Aparecido Raimundo de
Souza
(Para todos que
fizeram parte da minha vida)
ALARDEIAM OS ANTIGOS
que a vida é curta, assim, como dizer um “bom dia”, uma “boa tarde”. Breve como
a partida de uma pessoa insuportável, ligeira como um espirro, rasteira como um
sorriso e até mais abreviado que um peido maroto soltado em hora imprópria.
Sempre achei que ela, a vida, cabia em muitas histórias. E como eu sempre fui
um contador de histórias, algumas delas ganharam vida em viagens de ônibus
quando ia ou voltava do trabalho. Outras em abraços demorados, e muitas em
gargalhadas que ecoaram mais alto do que qualquer tristeza com semblante de
pegajosa e mal-amada.
Mas se anime, minha
princesa. Se hoje você está aqui diante dessa pedra fria, encarando meu buraco
nesse chão de terra enlameada, talvez rindo por dentro e pensando com seus
botões, “graças a Deus, essa imundície se foi”, saiba que ela, a sepultura, não
guarda apenas o fim, mas também agasalha o começo de cada lembrança. Porque eu
não sou só esse nome gravado aqui nessa sepultura. Também me sinto e
logicamente reconheço, fui um sujeito medíocre, um cara que fazia mal às
pessoas, que abandonou as mulheres com quem viveu, os filhos que não soube
criar... também fui conversa, piada, companhia, ainda que insuportável, mas
quem estava ao meu lado se divertia ou fingia bem.
E se a saudade nesse
momento apertar, se lembre: eu sempre preferi que me recordassem com um
sorriso. Afinal, rir era o meu jeito imbecilizado de desafiar o tempo. Agora
descanso, mas deixo um convite para você, minha linda que me encara muda e sem
saber o que dizer: viva como quem sabe que cada instante pode virar história. E
quando contar a sua, não esqueça de temperar com bastante humor, porque é assim
que a vida fica mais leve, mesmo aqui vista desse lado. Nunca se esqueça: a
vida é um sopro. Eu, porém, sempre achei que ela tinha gosto de café com leite
acompanhado de dois pães com manteiga pela manhã e também de gargalhadas
inesperadas.
Você sabe, não vivi
como quem conta os dias, mas como quem coleciona histórias. Algumas sérias,
outras absurdas, e muitas que só faziam sentido porque vinham de dentro de mim.
Se você está aqui, diante dessa última morada, saiba que não encontrará apenas
silêncio. Há ecos de conversas que nunca terminaram, lembranças que insistem em
se repetir, e perceba, há risos que ainda vibram no ar, mesmo que eu já não
esteja de bom humor para soltá-los. Fui amigo, companhia, aquele idiota que
fazia piada quando o momento pedia seriedade e, às vezes, quando não.