domingo, 16 de dezembro de 2018

[As danações de Carina] Delicada como o borrifar das sépias

Carina Bratt

Tornei a acordar com saudade. Muita saudade! E sozinha, ao avesso de mim. Saudade de ver você a meu lado, de acariciar seu rosto para que dulcificasse a perenidade do meu Olimpo particular. Queria depositar um beijo terno em seus cabelos, alisar sua barba, sentir o perfume do perfume que mais gosta de usar. Mas cadê você? Cadê você?! Como um súbito reflexo de um relâmpago ao acaso, você se perdeu numa imensidão sem retorno.


E eu me pergunto, perdida, assustada: em que ponto da nossa estrada você deixou de caminhar ao meu lado? O que contribuiu para não estancar de vez a hemorragia deste insano querer que persiste, ainda agora, a continuar vivo e pulsante dentro de meu eu, me ferindo, cruelmente, o coração em frangalhos?

Se estivesse aqui, se você estivesse aqui, falaria do meu dia a dia, dos meus planos e dos meus sonhos ubíquos para as próximas horas. Ver você junto com os primeiros madrigais de um novo raiar, abrindo os braços, se espreguiçando, escancarando a boca em bocejos graciosos, me faria viajar por mundos distantes. Além daqui, além da vida que se conclama, resplendente às minhas loucuras... tal como o sussurro dos ventos avivando as ruas e avenidas.

Depois de um beijo demorado, sentiria você depositando em meus lábios, a sua ternura antiga e juntando, num abraço longo, o calor das nossas emoções num aperto abrolhoso de felicidade plena. Ah!... como isto me faria uma mulher realizada... porém, algo sinistro e inquietante colidiu com meus  anseios num quase armistício.

Como que por encanto, uma saudade ingrata apareceu. Brotou do nada, não sei de onde veio, e se fez exuberante. Intestina luta pelejando comigo o tempo todo. O tempo todo. Ficou maior que a minha vontade de estar com você. Talvez porque a sua pessoa, como homem, como amante, como meu dono, não faça mais parte do meu cotidiano.

O ócio das portas emperradas do meu apartamento pediu falência por falta de uso constante das suas chaves. Em paralelo, sem trancas e amarras, me vejo como uma barca abandonada numa praia de vazios em redor do nada, com porões ingratos represando em suas galerias, quimeras do que fomos até bem pouco tempo atrás.

Em seu lugar, você colocou outra pessoa. O Desamor. Sujeito vil, de cara estranha e feições indescritíveis. Alguém que, para falar com toda sinceridade, do fundo bem fundo do meu âmago, não sei de onde conseguiu desenterrar. Descobri que você me substituiu sem mais nem menos, como se eu fosse uma muda de roupas velhas que se deixa de lado.

Desde então, venho pisando chãos estranhos que não definem meus passos, nem conseguem encontrar marcas dos seus. Muito tempo se passou e, apesar disto, nada de agradável e sério que me faça tomar prumo ou me permita seguir adiante sem temer a próxima etapa a ser vencida. O meu protetor querido me deixou à mercê da debilidade, às garras e as sanhas da derrota.

Todas as minhas manhãs depois de você, têm sido assim: frias, gélidas, sem brilho. E continuam. Ao me por em pé, tento relaxar. Não consigo. Ando pela casa como uma nômade. Tudo nela cheira a você. Tem seu gosto na cama, seu sabor nos lençóis. Este aroma balsamizado que absolvo, como se entranhado às paredes, não delineia mais as imagens de sua figura nua, nem desenha, no meu agora, a sua silhueta andando de um lado para outro, ao opositivo, traz um fundo de perfil falsificado, uma imagem distorcida, confusamente desvirtuada do que até bem pouco tempo se fazia manifestamente real.

Na cozinha, não é diferente. O café quentinho que a minha empregada traz, não está igual ao que você me acompanhava na mesma xícara, aos goles comedidos. O suco que mais gosto me parece insosso. Tampouco o pão com manteiga me sacia a fome. O bolo de abacaxi fatiado, igualmente me provoca azia.

Na verdade, falta algo neles. Entende o que estou querendo dizer? Consegue discernir onde pretendo chegar? Sinalizo que não há o carinho, o denguinho, o afago, a doçura encantada das suas mãos quentes sobre eles.

Surgiu do frívolo, um oco incoerente, estranho, e na medida em que os ponteiros avançam, parece o inimaginável se agigantando e sufocando meu peito. Peito este, dilacerado, escorchado, flagelado. Também percebo um medo em torno de minha cabeça.

Uma pusilanimidade que vai crescendo e, à medida que se avoluma, acelerava meus batimentos cardíacos. Se não sou uma moça forte, de compleição saudável, talvez até me acudisse um troço repentino. Um treco, um piripaque. Tudo em decorrência da sua falta, de você não estar ao meu lado.

