domingo, 4 de novembro de 2018

[Pensando alto] Sua excelência o dedo indicador e o pobre Deus

Pedro Frederico Caldas

Para todo problema complexo existe sempre uma resposta simples, elegante e completamente errada.

Henry Louis Mencken

Meus amigos formam uma fauna. Tenho-os dos mais diversos humores e aptidões. Em suma, meu círculo de amizade parece a Arca de Noé, de cada bicho um casal. Há os leões, valentes, os macacos, engraçados, os elefantes, ricos, as coelhinhas, doces, as corujas, intelectuais. Fiquemos por aqui, pois não devo revelar o CPF de todos. Seria uma inconfidência, além de não ser da conta de ninguém. Basta dizer que deles muito me orgulho e não poderia conceber uma vida sadia e risonha sem a presença de pessoas tão importantes para mim.

Não sei como uma pessoa pode viver sem amigos, embora as haja. Mas, de toda essa fauna, talvez o bicho mais complicado seja eu mesmo. Gostaria de ser o macaco, mas não sei fazer graça engraçada; ser o elefante, mas me falta cabedal; o leão, mas me falta coragem; a coruja, mas me falta tino. Talvez eu seja, para meus amigos, o desengonçado ornitorrinco.

O fato é que há algo a nos cimentar: o prazer de estar juntos e a lealdade, dois ingredientes sem os quais não há amizade, mas simples conhecimento. Alguns, amigos de há muito, desde os tempos da juventude e... bota tempo nisso! Amizades históricas.
              
Dia desses, sustentava uma tertúlia com dois deles, da mais alta suposição. Um, de grande conhecimento científico, quase um cientista, sabe tudo de astrofísica, além de trafegar bem pela física quântica, doravante chamado físico, que CPF não entrego, é um incréu. Adora usar seu conhecimento científico para marretar a existência de Deus. Vindo o assunto à baila, confronta a Bíblia a dizer que é um absurdo Deus, todo poderoso, Senhor do Universo, mandar seu filho à Terra para ser chibateado pela reles soldadesca romana e ter mãos e pés varados por pregos e ficar sujeito - pisca um olho e dá um arremedo de sorriso cínico -, a contrair tétano.

O outro, homem de humanidades, um erudito, proclamadamente um agnóstico, dentro da tradição e da arrogância acadêmicas. Não se compraz em desandar Deus. Sabe que o simples conhecimento científico não é suficiente para chancelar ou descartar a existência do Demiurgo. Chamá-lo-ei de Humanista.

Presente também um outro amigo, grande tirador de sarro, de inteligência criativa como costumam ser as pessoas de bom humor e que do nada tiram conclusões desconcertantes e cheias de graça, como a dizer: pobres mortais, pensais saber aquilo que de fato não sabeis. É o amigo Macaco, a presença sempre mais agradável.

Conversa vai, conversa vem, um deles disse que algo, de que não me recordo, mas lembro ter sido um bom augúrio, me aconteceria, no que respondi, como costumamos dizer, “se Deus quiser”. O cientista, com o sorriso cativante de sempre, embora sarcástico, disse que era irrelevante o querer de Deus, pois não há querer na inexistência.

O Humanista atalhou que não se podendo provar, por preceitos científicos, a existência ou a inexistência de Deus, poder-se-ia admitir, no mundo das hipóteses, a vontade de algo de existência potencial, ou provável, embora não certa. Aduziu que a descoberta de Deus era um ato solitário, como a do apóstolo Paulo, na jornada para Damasco, algo que, estando no plano espiritual, não poderia ser decantado ou detectável em laboratório ou teorizado por fórmulas matemáticas.
              
A tertúlia já ia longe. Filósofos eram citados, teses científicas jogadas na mesa, tudo movido, no melhor dos estilos, por charutos em brasa, taças encarnadas pelo melhor vinho tinto, queijos fortes e confit de pato. Uma tarde deliciosa, dessas que nos faz sentir mais vivos ainda, atiçados pelo que há de melhor nas amizades. As risadas se sucediam, principalmente após as xistosas intervenções do nosso querido Macaco.

