sábado, 6 de julho de 2019

[Pensando alto] Necropsia de um artigo

Pedro Frederico Caldas

Às vezes as palavras servem de cortina para esconder o pensamento

Não me recordo quem proferiu a sentença acima para dar o devido crédito, mas com certeza Stendhal disse algo semelhante. Fica com o crédito.
               
Uma querida prima, ao compartilhar, no facebook, um artigo do professor Vladimir Safatle, me apontou.

O ilustrado professor desce o porrete na recente lei de terceirização do trabalho, por ele considerada coisa de fascistas. O artigo foi publicado pelo autor no jornal Folha de São Paulo. Expliquei em nota publicada na minha página no Facebook, em 5-4-2017 porque examinaria o tal artigo.
               
Ah! Como é bom examinar o corpo cadavérico das ideias de um filósofo! O homem é doutorado pela Universidade de Paris VIII e vive empoleirado nos intelectuais Lacan, Alan Badiou e Slavoj Zizek.
               
Se querem saber o que pensavam esses intelectuais, então leiam a primorosa obra de Roger Scruton “Fools, Frauds and Firebrands – Thinkers of the New Left”, que pode ser traduzida por “Tolos, Fraudes e Agitadores – Pensadores da Nova Esquerda. Se há uma edição brasileira, recomendo fortemente a leitura. Irão ver a confusão do pensamento dessa turma, principalmente da trinca a que o nosso filósofo Safatle [foto] é chegado.

              
Sou cismado com os nomes que se dá a algumas profissões intelectuais. Por exemplo, você faz filosofia e é tratado, profissionalmente, como filósofo, ou faz “ciência” política e sai como cientista político. Se eu fosse graduado em filosofia, morreria de acanhamento em sair por aí me autointitulando filósofo. Isso me faz lembrar de uma das aulas-espetáculo de Ariano Suassuna, quando ele observa que se Chimbinha, da Banda Calypso, é considerado um gênio, o que dizer então de Beethoven? Parafraseando-o, eu diria que se qualquer graduado em filosofia for chamado de filósofo como então trataríamos Aristóteles?
               
Os que formaram a base do pensamento filosófico ocidental (Heráclito, Sócrates, Aristóteles, Platão, Kant, Spinoza, Nietzsche, Heidgger, Schopenhauer e muitos outros) nunca fizeram faculdade de filosofia. Vamos ver a mais famosa faculdade de filosofia do Brasil, a da USP. Qual filósofo saiu de lá e fez uma grande contribuição para a filosofia? Ser versado em filosofia, conhecer a história da filosofia e todo o pensamento filosófico fundamental não faz de ninguém um filósofo. É no máximo um erudito, ou um simples bacharel em filosofia. Acredito seja essa a condição do professor Safatle. Daí a ser filósofo...
               
Tentarei fazer um resumo dos pontos defendidos pelo, vamos lá, filósofo Safatle. Bem verdade que ele só tratou de matéria do campo da economia. Sendo ele um filósofo, um ser mais voltado para os problemas transcendentais, bem sei que economia não seja a sua praia, o que não o impede em absoluto de se espojar nessas areias.
               
Por sinal, um dos grandes problemas da academia é o desconhecimento da economia e de como funciona o mercado. É justamente aí que as soluções alvitradas pelos acadêmicos não funcionam. A vida real e o mercado não se compadecem com as aspirações dessas pessoas tão ilustradas e tão bem-intencionadas. Suas ideias fracassam no plano prático porque a indumentária não está adequada ao corpo. Eles acham que uma pessoa seja capaz de moldar as atividades produtivas e as escolhas de milhões. O corte é um, o molde é outro. Não existe uma forma para o mercado. Toda vez que você planeja o modelo de uma parte, você desarranja o todo. Sempre assim. Já tentaram de tudo, tudo deu errado, mas não aprendem.
               
Deixemos esses aspectos de lado e mãos à obra. Em suma, sustenta o filósofo queridinho das esquerdas, em sua coluna no jornal Folha de São Paulo, sobre a terceirização, o seguinte: 1) achataria os salários, intensificaria o trabalho, principalmente quando somente este ano 3,6 milhões de pessoas voltarão à pobreza; 2) estudos indicam que os trabalhadores terceirizados ganham 24% a menos que os formais; 3) a empresa contratante não fiscalizará o cumprimento pela empresa contratada das obrigações trabalhistas de seus empregados; 4) o Brasil será um país em que ninguém conseguirá se aposentar integralmente, ninguém será contratado e ninguém irá tirar férias. O resto é a velha litania das esquerdas: monopólios, cartéis, herança, acúmulo de riqueza pelos ricos e desigualdade de renda.
               