Por esta e por outras, me sinto pequena. Flagro pedaços de mim, desprotegidos. Faminta e sequiosa me pilho longe da sua voz, açorada do seu carinho, fendida do seu calor e famélica do seu aconchego.

Realmente falta algo. Algo vital. Este vital é tudo. Alguma coisa saída de dentro de você que me animava às forças, que me enriquecia o espírito e aplacava a fúria doentia que insiste me acompanhar onde quer que vá ou esteja. Meu degredo é tanto, que chega ao ponto de empinar uma pipa solitária que se lança num céu escuro rasgando nuvens de infelicidade.

E foi exatamente esta árida e enfadonha infelicidade, esta remota excessiva, grosseira e prejudicial que encheu todos os cantos e recantos da casa. Da nossa casa. Apartada, penetrante, perfurante, cáustica, de tão percuciente se tornou fastidiosa, pegadiça e conglobada. Resumindo: com esta infelicidade ficou tudo muito chato e isto me deixou completamente banida e exilada.

Concluo que a felicidade de tudo era, ou melhor, ainda é você. Sua meiguice deu vida às coisas, seu sorriso ainda mantém o brilho constante do colorido da minha existência. A sua efígie, ao meu lado, por obra divina, persevera encher de esperança o vazio e, como um sopro benfazejo que resplandece, faz surgir como amálgamas das pérolas marinhas (que contrassenso), um queimor enérgico, uma chama bonita, quente, terna e maviosa. Que por sinal, não se apaga.

Esta maldita carência de você, me mata aos poucos. Definha. Sei que necessito superar este nada desocupado – esquecer, apagar, seu semblante da minha mente. No mesmo verso sem rima e, com urgência, “deletar” dos meus arquivos, como um vírus que veio, entrou, se alojou e, por pouco, por bem pouco, não acabou, de vez, comigo.

Mas acredite, não posso. Você continua a ser o sol que entra janela adentro. O feitiço que move a brisa, que empresta a paz, e anima sorrir a tristeza macambúzia. Você, meu Deus!... você é quem manda, para longe, as incertezas do meu novo amanhã. Desta forma, o meu porvindouro sem você, apesar de não estar mais aqui, não passa, não vai além de um hoje sem motivos.


Talvez este minuto sedutor que vivo agora, nem embale o próximo, que corre ligeiro, contra o relógio do tempo. Em desfavor do meu tempo, do meu estado opressor que lentamente se esgota, que se desvanece que se dissipa e que se esvai. Não, pior, muito pior: que se “ESFOI”.
Título e Texto: Carina Bratt, das cidades de Ladainha e Malacacheta - Minas Gerais. 16-12-2018

Anteriores:
[As danações de Carina] Apresentação

8 comentários:

  1. Menino Sem Juízo
    Foto do artista AlcioneAlcione

    Sabe
    Meu menino sem juízo
    Eu já aprendi a te aceitar assim
    Já me acostumei a perdoar você
    E já nem sei porque
    Seu mal faz bem pra mim
    Chega, mal me beija e vai embora
    Sabe Deus a hora que você vai voltar
    Juro que na volta, já não me encontra mais
    Mas logo volto atrás
    Meu mundo é seu

    E vá se procurar
    Vá se desamar
    Que as esquinas da vida
    Te fazem voltar
    E quanto à minha dor
    Não se importe, amor
    Já se fez minha amiga
    Me dói devagar

    ResponderExcluir
  2. Num primeiro momento, a minha vontade foi a de apertar seu pescoço até você confessar quem é esse alguém que lhe deixou sozinha, desamparada, ao “avesso de seus anseios mais carentes”. Quem é esta criatura doida, sem noção, que teve a coragem de lhe abandonar ao acaso da cama vazia, dos lençóis chorosos, dos travesseiros estressados e das paredes inebriadas da sua presença, digo da presença dele? Cachorra! Digo Cachorro. Perdão. Falo da figura que você cita no texto ai em cima. Meu amigo, amigo nada, meu caro boboca, não se abandona uma jovem tão linda e meiga, tão cálida e bucólica, para se “perder numa imensidão sem retorno”. E eu também pergunto não a ela, mas a você. Você que se foi: “em que ponto da estrada você deixou de caminhar ao lado dela?”. Para que estou querendo saber? Para ir até este ponto e pegar você de porrada, lhe dar uns bons tapas no meio da cara e lhe chamar de burro. Burrrrrroooooo! Onde você estava com a cabeça deixar uma preciosidade destas, a mercê da sorte? Ah!... como isto me faria um sujeito feliz. Dar uns bons tabefes em você, gritar em seus ouvidos, berrar, até você ficar com os escutadores de novelas baratas em pandarecos. Cachorro. Burrrrrroooooo! “Sujeito vil, de cara estranha e feições indescritíveis”. Burrrrrroooooo! Vou pisar chãos estranhos, seguir seus passos e quando topar com você, ah!... nem santa Carina me segurará. Ainda que tenha que lhe “bratter” até meus dedos dos pés dizerem “Chega!!!. Enquanto esse estrangeiro não chega, ficarei em seu lugar. Prometo levar o café, o suco, o pão com manteiga, o bolo de abacaxi fatiado. Prometo ser tudo o que ele não foi e se ele voltar, eu me farei invisível para, com uma agulha, espetar a bunda desse crápula quando ele se deitar ao seu lado.
    Fiz uma poesia pra você se lembrar de mim.
    “Tudo que é seu meu bem
    também pertence a mim
    Vou dizer agora tudo
    do princípio ao fim
    Da cabeça até
    A ponta do dedão dos pés
    Tudo que é seu meu bem
    E meu, é meu é meu...”.
    Se você gostar juro que mando para o Roberto Carlos gravar.
    Aparecido Raimundo de Souza, de Belo Horizonte, nas Minas Gerais.

