quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

[Daqui e Dali] A morte começa quando nascemos

Humberto Pinho da Silva

Tudo passa açodado: passam as horas, passam os dias, passam os anos e, sem percebermos, chega a caduquice, a decadência, a velhice… e tudo passa num ápice!...

Então, atônitos, interrogamo-nos, como foi possível!?

Paulatinamente, passaram os dias alegres da juventude e, de súbito, o que nos parecia não ter fim, acaba… e já somos homens e mulheres feitos...

As graciosas linhas do rosto juvenil evolam-se; branqueiam–se de neve os grisalhos cabelos; e, de repente, os indesejados sulcos da face surgem… e, com eles, maleitas e achaques, próprias do lúgubre crepúsculo... Assim como esmorecerá a memória, e os cansados olhos se embaciaram para sempre ...

Escreveu Frei Heitor Pinto, na “Imagem da Vida Cristã”, citando prática de São Gregório, que “A morte começa logo que nascemos.”

Asseverando convicto que a vida nunca para, mas rola, assim como o tempo, que nunca está, mas constantemente passa. E termina afirmando que é erro saudar amigo dizendo “Como está?”. Porque ninguém “Está”, mas “Passa”.

As águas do rio não estão, mas correm, passam; como passam também, os ponteiros do relógio que, sem cessar medem minuto a minuto o tempo.

No vigor da mocidade alimentamos - falsa ilusão! - que a vida não passa, não têm fim; os que perecem, são sempre os outros… os velhos… os avós, os pais.

Mas o tempo passa, rola, voa, e num ápice chega a triste velhice. Com ela, os incômodos e arreliadores achaques...

Alguém comparou a vida a um longo e perlongado sonho: inicia ao adormecer e termina ao acordar.

Ou à Caverna de Sócrates. Tirante o sentido original da alegoria, narrada por Platão, que apresenta homens acorrentados, a caminhar morosamente para a Caverna.

Por analogia, tomei a ousadia de adaptá-la, em parte, para demonstrar o que é a vida: todo o ser humano, mais cedo ou mais tarde, acabará, mesmo não querendo, a precipitar-se na Caverna, ainda que não conheça o que irá encontrar, porque é enigma para ele.

Um dia, sem o desejar, a negregada. Átropos, sem piedade, cortará a tênue linha que une a vida à Eterna Vida.

Título e Texto: Humberto Pinho da Silva, fevereiro de 2026

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