Uh! Vamos lá!
               
Começo com um exemplo que talvez resuma todo o absurdo do pensamento saflateano, que deve constituir algo rotulável de Saflateanismo.

Se você mora em Itabuna, faça uma visita à fábrica da Nestlé; se em São Paulo, vá a Embraer; se em Salvador, vá à Ford ou à Caraíba Metais. Não quer ir a uma fábrica, vá a um call center de uma empresa de telefonia.
               
Se foi à Embraer, viu engenheiros, técnicos de todas as especializações montando motores, asas de aviões, quilômetros de fios, sofisticados aparelhos e sensores eletrônicos; se à Ford, viu a linha de montagem onde homens altamente especializados e robores se alternam, de modo que no começo da linha é colocada somente uma parte, e, lá no final, está um carro completo e acabado; se à caraíba, viu painéis eletrônicos com controladores manejando uma corrida de metal, saindo quase líquido dos alto fornos; se a um call center, viu um multidão falando com o país ou com o mundo resolvendo problemas entre uma empresa e  milhões de seus clientes.
               
Em todas a visitas, por mais diferentes que sejam os objetos sociais dessas empresas, você, se estava atento, viu algo em comum: pessoas cuidando da limpeza, da segurança, dos restaurantes. Essas atividades, apenas exemplificadas, porque inúmeras são, não fazem parte do core business das empresas visitadas. Não há nada em comum entre fabricar aviões, carros, tarugos de cobre, cuidar do relacionamento da empresa e servir cafezinho, fazer a limpeza, cuidar da segurança, ou fazer e distribuir a comida nos restaurantes dessas empresas.

Embora soe como crítica, o Safatle nos deu até uma boa notícia, quando diz que o salário médio dos trabalhadores das empresas contratantes dista em 24% do salário médio dos trabalhadores das empresas de serviços terceirizados. Eu pensava que o percentual era maior. Como você pode comparar o trabalho de quem monta ou fabrica aviões, motores e carros, com o trabalho de quem faz manutenção, limpeza, segurança e serviço de restaurante das empresas contratantes.

O nosso “filósofo”, que mais está para poeta da esquerda caviar, poderia estudar um pouco mais economia e melhor conhecer a divisão do trabalho numa economia de livre mercado.
               
Aliás, há serviços terceirizados de alta complexidade em que os trabalhadores ganham em média muito mais que os trabalhadores das empresas contratantes. Procure saber quanto ganham operadores de minissubmarinos, mergulhados nas profundezas de plataformas petrolíferas, empreendimento da mais alta tecnologia, e comparem com o salário médio pago pela Petrobrás ou qualquer outra empresa de petróleo. Verão que os prestadores de serviço terceirizados ganham muito mais.

Mas não, o nosso herói pensador quer que a Embraer, além de fazer avião, esfregue o chão, faça manutenção do telhado e da pintura dos prédios de sua fábrica e cozinhe o feijão e a rabada com agrião servidos no restaurante da fábrica.
               
Ele e os seus embevecidos leitores deveriam sair da casca e correr o mundo para ver como funciona uma economia moderna, com especializações cada vez mais fracionadas. Na linha de montagem de uma moderna indústria como a automobilística há várias empresas trabalhando. Não é raro um produto ter suas partes fabricadas em países diversos para ser montada em um outro.
               
Nos dias que correm, quando alguém vai fazer uma viagem dificilmente contata a empresa de aviação, os hotéis em que se hospedará, ou a locadora do automóvel que usará. Você fará tudo isso através da Trivago, Expedia ou Hotwire. A divisão do trabalho, por força das especializações, não se dá somente em partes diversas do território nacional, muitas vezes está espalhada em diversos países.
               
Você há de dizer que se trata de um homem viajado, já morou e estudou na França e vive em grande centro. É verdade. Mas não se livrou dos grilhões de um pensamento já soterrado pela experiência histórica. Ele vê mais não enxerga. Para ele uma empresa é um só pacote, uma só realidade. Para ele os cientistas que trabalham na Nasa e os terceirizados que servem a comida no bandejão fazem parte de uma só realidade. O que fazer com um homem desse? Vai continuar pela vida se queixando que é filósofo.
               
