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Álvaro Santos Pereira, Ministro da Economia. Foto: SIC Notícias |
Áurea Sampaio
O poder político mudou de mãos
e com essa mudança veio uma perspetiva completamente diferente de lidar com os
problemas. Antes, por mais negros que fossem os números, havia sempre uma
"explicação" a dar a volta aos piores cenários e todo um Governo a
agir como uma espécie de comissão sempre em festa, desmultiplicando-se em
eventos encenados com o rigor e o fausto próprios de quem não tem de olhar a
contas. O povo percebeu que o teatro estava a conduzir o País para o precipício
e mudou os protagonistas. Agora, temos justamente o contrário. Na atual
maioria, ninguém desperdiça a oportunidade para nos lembrar que vivemos um
calvário sem fim à vista. Mais, repetem com uma insistência que, às vezes,
sugere laivos de sadismo, que "isto" ainda vai ficar pior, como se o
inferno, sob a forma de desemprego, falência ou perda da casa, não fosse já
tragédia suficiente na vida de centenas de milhares de portugueses. É óbvio que
dizer a verdade é sempre a melhor opção, mas limitar a ação governativa à
imposição de um plano de austeridade pode ser tão desastroso quanto
infantilizar o exercício da governação. Em última análise, as duas atitudes,
aparentemente antagónicas, podem mesmo convergir na medida em que desencadeiam
mecanismos idênticos de paralisia social. Quando, no tempo de Sócrates, o poder
se empenhava na ilusão de uma prosperidade inesgotável acabava por
"matar" qualquer veleidade de mudança por parte dos cidadãos. Porquê
mudar se está tudo bem e o futuro é radioso? Da mesma forma, a insistência
obsessiva dos atuais governantes na austeridade e no sacrifício ajudam à
depressão e ao desalento. Para quê mudar se, faça o que fizer, o futuro é
negro?
Este clima negativo e
deprimente já está a contaminar o próprio Governo. Perdeu-se o ímpeto inicial à
medida que surgiram buracos orçamentais desconhecidos e que foram visíveis os
primeiros sinais da tensão provocada pela pressão dos lobbies, agora mais do
que nunca empenhados em não perder posições à mesa do orçamento. Com exceção
das Finanças e do irrequieto Relvas, pouco se sabe sobre o que andam os
ministros a fazer, mas a intriga palaciana já tratou de arranjar um bode
expiatório - Álvaro Santos Pereira, o titular da Economia. Mais do que apontar
as debilidades de um ministro, o fogo sobre Santos Pereira é revelador do
estado de alma de um governo que parece perdido na trama fatal por ele próprio
criada. Uma austeridade defendida ad nauseum que adquiriu vida própria, como se
fosse um fim em si mesma e não uma simples etapa de um processo que até pode
ter um final feliz.
Título e Texto: Áurea Sampaio,
revista Visão, nº 971, 13 a 19-10-2011
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