Ao tentar exaltar Lula em seu desfile, a Acadêmicos de Niterói acabou criando mais problemas do que benefícios eleitorais para o presidente da República
Se a escola de samba
Acadêmicos de Niterói tivesse brilhado na Marquês de Sapucaí, a história
seguiria um rumo diferente do que vem seguindo. Se a escola tivesse evitado os
erros infantis que cometeu e tivesse feito um desfile à altura do que
normalmente se vê no Grupo Especial do Carnaval carioca, haveria neste momento
uma disputa renhida para saber de quem partiu a ideia de levar ao Sambódromo,
no Rio de Janeiro, na noite do domingo de Carnaval, a trajetória de Luiz Inácio
Lula da Silva — desde sua saída de Garanhuns, no Agreste de Pernambuco, até seu
terceiro mandato na Presidência do Brasil. A fila de candidatos a se apresentar
como o pai — ou a mãe — da criança seria quilométrica.
Só que tudo deu errado. No final das contas, o desfile, ao invés de aumentar a popularidade de Lula, como temia a oposição, causou danos consideráveis à imagem do presidente. Tão consideráveis que, para o pessoal da esquerda, a ressaca provocada pelos excessos do Carnaval, além de não ter ido embora na Quarta-Feira de Cinzas, ainda deve se prolongar por um bom tempo.
Embora a ideia de cantar a
vida de Lula na Avenida não tenha partido do presidente, os danos recaíram
exclusivamente sobre sua popularidade. A cada minuto, fica mais difícil
encontrar alguém disposto a assumir a paternidade — ou a maternidade — da ideia
infeliz de transformar a história do retirante que se tornou presidente num
enredo que recebeu mais vaias do que aplausos.
Uma semana depois do desfile, a Acadêmicos de Niterói, que fez sua estreia e, provavelmente, sua despedida do Grupo Especial do Carnaval carioca, continua dando o que falar. O espetáculo que ela protagonizou foi patético, repleto de provocações baratas aos adversários e recheado de clichês tão previsíveis que, ao invés de divulgar de forma positiva, acabou provocando arranhões desnecessários na imagem de Lula.
O enredo foi um engodo e, entre todos os defeitos que apresentou, um dos mais graves foi o de não estar à altura da trajetória do homenageado. Isso mesmo! Ao contrário de outros enredos que, em carnavais passados, foram capazes de transformar figuras controversas em heróis, o personagem retratado pelos Acadêmicos de Niterói não tem a grandeza do Lula de carne e osso. No final, a impressão que ficou foi a de que a intenção do enredo não era homenagear o presidente Lula, mas descer o malho no eterno oponente — o ex-presidente Jair Bolsonaro, retratado como o palhaço Bozo.
Isso mesmo: as alas, adereços
e alegorias com referências a Bolsonaro e a outros adversários da esquerda,
como o ex-presidente Michel Temer, tiveram mais destaque na Avenida do que a
louvação a Lula. A propósito, o desfile comprovou que, mesmo estando preso e
impedido de disputar eleições, o “Bozo”, ao invés de gerar risos, continua a
ser tratado pelos apoiadores do governo como uma ameaça a ser combatida
diuturnamente. Ou, senão, como um espírito maligno que, se não for exorcizado a
cada minuto, corre o risco de tomar conta de todos os eleitores e acabar
tirando de Lula a vitória nas eleições presidenciais deste ano.
QUEDA MERECIDA — No final das contas, o desfile se resumiu a um
amontoado de picuinhas expostas por uma escola mambembe que, da Comissão de
Frente até a ala que fechou o desfile, parecia mais interessada em ofender os
adversários do que em ressaltar os méritos de Lula. No final das contas, ficou
a sensação de que os bajuladores que desenvolveram o enredo da escola, ao invés
de projetar o presidente de forma positiva, expuseram sua imagem a um risco
elevado demais para os benefícios que ele porventura poderia ter recebido em
troca.
Em outras palavras, não havia
a menor necessidade de arriscar o prestígio do presidente com um desfile que
tinha tudo para criar embaraços. O resultado, pelo que se viu na Avenida,
superou as piores expectativas que os lulistas de bom senso tinham a respeito
do desfile. No final, como diz a letra do samba de Jorge Aragão e dona Ivone
Lara, citada no título deste texto, a escola caiu “para o segundo grupo, e com
razão”.
