sexta-feira, 12 de outubro de 2018

[Aparecido rasga o verbo] A boneca

Aparecido Raimundo de Souza

Para meus filhos Luana, Amanda, Narjara, Antonella, Eduardo e Érica e todas as demais crianças neste dia que é só delas.

ASSIM QUE LUANA pegou a enorme caixa envolta num papel vermelho e amarrada com uma fita verde, que havia ganhado no dia de hoje, o dia das crianças, tratou logo de rasgar o celofane colorido que a envolvia e matar a curiosidade. Ao topar com uma boneca quase do seu tamanho correu a abraçar o pai.
- Que tal um beijo?

Luana aquiesceu sorridente. Deu um beijo no pai. Em seguida o abraçou novamente. Estava radiante e eufórica.
Feito isso, desvencilhou-se rápida e passou a reparar nos mínimos detalhes. Ali estava o seu sonho. Uma boneca exatamente como queria, como via em seus devaneios: os cabelos lisos, com os fios coloridos, até a altura da cintura, uma tiara grudada no couro cabeludo. Nas pernas uma meia calça, os sapatos brancos. No lugar dos seios, duas bolas internas, a cintura fina.
- Como ela é magra!

- Come pouco –, disse o pai, muito sério, olhando para a introspecção que se formara nos olhos da criança -, por isso, a cintura dela é fina.
- Será que ela malha a tarde toda, na academia, como a tia Mimice?
- E como a sua outra tia Milinha também, sem contar que nenhuma das duas bebe refrigerante.
- Como é que o senhor sabe?
- Adivinhei.
- Olha só: ela só tem uma calcinha. E se ela quiser ir ao banheiro e por acaso se molhar?
- Ela é uma boneca. E as bonecas não vão ao banheiro nem fazem xixi. Logo a sua boneca não vai molhar a calcinha...

- Mas a boneca da Amanda faz xixi. E toma mamadeira!
- A de Amanda é diferente.
- Diferente como, papai?
- Ora, filha, diferente...
- Mas como, pai?
O pai fica confuso. Sai pela tangente como pode.
- De vez em quando você vai precisar tirar a calcinha dela e lavar.
- Mas se ela não faz xixi e não se suja, por que tenho que tirar a calcinha dela e lavar?

Sem saída o pai tratou de mudar de assunto:
- Que nome você dará a ela?
- Sofia.
- É feio. Parece sofria.
- Pai, o que é sofria?
- Ponha o nome da sua irmã: Narjara.
- Têm muitos. E depois minhas amigas vão me gozar lá na escola.
- Gozar? Como?
- Na minha sala de aula tem uma Narjara.  E todos “chamam ela” de Cobra. “Está na hora da cobra chegar. Viu, foi na hora. A Cobra chegou. Olha só o guizo. Vai atacar alguém...”.
- Amiguinha?
- Amiguinha não é nome, pai. Existe uma boneca com esse nome. A Luciana tem uma.

- Carina?
- Acho chato.
- Chato?
- É. Chato.
- Ludimila?
- Credo!
- Então?
- Pai, o que é sofria?
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista. Dos funerais de Zíbia Gasparetto. Cemitério de Congonhas, São Paulo, Capital. 12-10-2018 

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