sexta-feira, 12 de outubro de 2018

49 milhões de fascistas

Nuno Rogeiro

A decisão brasileira está provisoriamente tomada. Muito pode mudar em três semanas de campanha, e haverá novas alianças, novas rendições, novos compromissos. Mas os candidatos são estes, e convém conhecer as lições da história eleitoral. Por outro lado, de nada serve insultar a inteligência, o sentido de justiça e a integridade de votantes de todas as raças, credos e condições


Um império separado de Portugal, mas temporariamente governado pelo mesmo monarca insurgente. Seis repúblicas interrompidas por golpes de Estado, executivos autoritários, líderes providenciais, e vinte anos de governo militar. O Brasil está outra vez nas bocas do mundo, devido ao terramoto político em curso.

Os factos, primeiro.

Jair Messias Bolsonaro, artilheiro paraquedista na reforma, professor de Educação Cívica, candidato sem máquina tradicional nem partido até agora conhecido (o PSL), que em 2017 era ainda só uma réstia de significado, ganha em 16 dos 24 estados (e no distrito federal de Brasília), captura mais de 49 milhões de votos e transforma a sua facção em força parlamentar decisiva. Na diáspora brasileira, triunfa com quase 59% dos votos (contra só 10,4% do principal rival).

Passa à segunda volta com Fernando Haddad, apoiante algo renitente do PT, professor universitário, que em sete anos de ministro da Educação conseguiu magríssimos resultados na redução do analfabetismo, e foi considerado um dos piores autarcas do país, após dois meros anos como presidente da Câmara de São Paulo, essa megalópole de 13 milhões de almas.

Com um general na reserva esforçado, mas algo obtuso, como vice-presidente, Bolsonaro planeou rodear-se num possível gabinete, do único astronauta brasileiro, como ministro de Ciência e Tecnologia, de um economista “liberal”, razoavelmente letrado, nas Finanças, do antigo comandante da ONU no Haiti para a Defesa, e de um “técnico competente que volte a pôr aritmética na régua do aluno” como ministro da Educação.

Haddad está a renegociar apoios. Considerado como “fraco, pouco convincente, pouco decidido e pouco vigoroso” pelos seus potenciais aliados à “esquerda”, a começar pelo talentoso, mas “desbocado”, Ciro Gomes, terá de subir uma montanha quase impossível. É que nunca existiu reviravolta no segundo turno eleitoral.

E existe o problema central: esta eleição foi também um julgamento sobre o partido dominante dos últimos quinze anos, o PT, o seu cúmplice governante PMDB, e o representante tradicional da “direita”, o PSDB. Todos foram escorraçados.

Haddad, um “ótimo moço”, simboliza, para o bem e para o mal, o presente e o legado de um partido cuja principal promessa, cujo principal profeta, cuja principal esperança, cujo principal ídolo, está na prisão, não por delito político, ou por serviço ao povo, mas por corrupção, fraude fiscal e lavagem de capitais.

Dizer que Bolsonaro é “fascista” é um elogio da cegueira. É não compreender nada de Bolsonaro nem do fascismo. No Brasil, este nunca pegou. Mesmo os integralistas de Plínio Salgado eram sobretudo nativistas, defensores do índio tupi como “essência da pátria”, e os primeiros arautos da miscigenação.

Dizer que Bolsonaro é “fascista”, pejorativamente, é apenas insultar a inteligência de quase cinquenta milhões de brasileiros que souberam decidir num sistema complexo, e colocar, ao mesmo tempo, vinte e um partidos no parlamento.

Dizer que Bolsonaro é “fascista” é não compreender o novo “conservadorismo” das favelas e das universidades, o apoio paradoxal de evangélicos, católicos e maçons, a necessidade de encontrar um emblema para a luta contra a corrupção, o subdesenvolvimento, a opressão dos bandos, o regime local dos caciques e dos subvencionados, o desemprego galopante e a recessão.

Dizer que Bolsonaro é “fascista” equivale a puxar da pistola quando se ouve falar de cultura. Só serve para rótulo em rixa de taberna.
Não explica nada, não compreende coisa alguma.
Título e Texto: Nuno Rogeiro, SÁBADO, nº 754, de 11 a 17 de outubro de 2018
Digitação: JP

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