domingo, 19 de agosto de 2018

Tendências Outono-Inverno: o Bloco quer e o fascismo obrigatório

Helena Matos

A Vogue diz que na próxima estação as sobrancelhas serão finíssimas. Nós antecipamos as tendências da política: vai usar-se o fascismo obrigatório e o básico dos básicos continuará a ser o "Bloco quer"



Digamos que é muito querer para quem conta com tão poucos votos! Contudo, basta o BE querer para que logo todos nos sintamos obrigados a querer o mesmo. Caso incorramos na heresia da discordância rapidamente percebemos que a vontade do Bloco será realidade. Quer queiramos quer não.

A outra característica do dogma “Bloco quer” é que nunca se pergunta: o que pretende o Bloco com tanto querer? Apresentadas invariavelmente como virtuosas – quem é capaz de se dizer contra o combate à desigualdade ou à violência doméstica? – as propostas do Bloco não resolvem problema algum, mas, e para isso é que elas servem, acrescentam esse conglomerado ideológico de regulamentos e multas aplicados por comissões e comissariados que ninguém escrutina e cujos poderes não cessam de crescer. Por exemplo, a quem serve a criação de tribunais exclusivos para julgar violência doméstica?  E para quê tribunais especiais para a violência doméstica e não para a violência nos assaltos?…

Quanto à penalização das empresas com maior desigualdade salarial que sucedeu à penalização das empresas que recorrem a contratos  a prazo que por sua vez sucedeu à luta contra a segregação ocupacional que como sabemos substituiu a luta contra a disparidade salarial entre géneros …  digamos que é um clássico da chamada doutrina Robles: a casta faz o que quer, vive como lhe apetece e retira todas as vantagens proporcionadas pelo regime que diz abominar. Esse seu estatuto privilegiado é mantido através da manutenção de um estado de luta constante contra inimigos públicos periodicamente revistos e atualizados: fascistas, capitalistas, machistas, racistas, patrões exploradores, senhorios…

Reservado o direito de admissão. Varoufakis em Lisboa? Claro que sim e com direito a lugar de honra no desfile do 25 de Abril de 2018. Entrevistas de fundo e fotografias com glamour. Sim, estamos a falar do mesmo Varoufakis que enquanto ministro das Finanças pirateou os dados dos contribuintes gregos e do seu próprio ministério. Também podíamos falar de Jeremy Corbyn cujos parceiros de conferências em Portugal não se mostraram até agora inquietos com o antissemitismo de Corbyn, um antissemitismo que o levou a participar em atos tão questionáveis quanto uma homenagem aos terroristas que durante os Jogos Olímpicos de Munique  de 1972 assassinaram os atletas da delegação de Israel depois de os terem torturado sadicamente (note-se que a participação nesta homenagem não foi um disparate da juventude do senhor Corbyn mas sim um ato político de um político mais que maduro).

Corbyn e Varoufakis são apenas dois nomes na imensa lista de pessoas de pensamento e atos muito questionáveis que vieram a Portugal defender os seus pontos de vista sem que alguém pusesse em causa esse seu direito. Quem não pode vir a Lisboa é a Marine Le Pen, pois caso o seu nome se mantivesse entre os oradores da Web Summit era mais que certo a ocorrência de problemas.

Não sei se os organizadores da Web Summit sabiam qual o tema que Marine Le Pen iria abordar. Creio, contudo, que é da maior atualidade ouvir a líder da extrema-direita francesa falar sobre a participação dos extremistas nos governos a reboque dos partidos do centro. Entendamo-nos, Marine Le Pen só não chegou ao Eliseu porque em 2012 e 2017 os gaullistas não aceitaram fazer uma geringonça de direita. Ou seja, se em 2012 Sarkozy ou em 2017 Fillon tivessem feito um pacto com Marine Le Pen nem Hollande nem Macron teriam sido eleitos. Mas a direita francesa não quis aliar-se à extrema-direita. Percebido? Interessante será também ouvir o que tem Marine Le Pen a dizer sobre a emigração portuguesa em França. Aos mais inebriados com o rótulo de anti-imigração que é colado a Marine Le Pen convirá recordar que nas eleições regionais que tiveram lugar em França no ano de 2015 um quarto dos candidatos luso-descendentes concorreu pelo partido chefiado pela mulher que agora foi desconvidada a vir a Lisboa.

(Note-se que o conceito de anti-imigração é o sucedâneo do Natal que era quando um homem quisesse. Por exemplo, declarar que há que investigar a atividade dos navios que como o “Aquarius” se dedicam a recolher os migrantes largados pelas máfias do tráfico na Líbia é ser-se anti-imigração, já o governo da Nova Zelândia proibir a venda de casas a estrangeiros é uma medida de proteção dos cidadãos nacionais face à especulação imobiliária).

Fascismo obrigatório. Neste Outono não saia à rua sem ter à mão o seu fascista. Não sabe o que dizer numa conversa? Diga “aquele fascista horroroso do…” Se não se lembrar de ninguém o Trump serve sempre e vai ver que feita essa imprecação ao fascista de turno torna-se logo numa pessoa informada. Mais a mais ninguém contraria os malucos nem as pessoas que falam de fascismos e de fascistas pois de imediato se passa a ser fascista e isso é que não pode acontecer de modo algum.

Na prática o “fascismo nunca mais” tornou-se um “fascismo todos os dias”. Mesmo que ao contrário do que acontece com os comunistas ninguém se diga fascista, ninguém se passeie com camisolas com a cara do líder fascista da sua afeição e nenhuma organização fascista tenha a capacidade de organizar algo equivalente à comunista Festa do Avante ou ao acampamento de Verão do Bloco de Esquerda o perigo fascista está ao virar da esquina. E tal como a revista “Vogue” antecipou na sua capa de agosto o retorno das sobrancelhas finíssimas eu antecipo que a cada dia que passa mais fascistas andarão por aí pedindo o reforço da nossa vigilância, medidas censórias, acusações, ódios fulanizados…  Na verdade, o fascismo enquanto fantasma tende a tornar-se obrigatório e omnipresente pois só assim os marxistas nas suas diversas faces – comunistas, trotskistas, estalinistas e maoístas – poderão continuar a não dizer que sociedade defendem, mas tão só a que combatem.

(Sobre as sobrancelhas em linha espero sinceramente que tudo não passe de um falso alarme!)

PS. Na linha do “Bloco quer” também eu quero. O quê? Quero que à partida todos os crimes sejam apresentados como tendo sido cometidos por padres católicos. Cansada que estou de ler notícias sobre alegados ataques levados a cabo por alegados não identificados que sofrem invariavelmente de transtornos psiquiátricos verifico com surpresa que em matéria de crimes os únicos que não são alegados e estão seu perfeito juízo são os padres. Acresce que se os padres forem os autores também não se coloca o problema do discurso de ódio. Logo se fizermos de conta que os padres católicos andam por essas ruas da Europa esfaqueando, incendiando carros e agredindo já podemos falar do que está a acontecer na Suécia e se não for muito pedir dos abusos sexuais de menores em Rotherham e Telford?
Título e Texto: Helena Matos, Observador, 19-8-2018

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