O argumento de que o contratante dos serviços terceirizados deveria fiscalizar se o contratado estaria pagando os direitos trabalhistas dos seus empregados é de uma beocidade econômica sem par. Isso é função das autoridades públicas. Uma empresa não é fiscal de outra.
               
Ah, mas antes era assim! Por isso mesmo que o choque da realidade está impondo essas mudanças, por isso mesmo que o Brasil está sempre atolado no atraso. Foi seguindo o pensamento e o receituário saflateanos que a vaca foi para o brejo e o Brasil deu no que deu.
               
Os 3,6 milhões de brasileiros que passarão para pobreza este ano são ainda vítimas do PT, partido que ele apoiou de cabo a rabo. Isso significa que, em alguma medida, esses pobres trabalhadores foram saflateanamente dizimados.
               
O bom moço fala ainda em monopólios e cartéis. Quem cria monopólios e cartéis? O livre mercado? Não, meus caros, quem cria monopólios e cartéis são os governos que elegem os famosos campeões nacionais. Por que as grandes empreiteiras mundiais não constroem no Brasil, o que faria os custos caírem sensivelmente? Porque as nacionais amamentam partidos, políticos e governos para impedir a concorrência estrangeira. Os cartéis revelados pela Lava-Jato são os cartéis da sem-vergonhice estatal.
               
Será que o nosso herói é coerente com o que prega. Digamos que ele acabou de dar uma aula na USP e pegou o táxi de uma empresa para ir para casa. Então, não se esqueça, meu caro Safatle, veja se a empresa proprietária da frota está pagando os direitos trabalhistas do motorista que o transportou. Se não entende de economia, ao menos afine a sua ação com o seu discurso. Que tal agitar a USP e exigir que essa universidade pague ao bedel algo muito próximo do que paga ao doutorado professor?
               
Ele diz, sem nenhuma cerimônia, sem nenhuma base factual, que o trabalhador brasileiro não mais se aposentará ou terá férias. Países onde a idade mínima para aposentadoria é de 65 a 67 anos estão cheios de aposentados. Por que então o Brasil não mais teria aposentados? Em quais fatos esse senhor se arrima para dizer uma enormidade dessa? Nenhum, claro. Não passa de simples e barata agitação para indispor os trabalhadores contra o governo. Seria tão mais fácil para o atual governo deixar o assunto como está e passar o problema para o próximo governo que teria de descascar um abacaxi maior.  
               
Dentro da filosofia safatleana, o superprotegido trabalhador brasileiro deveria estar em situação bem melhor que o correspondente trabalhador americano que não dispõe dessa rede protetora. Essa filosofia de fundo de quintal, ou melhor, de cafezinho de universidade, só não explica por que os brasileiros preferem largar tudo isso no Brasil e cair fora para os Estados Unidos.
               
Não explica também por que as pessoas não fogem para os países onde há grande igualdade de renda, como Cuba e Coreia do Norte, ou de menor desigualdade como Índia, Paquistão, Bangladesh, ou Etiópia. Nem vai explicar nunca. Esse é o velho e surrado discurso da esquerda, que a New Left de Badiou e Zizek tentou colocar algumas lantejoulas para dar ar de modernidade ao que estava embolorado.
               
Quando ele escreve um artigo como esse que examinamos, só está querendo na verdade criar clima de confrontação, açular trabalhadores contra empregadores para ver se as reformas não passam e a situação piora para que as suas verdadeiras ideias, escondidas por uma cortina de palavreado confuso, consigam, despercebidamente, triunfar. Se ele se proclamar marxista e disser que gostaria que o socialismo totalitário triunfasse não conseguiria enganar os incautos que dão crédito ao que diz, sem despenderem qualquer esforço para passar aquilo que foi por ele dito ao crivo dos fatos. Se tivessem a devida atenção, não sairiam por aí compartilhando saflatices.
               
É dessa massa de fácil manobra que se cevam os pensadores de esquerda. Mas, para os mais atentos, por mais que o gato esteja escondido, o rabo sempre estará visível.
               
Chega de saflatices!
               
Um bom fim de semana para todos.
Título e Texto: Pedro Frederico Caldas, 7-4-2017

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