quinta-feira, 11 de outubro de 2018

[Pensando alto] Todos à mesa e os ensinamentos de Chiquinho guarda-livros

Pedro Frederico Caldas

A grande arte da política está em conseguir, simultaneamente, aplausos dos favorecidos e apoio dos que estão sendo roubados.
Hanz F. Sennholz

O segredo do demagogo é o de se fazer passar por tão estúpido quanto a sua plateia, para que esta imagine ser tão esperta quanto ele.
 Karl Kraus

A tradição da esquerda é julgar o sucesso humano pelo fracasso de alguns.
Roger Scruton

Não é novidade para ninguém que tenha tido uma família, a importância das conversas entretidas à mesa entre pais e filhos. É um momento único, embora à primeira vista pareça banal. E por que banal? Porque as tradições são frutos da banalidade, do dia a dia, da repetição secular de costumes e formas de comportamento e relacionamento, seja qual for a sociedade focada.

Você cruza os umbrais de sua porta pela manhã e lá vem o “bom dia” cativante de seu vizinho, a que você responde com um “obrigado, bom dia para você também”.

Nem você nem seu vizinho estão a tanto obrigados. Assim agem porque viram seus pais assim fazerem, foram por eles instados a se comportarem com decência e urbanidade.

Já na virada da infância para a adolescência tiveram aulas de catecismo como atos preparatórios do ritual da primeira comunhão, se católicos, ou ouviram a palavra de Deus através da leitura da Bíblia Sagrada, se evangélicos.

No trabalho, aprenderam a importância da pontualidade e do labor produtivo como meios dignos para garantir a subsistência.

Das regras de conduta construídas por milênios de convivência social, são, na sequência, apresentados às regras cogentes do direito positivo a estabelecer os direitos e deveres de cada um.

Esses aspectos comportamentais atuam de tal sorte que, quando já adentrados na adolescência, sabemos ou intuímos o que é certo e o que é errado em termos de posturas e atitudes.

Se atentarmos às regras insculpidas nos dez mandamentos da lei de Deus, veremos que lá estão todas as diretivas que, se devidamente guardadas e observadas, nos farão deixar um rastro luminoso em nossas vidas e seremos sempre fatores da construção de uma sociedade forte e eticamente sadia.

Não há que ser culto ou alfabetizado para saber as boas regras de convivência social, que todas elas, poderíamos dizer, tem por invólucro comum o “não faça aos outros o que você não quer que seja feito a você”, regra das regras lançada aos homens por duas figuras históricas que se mostraram monumentos de sabedoria e bondade: Cristo e Confúcio.

Tudo isso, pesado e medido, nos remete à mesa de jantar onde todos sempre foram introduzidos pelos pais às normas do bom viver, aos ensinamentos que nortearão o nosso rumo ético pela vida afora.

Tudo aquilo que foi ensinado por pais marcados pela decência e pela boa ética servirá de farol para guiar nossos passos nessa existência cheia de armadilhas e tentações.

Acho que não há nenhuma dúvida quanta à importância dos ensinamentos éticos proferidos por pais responsáveis, pais que não tergiversam com as regras da boa conduta.

As palavras, não nos esqueçamos, têm peso e consequência e, por isso mesmo, você será sempre cobrado pelo que disse e ensinou.

Todavia, há algo mais importante que as palavras: o exemplo.

Falar às vezes é fácil, pois nos custa somente arrumarmos a sua ordem lógica e acionarmos o aparelho fonador. Já o exemplo pode importar em renúncias de caminhos fáceis ou a assunção de responsabilidades pesadas. O exemplo, diria, é a pedra de toque das boas atitudes ensinadas.

Não adianta colocarmos a nossa palavra em uma direção e o exemplo, em caminho contrário.

A coerência entre o que se diz e o que se faz é o resumo da ética como vivência.

Ninguém era mais ciente dessas verdades do que Chico Guarda-Livros.

Francisco - Chiquinho para todos -, é um guarda-livros muito querido entre todos os habitantes de Encruzilhada. Os pequenos empresários, os profissionais liberais, enfim, todos que tinham alguma atividade, confiavam seus livros contábeis e a declaração de imposto de renda ao correto Chico Guarda-Livros.

A clientela sabia que a vida econômico-financeira de cada um estava sob sete chaves, quando confiada a Chiquinho.

Fora coroinha, fazia parte do coral da igreja, pertencia a uma loja maçônica, e, solidário, cuidava, junto com a esposa, do asseio da casa de uma velhinha, fraca de saúde e sem recursos para contratar alguém para tal tarefa.

O homem, ninguém tinha dúvida, era um exemplo de dignidade e temperança. Em várias discussões, quando se abordavam os problemas de mau comportamento social, sempre vinha a assertiva: “Ah, se todos fossem iguais a Chiquinho!".

A sua dedicação à igreja e, especialmente, à Congregação Mariana, fê-lo se aproximar e, na sequência, se tornar um membro das Comunidades Eclesiais de Base, mola propulsora do seu lançamento à militância política.

Para ele, porque assim lhe fora passado pelos membros da Comunidade, já não bastava seguir o caminho ético sob a promessa de uma vida futura, uma vida além da morte. Não!, isso não mais bastava, algo, em nome de uma igualdade que não sabia bem definir, deveria ser feito para antecipar, na terra, uma espécie de “reino de Deus”.

Chiquinho começou a relaxar um pouco nas tarefas de seu ofício e já não via a declaração de renda de uma pessoa mais abastada como o signo de um trabalho profícuo e intenso; assim como via nos números de clientes com certa dificuldade o dedo de uma sociedade injusta.

Definitivamente, Chiquinho considerava que agora tinha uma consciência social, dantes insuspeita, embora informe.

Houve invasão de terra, lá estava Chiquinho dando apoio material ao acampamento montado; greve de bancários, lá estava Chiquinho tentando convencer os não aderentes; invasão de casas e terrenos na vizinha Novo Horizonte, lá estava Chiquinho arrecadando donativos para os invasores.

Quando instado por “reacionários” a dividir o seu escritório com os cinco funcionários, reagia dizendo que semelhante ideia não passava de falaciosa manobra de inconscientes para arrefecer suas convicções políticas.

Apesar de tudo isso, uma coisa era certa: Chiquinho não conseguia se desgarrar da ética herdada dos pais e de um ambiente social de que se vinha, passo a passo, distanciando.

A hora da janta ainda era considerada sagrada. Continuava, nesse momento tão importante para a edificação moral da família, a repassar aos dois filhos, João, de doze anos, e Luzia, de oito anos, os ensinamentos recebidos dos pais.

Nesta quinta-feira à noite, mesa posta, pratos servidos pela bondosa Ivone, lá estava Chiquinho, sob o olhar atento de Ivone e dos filhos João e Luzia, predicando:

- Nunca cedam às tentações. A vida sem honestidade pode parecer fácil, mas o desastre estará esperando na primeira curva. Conforme Deus estabeleceu, devemos viver com o suor de nosso rosto. Nunca devemos subtrair o alheio, nunca devemos apoiar o roubo e a corrupção.

Atenta a tudo, como sempre, atalhou a pequena e vivaz Luzia:
- E por que o senhor vai votar no PT?
Título e Texto: Pedro Frederico Caldas, Aventura, E.U.A., 11-10-2018

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