Lá para as tantas, como se estivesse mudando de assunto, pergunto-lhes qual a parte mais importante do corpo. O Macaco disse: para com isso, deixa disso, olha que digo...

O Físico disse que era o cérebro, o único órgão (órgão?) que poderia sobreviver após a morte. A morte consumiria inexoravelmente o corpo, por incineração ou putrefação, mas o cérebro deixaria suas pegadas como, por exemplo, as anotações feitas pelos alunos, as ideias deixadas em livros, os inventos e, mesmo as pessoas simples, pela tradição oral, passada de pai para filho, daquilo que o ancestral disse.


O Humanista, dentro da melhor tradição acadêmica, disse que era o dedo, o dedo indicador. Sustentava a tese pontificando que genialmente Michelangelo no afresco do teto da Capela Sistina mostra Deus dar vida a Adão tocando o Seu indicador no da criatura [imagem acima]; os dedos proeminentes dos apóstolos Pedro, Tiago Menor, e Tiago Maior, tão evidentes, na Santa Ceia, imortalizada pelo pincel de da Vinci; o dedo que aciona o gatilho tanto no ataque como na defesa; as proclamações dos grandes oradores dramatizadas pelo indicador em riste, ora apontado para as massas, ora apontado para algo hipotético; usado para apontar algo, alguém ou lugar; para intimidar e para silenciar pessoas; confrontados com algo de bom ou de ruim, que saia da normalidade, sempre dizemos que por trás do evento deve haver o dedo de fulano ou de sicrano. E por aí foi o meu amigo, com a erudição gostosa de se apreciar, fundamentando sua tese com citas de livros, frases, poemas, momentos históricos, pinturas e esculturas famosas em que o dedo indicador ganha proeminência. Deixou-nos a todos, com sua invejável cultura, abismados com a importância do indicador, antes de nós insuspeita, na história, nas artes, na literatura, no quotidiano.

A tarde já caía, as libações já eram inúmeras, eis que o amigo Macaco aponta para o dedo indicador do Humanista e pergunta de que era constituído aquele dedo.

HUMANISTA – Claro, é constituído de pele, unha, carne, vasos, nervos, ossos e cartilagem.
MACACO – Por que tanta certeza se você só vê unha e pele?
HUMANISTA – Já vi fratura exposta e dedo aberto em cirurgia, embaixo da pele e da unha há tudo isso.
FÍSICO – Isso é uma visão superficial das coisas, carente de base científica, pois o dedo, em última análise, é composto de moléculas, estas decompostas em átomos, que, por seu turno, se fracionam em prótons, nêutrons e elétrons, coisas que não podemos ver, tatear, sentir...

O amigo Macaco vira-se para o Físico e pergunta de que se compõe todo o Universo.
FÍSICO – O Universo é de uma complexidade difícil de ser explicada, mas tudo que é visível, como galáxias, nebulosas, estrelas, planetas, satélites, asteroides, nosso corpo, tudo, tudo mesmo, em quantidades que excedem a casa dos trilhões, representa só cinco por cento do Universo.
MACACO – E o resto?
FÍSICO – Uns vinte e dois por cento de matéria escura, algo desconcertante, não submisso ao padrão comum da física dos corpos conhecidos.
MACACO – E o resto?
FÍSICO – Bem, os mais de setenta por cento restantes são compostos da chamada energia escura, algo tão impressionante que atravessa qualquer corpo celeste, como as estrelas, a terra, o nosso próprio corpo, o dedo indicador do nosso amigo, esta taça, esta mesa, como se tudo isso não existisse...

MACACO – Qual a prova disso?
FÍSICO – Isso jamais será provado, essa matéria jamais será detectada, é algo que não se pode provar a existência, mas necessariamente existe para que o Universo tenha a existência que tem.
MACACO – Assim é Deus...

Cai o silêncio, cai a noite, nos despedimos ensimesmados. Ponto para o macaco.
Título e Texto: Pedro Frederico Caldas, Aventura, EUA, 20-1-2017

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