    ResponderExcluir
  3. O apelo e o consolo são separados pela ínfima linha que divide o amor do ódio.
    O amor o tempo cura, mas o ódio se torna perene.
    A nobreza dos sentimentos está no " até logo".
    Não existem abandonos, existem caminhos diversos entrelaçados.
    Os que se recusam das separações, ficam reclusos a procura do caminho que o leve de volta. Aquele que se vai não tem possibilidade de voltar.
    Chega uma hora que quem precisa não encontra complemento igual.
    Quem partiu que sossego e paz.
    Seguir em frente não é opção.
    Continuar no passado é perder-se no tempo.
    O tempo é imutável, só anda para o futuro, porque o presente são apenas momentos de tortura ou prazer, que ficam apenas nas memórias.
    O amor está as vezes nos braços do melhor amigo, alguns cegos pelo passado, deixam-no passar, pois parados no espaço, perdem sues preciosos tempos de "agoras" futuros.
    fui...

    ResponderExcluir
  4. Só me resta chorar. Buaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa... Buaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa...

    Aparecido Raimundo de Souza, de Abadiânia Goiás.

    ResponderExcluir
  5. Peça para que eu fique
    com os olhos me lace,
    e com um terno beijo
    vem roçar minha face.

    Você é a cantiga de ninar
    na qual eu adormeço,
    És o sonho duradouro
    do dia sempre o começo.

    Queria na vida seguir
    Nas marcas dos seus passos,
    eu queria me perder
    No calor dos seus abraços.

    Que eu os tenha como morada
    E me sirvam de alento
    para quando em seu corpo me abrigar,
    Fazer da vida um só momento!

    Aparecido Raimundo de Souza, de Abadiânia GO.

    ResponderExcluir
  6. A ARTE DE FAZER AMOR EM TERMOS CHULOS.
    Houve um tempo em que a beleza do amor era o flerte, o xaveco e a conquista.
    O entrevero de olhares furtivos, a dança, o contato corporal, o hálito e a música, interferindo nos sentidos.
    Onde todo mundo era caça e todos eram caçadores.
    Houve um tempo, em que sexo não precisava de convites, acontecia.
    Esse troço de perguntar:
    -Você quer fazer amor é idêntico, a perguntar se você quer trepar, foder, transar, coitar, enxovalhou o processo de namorar.
    Sexo é o baú de ouro no final do arco-íris da paixão, da sensibilidade das vontades.
    Amor é uma construção vagarosa, onde todos os dias colocamos um tijolo a mais.
    Amor é amizade, companheirismo e a virtuose do conhecimento sensorial.
    Amor é o êxtase dos sentidos.
    Fazer amor até os animais fazem, porque as fêmeas são submissas ao seu temporal de cio, qualquer macho serve.
    Quem constrói amores, não possui tempos para a guerra.
    Amor é um sentimento niilista, não de posse.
    Quem constrói amor não mata, quem mata por amor identifica-se com estupradores sem força de conquista, sem força de construção, achacadores do tempo e estelionatários da liberdade dos outros.
    Eu não quero fazer amor com ninguém.
    Eu quero é sentir o contato corporal ofegante, hálito com hálito, saliva com saliva, ver os pelos eriçados, sentir os mamilos entumecidos, os lábios gelados, e dizer "eu te amo" sem culpa.
    bom dia
    Usei no final "eu te amo" porque eu lhe amo é muito feio e ridículo.
    fui, texto meu acho que 2012

    ResponderExcluir
  7. Meu caro!
    "Eu quero é sentir o contato corporal ofegante, hálito com hálito, saliva com saliva, ver os pelos eriçados, sentir os mamilos entumecidos, os lábios gelados, e dizer "eu te amo" sem culpa.".

    Depois dos 60...Logo à seguir viria um constrangido pedido de desculpas! RSRSRS

    Paizote

    ResponderExcluir

Por favor, evite o anonimato! Mesmo que opte pelo botãozinho "Anônimo", escreva o seu nome no final do seu comentário.
Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente.
Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-