domingo, 1 de março de 2026
Metamorfoses ambulantes
Para não perder eleitores, políticos brasileiros não se acanham em dizer agora o oposto do que diziam antes. E apostam no curto prazo ao invés de olhar para o futuro
Nuno Vasconcellos
Quem acompanhou, na semana
passada, o último capítulo da novela que terminou com a aprovação pela Câmara
dos Deputados da lei que endurece o tratamento às facções do crime organizado,
reparou um detalhe, no mínimo, intrigante. Parlamentares da situação, que
normalmente rejeitam toda e qualquer medida minimamente rigorosa de combate à
bandidagem, acabaram dizendo sim ao mesmo texto que cobriam de críticas em
novembro do ano passado — quando o relatório apresentado pelo deputado
Guilherme Derrite (PP/SP) foi aprovado por 370 votos a 110. No final das
contas, o projeto foi aprovado por votação simbólica e seguiu para sanção do
presidente da República.
Merece atenção, especialmente, essa mudança de posição dos deputados da esquerda a respeito de uma posição que parecia um dogma sagrado em sua cartilha de princípios — o de que bandido bom é bandido solto e sem a obrigação de prestar contas à Justiça. O que terá acontecido nos últimos meses para justificar uma mudança de posição tão radical a respeito de um assunto tão sensível, como é o combate à criminalidade?
Vamos aos fatos. Derrite ocupava a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo e se licenciou do cargo para relatar um projeto de lei destinado a punir as facções criminosas que espalham terror pelo país. O momento não poderia ser mais propício. No dia 28 de outubro, uma operação vigorosa conduzida pelas polícias Militar e Civil do Rio de Janeiro nas comunidades da Penha e do Alemão terminou com 122 mortes. Cinco das vítimas fatais eram policiais. Entre as outras 117, a grande maioria era de narcotraficantes ligados à facção Comando Vermelho.
Three Scenarios For How The Iran War Might End
Andrew Korybko
The Islamic Republic either survves the latest
onslaught, Iran goes the Venezuelan route, or “Balkanization” begins
The joint US-Israeli campaign
against Iran officially aims to demilitarize the country and overthrow its
government. The conflict has only just begun, but Ayatollah Ali Khamenei has
already been killed along with several
high-ranking military officials. These might be symbolic victories more
than substantive ones, however, since succession plans were already made. In
any case, there are three scenarios for how the war might end, none of which
involve Iran indisputably defeating the US and Israel.
That’s because Israel and the
US could destroy Iran if they truly want to, including with nukes, though
they’re holding back for now with the expectation that a friendly government
will replace the unfriendly one and restore Iran’s role as one of their top
regional allies. The most that Iran is therefore expected to do is inflict
major damage on Israel and maybe the Gulf Kingdoms and/or regional US forces
before then being destroyed by Israel and/or the US. This assessment frames the
following three scenarios:
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1. The Islamic Republic
Survives The Latest Onslaught
In this scenario, Iran bruises
Israel and maybe the Gulf Kingdoms and/or regional US forces without inflicting
unacceptable damage to them that provokes Israel and/or the US into destroying
it, thus enabling both sides to semi-credibly claim victory over their
foes like
they did last summer. A much more weakened Iran might then either
subordinate itself to the US by cutting deals over its military, nuclear
program, energy
industry, and/or minerals, or be isolated from the region and contained
within it.
2. Iran Goes The Venezuelan
Route
It was assessed in mid-January that “The US Wants To Replicate The Venezuelan Model In Iran” through a “regime tweaking” that places US-friendly members of the incumbent government in power for ruling the country and its resource industries by proxy (thereby denying the latter to China). A coup by unideological IRGC members is the most realistic means to this end. If Iran once again becomes a top US ally, however, then it might join Turkiye in challenging Russia in the South Caucasus and Central Asia.
The US Military Campaign Against Iran Is Part Of Trump’s Grand Strategy Against China
Andrew Korybko
The goal is to obtain proxy control over Iran’s
enormous oil and gas reserves so that they can be weaponized as leverage
against China for coercing it into a lopsided trade deal that would derail its
superpower rise and therefore restore US-led unipolarity.