Pelo que se viu no Sambódromo,
a queda era inevitável e a responsabilidade por isso não pode ser atribuída a
Lula. Ela deve cair, isso sim, nas costas dos bajuladores que dirigem a escola
e dos carnavalescos trapalhões que executaram a obra. Carnavalescos que, ao
invés de explorar o bom-humor, que sempre foi a marca da folia carioca,
apelaram para ofensas gratuitas que, na melhor das hipóteses, aumentaram a
rejeição a Lula junto a uma parcela socialmente expressiva e numericamente
importante do eleitorado.
A menção desrespeitosa a
evangélicos, aos valores familiares conservadores, aos empresários do
agronegócio e a outros segmentos que a esquerda trata não como adversários, mas
como inimigos, dificultarão o trabalho de Lula para atrair a simpatia desse eleitorado
numa disputa polarizada em que cada voto desperdiçado poderá fazer falta na
reta final.
Do ponto de vista técnico, a
lambança foi completa. A transmissão da TV cansou-se de mostrar componentes
que, ao invés de soltar a voz e cantar o samba enredo, preferiam se exibir para
as câmeras fazendo o “L” em alusão a Lula. (Em tempo: de acordo com o Manual do
Julgador da Liga Independente das Escolas de Samba — Liesa, o canto do samba
pelos integrantes é o subitem mais valorizado no julgamento do quesito
Harmonia). E mais: a evolução dos componentes foi preguiçosa e insuficiente
para satisfazer até mesmo aos critérios simplificados de julgamento desse
quesito adotados pela Liesa desde os desfiles do ano passado.
Os carros alegóricos, as
fantasias e os adereços foram tão chinfrins que fica difícil acreditar que o
espetáculo grotesco tenha sido capaz de consumir os R$ 9,6 milhões que a escola
recebeu em subsídios do Governo Federal, do Governo do Estado do Rio de Janeiro
e da Prefeitura de Niterói. Quem entende de Carnaval e sabe calcular os custos
dos carros e das fantasias acredita que, pela qualidade sofrível do material
levado à Avenida, e pela quantidade de dinheiro que recebeu, a escola deve ter
fechado sua breve passagem pelo Grupo Especial da Liesa com uma bela sobra no
caixa.
CAMPANHA ANTECIPADA — Em resumo, a escola não se mostrou à altura
do personagem que ela pretendeu retratar. Neste ponto, as observações deixam de
girar em torno dos aspectos técnicos e do regulamento da Liesa para se
concentrar nas questões políticas e legais levantadas pelo desfile da
Acadêmicos de Niterói. Sob esses aspectos, a decisão de levar para a Avenida a
história de um candidato que, dentro de exatos 224 dias, tentará obter seu
quarto mandato como presidente do Brasil, teria sido arriscada mesmo se o
enredo tivesse sido bem executado. A impressão que ficou foi a de que, mais do
que exaltar Lula, a intenção foi testar os limites da legislação e estabelecer
os marcos para a campanha deste ano.
O problema não está, pelo que
se viu até aqui, nas possíveis punições que a Justiça Eleitoral poderá aplicar
ao Partido dos Trabalhadores por antecipação de campanha ou por propaganda fora
de hora. Esse risco, que realmente existe. O desfile, no final das contas,
deverá gerar uma intensa batalha judicial que, independentemente do desfecho
que venha a ter, definirá os limites da conduta dos candidatos durante a
campanha eleitoral deste ano. As primeiras ações por propaganda antecipada
chegaram à Justiça Eleitoral antes mesmo do primeiro passista da Acadêmicos de
Niterói pisar na Marquês de Sapucaí. Encerrado o desfile, elas se
multiplicaram.
A maioria das ações, é claro,
foi movida pelos partidos de oposição, mas o PT reagiu na mesma moeda. Apoiado
por seus acólitos PCdoB e PV, o partido de Lula tenta acusar os políticos da
direita de se valeram da Inteligência Artificial para alterar a realidade e
expor Lula ao ridículo em razão do desfile. A discussão jurídica ainda vai
durar algum tempo e deve terminar sem produzir danos significativos para a
candidatura do presidente ou para seus adversários. Ou seja: o maior problema
não é jurídico, mas de natureza política.
