sexta-feira, 20 de março de 2026

[Aparecido rasga o verbo] Se ao menos aquele Policarpo fosse o Quaresma...


Aparecido Raimundo de Souza

MANHÃ ensolarada, logo cedo, antes das oito, a fila de acesso aos consultórios dos ginecologistas, os doutores Xapiroca Eutanásio Durão e Metrô Brumâncio Carcomido estavam com mais de vinte pessoas em fila de espera. Por conta desse evento, gente se esparramava numa fila malparida pelo extenso corredor quase penteando às barbas dos elevadores. O único atendente não tinha tempo nem de se coçar.

Carecia, a criatura, de ser rápida para que as pessoas não esperassem muito e os doutores não ficassem o dia todo só naquele lugar, tendo em vista que após às treze horas, ambos se mandariam para darem plantão em outras localidades. Nesse pé, o rapaz tentava, da melhor forma, ser rápido e eficiente, levando em conta que cada representante feminina do sexo frágil devida à sua aparência debilitada e enfermiça necessitava ser atendida o mais breve possível, muito embora, cada paciente não ficasse mais que vinte minutos torrando as paciências dos especialistas. A vigésima sexta da fila foi convocada
— Próxima, por gentileza...

Uma senhora aí pela casa dos cinquenta se aproximou:
— Bom dia. Seu nome?
— Dorotéia Xumbrega Volante.
— Xumbrega com X ou Ch?
— Com xis, de chupeta tipo essas que ficam bailando em boca de recém-nascidos.

— A senhora tem hora marcada?
— Sim.
— E qual é o seu médico?
— O doutor de sempre, ora bolas...
— Temos dois. A senhora é paciente do doutor Xapiroca ou do doutor Brumâncio?

— Do doutor Metro Brumâncio.
— É doutor Metrô, senhora, com chapeuzinho no o.
— Obrigada pela correção.

— Tem plano?
— De quê?
— Médico, ora bolas.
— Não, não tenho. Vou pagar a consulta. Qual o valor?

— Trezentos reais.
— Vai fazê-lo por pix, dinheiro em espécie, transferência para a conta, ou cartão de crédito?
— Cartão.
— Qual a bandeira?
— Visa.
— Débito ou crédito?
— Crédito.
— Em quantas vezes? — Duas, três ou mais de cinco?
— Uma.
— Sua identidade, por favor.

A mulher entregou o documento solicitado. O atendente deu um close nos dados e na foto e devolveu o olhar com uma pergunta óbvia:
— É a sua pessoa?
— Sim. Qual o problema?
— Nenhum. Parece mais nova!
— Obrigada.

— Trouxe os exames pedidos?
— O doutor não me passou nenhum...
— Então é a sua primeira vez?
— Com ele aqui, sim. Já venho de outra clínica onde ele atendia.

— Endereço?
— Rua do Ladrão Luiz Fula da Mula Sem Noção, número 13.
— Bairro e CEP
— Bairro do Peito Inácio da Sanja Canja Malcheirosa. O CEP é 13.241.902

— Peido?
— Peito, moço, peito. O mesmo que mamilo, teta, seio, etc...
— Telefone de contato?
— 9.9980-55 bolinhas três.
— Ok, madame. Por hora, pode passar o cartão, fazer o pagamento e aguardar...

Diante de tantos questionamentos a mulher ficou a ponto de explodir e quase sair cantando aquela canção do Roberto Carlos onde ele mandava tudo pro inferno. Embora estivesse sendo assediada por uma cólera amarga, aproveitou o incômodo e não se segurou. Explodiu. Após guardar o cartão e pegar a prova do valor dispendido, e antes de se acomodar numa das muitas cadeiras, vagas, investigou do secretário dos esculápios:

— Como é seu nome, meu filho?
— Policarpo*
— O prezado é amigo do Quaresma?*
— Que Quaresma, senhora?*
— Irmão do Lima*.
— Que Lima?*
— O Barreto!*
— Nem nunca ouvi falar!

Meia hora depois, brotaram nos umbrais duas pacientes (uma de cada sala) que haviam acabado de ser atendidas. O Policarpo sem mais perca de tempo, chamou a senhora que se destinaria ao doutor Xapiroca e, na sequência, ao doutor Brumâncio.

— Podem ir lá, senhoras...
— Qual porta seria a de meu ingresso?
— Querida, é só olhar para a plaquinha de acrílico amarela onde está o nome do seu médico. Doutor Xapiroca, sala 1. A outra é a 2, obviamente a do doutor Metrô Brumâncio... alguma dúvida?

Pê da vida, pelo tempo de espera, a paciente, enfezada até as raízes dos cabelos, não deixou por menos. Tentou se acalmar questionando o sujeitinho sem educação:
— E aquele terceira porta ali, totalmente ausente de indicação?
— É a porta que leva aos sanitários, senhora.

Dona Xumbrega, então perdeu a linha. Despirocou o cabeção de vez e deu o troco. Inopinadamente voltou a se aproximar do deseducado, se debruçou sobre o balcão e pegou o atendente esticando um braço. Com um puxão certeiro em seus cabelos o arrastou para cima de um amontoado de prontuários, como se estivesse parando um boi descontrolado:

— Aproveita, seu Policarpo, entra ali na terceira porta sem acrílico de aviso e ao invés de ser mal-educado, pedante e deseducado, arreie a sua calça, faça força e deixe escorrer de dentro de seu rabo essa bosta fedorenta antes que o seu mal humor escape em traques desnudados de excessos e imundícies. Se tal desastre acontecer, toda essa recepção e as senhoras e senhoritas aqui presentes, em vista do seu cano de descarga estar furado todo o mal cheiro existente dentro dessa sua ânfora púnica onde repousam os excrementos de seu magricelo fedegoso, todas, sem exceção, todas as pacientes precisarão sair às carreiras dessa espelunca.

Dona Xapiroca após esse ataque surpresa levantou a cabeça, se empertigou, caminhou a passos suaves e bateu levemente com os nós dos dedos na porta com a indicação de seu médico e entrou para a consulta. Atrás dela, todas as moças e senhoras que aguardavam em maciça plateia, se quedaram num silêncio atônito e literalmente constrangedor.

Explicação necessária:
Policarpo Quaresma: * Personagem da romance ficção “Triste fim de Policarpo Quaresma”.
Seu autor: * Lima Barreto: Foi um escritor nascido em maio de 1881 no Rio de Janeiro e falecido em 1 de novembro de 1922, aos 41 anos.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, ES, 20-3-2026

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