Trump claimed that
the US’ military
campaign against Iran is to “defend the American people”, while many
critics have alleged (whether in jest or not) that it’s to distract from the
Epstein Files, but few observers realize that it’s actually all about China. It
was explained here that
Trump 2.0 “decided to gradually deprive China of access to markets and
resources, ideally through a series of trade deals, in order to imbue the US
with the indirect leverage required to peacefully derail China’s superpower
rise.”
To elaborate, “The US’ trade
deals with the EU and India could ultimately result in them curtailing China’s
access to their markets under pain of punitive tariffs if they refuse. In
parallel, the US’ special operation in Venezuela, pressure on Iran, and simultaneous
attempts to subordinate Nigeria and other leading energy producers could
curtail China’s access to the resources required for fueling its superpower
rise.” The resource dimension that’s relevant to Iran is a major part of the
US’ “Strategy of Denial”.
That’s the brainchild of Under
Secretary of War for Policy Elbridge Colby, and it was expanded on in this
analysis here from
early January. As was written, “US influence over Venezuela’s and possibly soon
Iran’s and Nigeria’s energy exports and trade ties with China could be
weaponized via threats of curtailment or cut-offs in parallel with pressure
upon its Gulf allies to do the same in pursuit of this goal”, which is to
coerce China into indefinite junior partnership status vis-à-vis the US through
a lopsided trade deal.
Most observers missed it, but the new National Security Strategy calls for ultimately “rebalance[ing] China’s economy toward household consumption”. This is a euphemism for radically re-engineering the global economy through the previously described means, namely curtailing China’s access to the markets and resources responsible for its superpower rise, so that it no longer remains “the world’s factory” and thus ends its era of being the US’ only systemic rival. US-led unipolarity would then be restored.
[As danações de Carina] Monogamia*
Carina Bratt
NA PEQUENA e pacata cidade de Santo Eduardo do Amor Ciumento, onde todos se conheciam pelo primeiro nome, havia uma praça em frente ao único mercado com bancos de madeira que guardavam segredos de gerações.
Não outra, senão a bucólica praça da Solidão.
Ali, entre conversas ao entardecer, surgia sempre o tema da monogamia, como se
fosse um velho relógio enferrujado que marcava o ritmo da vida, mesmo quando
alguns já não acreditavam no seu tic-tac.
Dona Dipirona Monoidratada da Costa, uma
simpática viúva há exatos noventa anos
bem vividos, apregoava que a monogamia se parecia a como plantar uma
árvore: essa simples ação exige paciência, cuidado e a certeza de que as suas
raízes não se dividirão.
Já o jovem Mateus Cefalexina com seus trinta
anos e olhos curiosos, retrucava que o mundo moderno não cabia em molduras tão
estreitas, que o amor verdadeiro podia ser múltiplo de três sem perder a
intensidade.
O curioso nessa história meio às avessas, é
que, apesar das opiniões divergentes, todos voltavam para suas casas com a
mesma sensação: a monogamia não se firmava só no patamar de uma escolha íntima,
mas também, e sobretudo, num espelho cristalino e sem manchas ou arranhões
daquilo que cada um buscava segurança, liberdade, ou talvez apenas uma simples
companhia para não se sentir só e abandonado.
No fundo, a única praça da bucólica Santo
Eduardo do Amor Ciumento parecia rir da discussão. Afinal, os bancos de madeira
já haviam testemunhado promessas eternas e também despedidas rápidas e
rasteiras. Outras tantas violentas e até quase às raias da loucura. E talvez
fosse esse o segredo: a monogamia não é uma regra soberana, tampouco universal,
mas uma narrativa meio destrambelhada ao acaso que cada coração escreve à sua
maneira.
Na cidade de Santo Eduardo do Amor Ciumento, a monogamia se fartava ou se apresentava e por conta disso se via tratada como um contrato social tão sério quanto o de abrir uma conta corrente num banco: cheio de cláusulas invisíveis e taxas emocionais para lá de abusivas.





