quinta-feira, 7 de março de 2019

Colapso chavista arrasta casal de ditadores associados na Nicarágua

Cesar Maia

(Editorial de O Globo, 05) Derretimento da Venezuela de Maduro corta oxigênio de Daniel Ortega e de Rosario Murillo

O colapso da ditadura venezuelana tem reflexos diretos na Nicarágua. Sem o fluxo de petrodólares mantido por Caracas, durante duas décadas, e cercado pelas sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos, o casal Daniel Ortega, presidente, e Rosario Murillo, vice, esgotou as possibilidades de continuar com seu regime despótico e, comprovadamente, corrupto.

As punições ao casal de ditadores foram adotadas como resposta à ferocidade da polícia e de grupos paramilitares na repressão aos protestos de civis em todo o país, nos últimos dez meses. Contam-se mortos às centenas, presos aos milhares — muitos torturados, segundo a Igreja Católica e organizações de direitos humanos. Uma estudante brasileira foi fuzilada na capital nicaraguense.

Ortega e Murillo perderam não apenas o rumo, e agora tentam uma saída negociada com a oposição, algo que vinham rechaçando.

Eles transformaram a Nicarágua, um dos países mais pobres, em Estado falido. A administração opera com alto nível de corrupção. O sistema financeiro se deixou contaminar por suspeitas de lavagem de dinheiro vinculado ao narcotráfico.

Há um déficit fiscal estimado em 15% do PIB. Desapareceram os suprimentos de petróleo e de dólares chavistas. Estão bloqueadas as fontes externas de financiamento, inclusive as do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento.

 Ao governo Ortega-Murillo restou a alternativa de um apelo por socorro a Taiwan. Conseguiram crédito de US$ 100 milhões, o que é absolutamente insuficiente para cobrir o rombo fiscal deste ano.

Até agora, a família, que administra o país como se fosse uma de suas fazendas, sustentava o poder — e o visível enriquecimento — com base na “cooperação financeira” venezuelana. Receberam um total de R$ 4,9 bilhões nos últimos 11 anos. Foi o preço pago por Hugo Chávez e seu sucessor Nicolás Maduro pelo alinhamento da Nicarágua, como coadjuvante, no jogo de influência de Caracas na América Central.

Esses recursos fluíram para os cofres da Alba de Nicarágua S.A. (Albanisa), empresa binacional de petróleo e derivados. A fortuna do casal Ortega-Murillo se multiplicou na apropriação de parte dos lucros da revenda de óleo bruto e de combustíveis no mercado caribenho.

As sanções à Venezuela congelaram US$ 11 bilhões em exportações do governo Maduro. Imobilizaram a PDVSA, a filial americana Citgo e a subsidiária nicaraguense Albanisa. O castelo de cartas chavista desmorona, arrastando o casal de ditadores associados Ortega-Murillo.
Título e Texto: Cesar Maia, 7-3-2019

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