domingo, 29 de março de 2026

[As danações de Carina] Simplesmente nada além de assustada

Carina Bratt

AQUELE BARULHO INFERNAL veio do nada. Na verdade, foi um estalo seco, como se o mundo tivesse quebrado um galho de uma árvore invisível. O meu coração disparou. Os olhos foram mais longe. Procuraram uma explicação plausível, mas só havia silêncio. O medo não estava no som, pelo contrário, se fazia presente na ausência dele. Assustada, euzinha percebi que não era o estalo seco que me inquietava, mas a lembrança de quantas vezes já havia vivido esse sobressalto: o telefone que tocava de madrugada, a porta que batia sem vento, a notícia da morte de um parente dada sem um remédio anestésico para enganar os resquícios do desassossego.

O susto é sempre maior do que o motivo. E o exórdio, a cada nova meta, se faz maior e mais degradante. E então, como quem ri ‘abestalhadamente’ de si mesma, respirei fundo. Tão fundo que meu estômago quase saiu esmagado pelos fundilhos dos meus ouvidos. Apesar disso tudo, o mundo seguiu igual, mas dentro de mim, bem lá no amago do amago que nem sei onde fica, permaneceu a marca indelével de mais um instante em que o tempo parou, estancou, se deteve, deixou de existir só para me lembrar que estar vivo é também, na maioria das vezes, se assustar, mesmo com uma simples barata com a cara daquele pacato cidadão batizado como Gregor Samsa.

Gregor Samsa, para quem não sabe, surgiu em cena como um modesto e pacato homem do povo. Um ilustre não muito ilustre, mas um desconhecido pra lá de sussa. Caixeiro viajante de profissão, ficou famoso no mundo inteiro por ser ou por se transformar no personagem central daquele famoso escritor austro húngaro de língua alemã, um tal de Kafka. Por conta de uma história escrita em 1912 e tornada pública em 1915. O barulho infernal veio do nada. Como veio do nada, isso dará mais corpo e profundidade ao meu texto. Como disse, foi um estalo seco, tipo assim, como se o mundo tivesse levado um soco e quebrado um galho de árvore de rosto invisível.

O meu coração, coitado, disparou feio. Correu mais que candidato em busca de um cargo em começo de carreira. Meus esbugalhos junto com meus olhos, se deram as mãos e procuraram explicação, mas essa tentativa de se chegar a um acordo, não deu certo. No geral, só havia silêncio. O medo, agora entendo, não estava no som, mas se fazia robusto na ausência dele. Repetindo o já dito, assustada, percebi que não era o estalo que me inquietava, mas a lembrança de quantas vezes já havia vivido esse sobressalto, tipo o telefone que tocava de madrugada, e, ao ser atendido, me deparar com um maluco cantando ‘Bicho solto’ do Roberto Carlos. De outra feita, a porta que batia sem vento e atirava a chave debaixo do sofá de dois lugares, ou a notícia inesperada da minha vizinha que me acordava as duas da manhã para dizer que o gato dela de estimação resolveu virar defunto.

O susto, o medo, o pavor, o sobressalto, por mais sem valor que seja, é sempre maior do que o motivo que entra sem pedir licença e não descola nem se a Maria Bethânia (se viva fosse) invocasse o espírito da Mãe Menininha do Gantois, ou a alma purificada dela, a da senhora dona Maria Escolástica da Conceição Nazaré. O curioso é que o susto não pede licença. Esse troço invade, interrompe, desarruma. Faz o corpo reagir antes que a mente compreenda. E nesse intervalo, entre o instinto e a razão, mora uma estranha verdade: eu, você, a vizinha do 1201, o porteiro, enfim, somos todos frágeis. Basta um ruído fora de lugar para que toda a segurança construída dentro de nosso esqueleto desmorone como as Torres Gêmeas do World Trade Center nos idos de 11 de setembro.

Na distância da minha infância querida, o medo vinha das sombras no quarto, dos vultos inventados pela minha imaginação. Na vida adulta, os fantasmas mudaram de forma: viraram boletos, telefonemas chatos, síndico insuportável, casal de idosos peidando no elevador subindo ou descendo, despedidas inesperadas. O sobressalto e o choque, de braços dados com o cagaço, fazem com que a estupefação continue a mesma, apesar das trocas de máscaras. Lembra muito, esses vermes nojentos, uma corriola de togados asquerosos assemelhados aqueles saídos dos desaguadouros de Brasília, E então, como quem ri feito uma desmiolada da própria imbecilidade, me dei e ainda me dou ao trabalho de contar até dez e respirar fundo.

O mundo aos meus pés, segue igual. Se agiganta dentro de mim como uma cagada engarrafada, porém, deixa a marca de mais um instante em que o tempo parou tampando os buracos do nariz em face do mal cheiro exalado. Apesar disso, devo me lembrar, que estar viva é também se assustar, perder, às vezes, a coragem de arrancar as pregas dos fundilhos ‘cagatórios’ e permanecer com semblante de tarada, como aquela ministra com o aspecto de defunta embalsamada depois de ter sido ‘conservada’ a poder de uma ‘tanatopraxia’ arranjada às carreiras.

Talvez a mossa, seja, no fundo, uma prova cabal de que ainda estamos atentos e que o coração se recusa a ser indiferente. O barulho ensurdecedor veio do nada. De novo? Um estalo seco, como se alguém tivesse quebrado um galho invisível dentro da sala. O coração disparou, os olhos arregalaram, e euzinha já estava pronta para fugir, meter sebo nas canelas, sair à francesa e virar poeira. Droga! Evolar-se para onde? Para detrás da minha geladeira. Acredite quem quiser. É a mais pura verdade. Não existe lugar melhor para se esconder.

Título e Texto: Carina Bratt, de São Paulo, Capital,  29-3-2026

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