulo, Capital. 14-8-2018

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