Carina Bratt
GRAÇAS AO MEU BONDOSO DEUS, cheguei a um ponto em que o mundo ao meu redor parece ter perdido o poder de me tirar do eixo. Já não me incomoda o trânsito lento, nem o vizinho fofoqueiro, ou a adolescente do som barulhento, que toca umas músicas (músicas?!) que parecem ter saído dos quintos. Sem falar num senhor quase na casa dos cem, que insiste em falar alto com ele mesmo, a dialogar com seus fantasmas na madrugada com alguém inexistente. Alguém que somente ele vê diante da sua insanidade, e, nesses instantes, ligar a TV na Rede Globo e ficar com a língua de fora com a cara daqueles debilóides do BBB.
As pequenas contradições da vida, os reveses,
os abalos, os descalabros que antes eram capazes de acender em mim uma chama de
impaciência, de intolerância e infelicidade, hoje se dissolvem como fumaça no
ar. Nada mais me irrita, nada mais me tira do sério, do prumo, nada mais me
desvia da tranquilidade, porque aprendi que a irritação é apenas um convite
para desperdiçar energia. Descobri, mesmo saco de gatos rosnando, que o
silêncio é mais forte que qualquer resposta atravessada, e que a calma que vem
de dentro de mim é uma espécie de arma invisível contra o caos reinante.
Nada mais me cala a voz, ou me sufoca, me constrange, ou me assusta. Nada, porque percebi que cada situação é apenas um reflexo daquilo que eu escolhi carregar dentro de mim. Se me abasteço de uma leveza pura, tudo se torna suportável. Se carrego paz, até o inesperado se torna bem-vindo. Nada mais me irrita, não porque o mundo aqui dentro, ou lá fora, tenha mudado, mas porque eu resolvi mudar. Da água para o vinho. E nessa mudança, encontrei uma liberdade rara: a de não ser refém das pequenas tempestades que antes me roubavam a serenidade, que me tolhiam de estar em paz comigo mesma.
Esse texto que hoje trago em minhas
‘Danações’ de todos os domingos, pode ser lido e não só lido, entendido,
observado, esmerilhado, difundido como uma reflexão filosófica ou até como um
manifesto pessoal de quem decidiu se blindar da cabeça aos pés. Me cercar por
inteira contra as irritações cotidianas. Certamente minhas amigas perguntarão:
como eu fiz tal milagre? Não fiz, amigas. Ele, o benfazejo, já estava pronto
dentro de mim. Ele surgiu porque, em algum momento, percebi que a irritação
cavernosa não muda nada fora de mim, ou dentro de meu ser. A não ser que eu
mesma queira deixar como está e pouco me lixar.
A exasperação, a fúria, o azedamento, a
contrariedade, a precipitação, só rouba a paz e esfola a harmonia O processo
não é mágico, mas acreditem, é magnamente transformador. Passei a aceitar que o
mundo não vai se ajustar às minhas expectativas. Em vez de reagir, de gritar,
arrancar os cabelos, escolhi agir com calma. Deixei também de dar importância
às coisas que me deixavam para baixo, tipo assim macambuziada. Acredito do mais
fundo do meu ser, que o ‘milagre’ que operei em mim, é, na verdade, fruto de disciplina
emocional e de uma decisão íntima: não entregar minha energia ao que não
merece.
O que não merece, que se dane, que se
exploda, que se foda. Tudo aquilo que antes me fazia ferver, pular feito
pipoca, agora passa diante de mim como se fosse apenas parte de um cenário. De
um palco que eu monto e desmonto quando bem me der na telha. Não houve ritual
secreto, nem revelação mística. O milagre nasceu devagar, como quem aprende a
caminhar sem perceber que os paus de arrimo ficaram em algum lugar bem longe.
Primeiro, veio a consciência de que a irritação não mudava nada além do meu
humor. As muletas, me pesavam, meus passos pareciam carregados de chumbo.
Depois, a escolha de respirar fundo em vez de
responder a alguém atravessado, enviesado, tipo ‘vá para aos quintos’, vá
amolar os porcos’, ou ‘se embrenhe por uma trilha de braços dados com o diabo
que o carregue’. Aos bocados poucos, fui trocando a pressa por observação, o
impulso por silêncio e o silêncio pela tranquilidade de estar sossegada dentro
de mim, de estar em sintonia meridiana comigo mesma. O mundo ao meu redor
continua o mesmo: barulhento, insípido, apressado, cheio de contradições. Mas
eu, euzinha, ah, euzinha mudei. Desfigurei as caras feias, os olhos amarrados,
os dentes...
E nessa mudança, descobri que a irritação é
uma moeda cara demais para se gastar em coisas pequenas. Aprendi a rir do
imprevisto, a aceitar o que não controlo, a guardar energia para o que
realmente me importa e faz a diferença. O milagre, queridas amigas da ‘Grande
Família Cão que Fuma’, não foi deixar de sentir. Foi aprender a escolher.
Consagrar a calma, saudar a leveza, reconhecer e incitar a paz. E assim, sem
alarde, sem barulho, na surdina, percebi que nada mais me irrita. E o mais
legal. Nem eu me irrito comigo quando estou sem mim.
Título e Texto: Carina Bratt, de Colatina,
no Espírito Santo, 8-3-2026
Monogamia*
Enfim, a chegada tão esperada de Heitor se fez real
Os gritos das ‘Três Graças’, ou de quando o silêncio incurável se torna remédio para saudar a vida em sua melhor forma de expressão
A tarde eterna dos que se esqueceram que precisavam partir

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