sexta-feira, 6 de setembro de 2019

[Livros & Leituras] As coisas desmoronam


Jordan B. Peterson

Povos inteiros se recusaram, intransigivelmente, a julgar a realidade, a criticar o Ser, a culpar Deus. É interessante considerar os hebreus do Antigo Testamento nesse aspecto. Suas lutas seguiram um padrão constante. As histórias de Adão e Eva, Caim e Abel, Noé e a Torre de Babel são realmente antigas.

Suas origens se perdem nos mistérios do tempo. Somente após a história do dilúvio, em Gênesis, que algo parecido com a história como a entendemos verdadeiramente começou. Ela começa com Abraão.

Seus descendentes se tornam o povo hebreu do Antigo Testamento, também conhecido como a Bíblia dos Hebreus. Eles fazem um pacto com Javé – com Deus – e começam suas aventuras reconhecivelmente histórias.

Sob a liderança de um grande homem, os hebreus se organizam em uma sociedade e depois em um império. Após suas fortunas crescerem, o sucesso dá à luz o orgulho e a arrogância. A corrupção mostra sua cara horrível.

O Estado, em sua progressiva soberba, torna-se obcecado pelo poder e começa a esquecer seu dever para com as viúvas e os órfãos, e desvia-se do seu antigo acordo com Deus. Um profeta surge. Ele insulta pública e insolentemente o rei autoritário e o país infiel por suas falhas ante Deus – um ato de coragem cega – dizendo-lhes do terrível julgamento vindouro. Quando suas sábias palavras não são totalmente ignoradas, são levadas em conta tarde demais. Deus golpeia seu povo teimoso, condenando-o a uma derrota abjeta nas batalhas e a gerações de subjugação.

Os hebreus se arrependem profundamente, jogando a culpa por sua desgraça na própria incapacidade de serem fiéis à palavra de Deus. Eles insistem consigo mesmos que poderiam ter sido melhores. Eles reconstroem seu estado e o ciclo recomeça.

A vida é assim. Construímos estruturas para viver. Construímos famílias, estados e países. Abstraímos os princípios sobre os quais essas estruturas são fundadas e formulamos sistemas de crença. No início, habitamos nessas estruturas e crenças como Adão e Eva no Paraíso.

Mas o sucesso nos torna complacentes. Esquecemos de prestar atenção. Deixamos de valorizar o que temos. Fechamos um olho. Não percebemos que as coisas mudam ou que a corrupção cria raízes. E tudo desmorona. Seria isso culpa da realidade – de Deus? Ou as coisas desmoronam porque não prestamos atenção suficiente?

Quando o furacão atingiu Nova Orleans e a cidade naufragou nas águas, foi um desastre natural? Os holandeses preparam seus diques para a pior tempestade em 10 mil anos. Se Nova Orleans tivesse seguido esse exemplo, tragédia alguma teria ocorrido. Não podemos dizer que ninguém sabia. O Decreto de Controle de Enchentes de 1965 ordenava melhorias no sistema de barragem no Lago Pontchartrain. O sistema deveria ter sido concluído em 1978. Quarenta anos depois, apenas 60% do trabalho havia sido realizado. A cegueira volontária e a corrupção destruíram a cidade.

Um furacão é um ato de Deus. Mas deixar de se preparar, quando a necessidade de preparo é bem conhecida – isso é pecado. É fracassar. E o salário do pecado é a morte (Romanos 6:23). Os judeus antigos culparam a si mesmos quando as coisas desmoronaram. Agiram como se a bondade de Deus – a bondade da realidade – fosse axiomática e assumiram a responsabilidade pelo próprio fracasso. Isso é ser insanamente responsável. Mas a alternativa é julgar a realidade como insuficiente, criticar o próprio Ser e afundar-se em ressentimento e no desejo por vingança.

Se você está sofrendo – bem, isso é o normal. As pessoas são limitadas e a vida, trágica. No entanto, se seu sofrimento for insuportável e você estiver começando a se corromper, isso é algo sobre o que pensar.
Título e Texto: Jordan B. Peterson, in “12 regras para a vida – um antídoto para o caos”, páginas 162, 163 e 164. Alta Books Editora, Rio de Janeiro, 2018.
Digitação: JP, 6 de setembro de 2919

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