O maior risco que Lula poderá
correr caso seus apoiadores insistam numa linha de campanha voltada
exclusivamente para a “desconstrução” dos adversários e para as ofensas
gratuitas aos que não rezam por sua cartilha não virá dos tribunais, mas de
quem realmente decidirá a disputa: o eleitor. Ao trazer Bolsonaro para uma
festa na qual sua presença era absolutamente desnecessária, os “gênios do
marketing” que elaboraram o enredo da Acadêmicos de Niterói, ao invés de
reafirmar a superioridade de Lula sobre o adversário que ele derrotou em 2022,
acabaram transformando o inimigo abatido em vítima — e, como todos sabem, a
vitimização tem força para atrair simpatias.
Um dos motivos da vitória de
Juscelino Kubitschek nas eleições de 1955 foi sua identificação com Getúlio
Vargas, que havia tirado a própria vida no ano anterior depois de sofrer uma
intensa campanha difamatória de seus adversários).
E mais: a inclusão nas
fantasias da escola de ofensas gratuitas aos evangélicos e às famílias
confinadas em latas de conserva (numa forma de se referir aos “conservadores”
que é digna de estudantes da quinta série) desencadeou uma reação que, na
semana passada, tomou conta da internet. A onda de memes que inundou a rede em
resposta a essa imagem de mau gosto, evidentemente, ajudou a aumentar o dano
que o enredo infeliz causou e continuará causando à imagem do pré-candidato
Lula.
A pergunta é: não teria sido
preferível exaltar as qualidades do presidente sem oferecer aos adversários a
oportunidade de reagir e partir para o ataque? Este é o xis da questão. Da
forma como foi idealizado e executado, o desfile da Acadêmicos de Niterói, ao
invés de servir como peça de propaganda antecipada em benefício da candidatura
de Lula, desencadeou uma batalha que beneficiou seus adversários. E deixou
claro que a campanha deste ano tende a ser mais intensa e polarizada do que a
de 2022.
O uso da tecnologia digital
será intensivo e permitirá que os candidatos — numa dimensão superior à que se
viu nas eleições passadas — abordem diretamente o eleitor, sem a necessidade da
intermediação dos marqueteiros, num ambiente marcado pelo uso intensivo da
tecnologia. A discussão, a partir daí, se volta para a ausência no debate
daquilo que deveria ser obrigatório em qualquer campanha eleitoral. O problema,
naturalmente, não está no uso dos recursos tecnológicos, mas naquilo que o
candidato se propõe a fazer quando chegar ao poder. E essa discussão, mais uma
vez, está sendo posta de lado.
O problema é complexo. Em
1932, na Alemanha, o nazista Adolf Hitler, que ensaiava os passos iniciais na
carreira que faria dele o ditador mais abjeto da história, inovou como o
primeiro político do mundo ao fazer uso intensivo do avião como recurso de campanha
eleitoral. Enquanto seu adversário, o veterano Paul von Hindenburgh, dava
mostras de cansaço, o jovem Hitler decolava, pousava e fazia comícios em cinco
cidades diferentes todos os dias. Parecia estar por toda parte. Pela campanha
dinâmica que fez, Hitler levou para o segundo turno uma eleição em que entrou
como azarão e assegurou as 230 cadeiras que deram ao partido Nazista a maioria
no Reichstag, o parlamento alemão.
O uso do recurso tecnológico,
naturalmente, não pode ser confundido com a conduta adotada por Hitler depois
que se tornou governante. Isso vale para ele, como vale para qualquer outro. De
um modo geral, a tecnologia está à disposição de todos e a diferença está na
habilidade de utilizá-la. Se Hitler inovou com o uso intensivo do avião, o
democrata John Kennedy foi pioneiro no uso eficiente das transmissões ao vivo
pela TV numa época em que as redes ainda engatinhavam nos Estados Unidos. Nas
eleições de 1960, antes de derrotar o republicano Richard Nixon nas urnas, ele
o superou num debate que foi transmitido em cadeia nacional e entrou para a
história.
No Brasil, em 1989, numa época
em que as campanhas eleitorais ainda pareciam depender do discurso, do comício
e do tapinha nas costas, Fernando Collor inovou ao utilizar os recursos mais
avançados de propaganda e marketing em sua campanha à presidência. Em 2018,
Jair Bolsonaro inovou com o uso intensivo e eficiente da internet como meio de
interação com os eleitores. Todas essas situações geraram debates sobre o
limite do uso das ferramentas tecnológicas e alteraram os paradigmas das
campanhas que vieram a seguir. É preciso estar atento a elas para que o samba
eleitoral não corra o risco de atravessar na Avenida.
Título e Texto: Nuno
Vasconcellos, O Dia, 22-2-2026
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