Leandro Ruschel
O Brasil entrou numa nova fase
do processo político iniciado em 2019. E essa fase tem uma característica
conhecida em qualquer revolução que se proponha a destruir garantias
institucionais em nome de um bem maior: em determinado momento, o mecanismo
criado para perseguir adversários passa a atingir parte dos próprios aliados.
Durante sete anos, sob o
argumento da defesa da democracia, consolidou-se um regime de exceção. O
chamado inquérito das fake news — aberto de ofício, sem sorteio, com relatoria
definida por canetada — transformou-se num instrumento permanente de repressão
política. A Constituição foi relativizada. A jurisprudência foi moldada
conforme a necessidade do momento. A atividade do Ministério Público foi
esvaziada. E qualquer crítica passou a ser enquadrada como ameaça
institucional.
A imprensa profissional não
apenas silenciou. Aplaudiu.
Aplaudiu o fechamento de
veículos oposicionistas. Aplaudiu a censura de conteúdos. Aplaudiu prisões
preventivas alongadas. Aplaudiu a transformação de decisões excepcionais em
rotina. Tudo isso sob o mantra da proteção democrática.
O que mudou agora não é o
método. O método é o mesmo. O que mudou é o alvo.
Após as revelações envolvendo
contratos milionários ligados ao Banco Master — incluindo o contrato de R$ 129
milhões envolvendo o escritório da esposa do ministro Moraes e os R$ 35 milhões
recebidos por empresa da qual o ministro Toffoli era sócio — o inquérito foi
novamente mobilizado. Desta vez, para investigar supostos vazamentos na Receita
Federal.
Em vez de responder às revelações, investiga-se quem tornou as informações públicas.
Esse comportamento não é
novidade. Um dos primeiros atos de maior vulto do inquérito foi censurar uma
revista que expunha relações incômodas envolvendo ministros. Também foi
encerrada investigação na Receita que apurava movimentações atípicas de
autoridades. O padrão sempre foi o mesmo: diante da exposição, ativa-se o
mecanismo de autoproteção.
A diferença agora é que a
imprensa percebeu que pode estar dentro do perímetro de investigação.
Subitamente, aquilo que era
celebrado como defesa institucional passou a ser descrito como possível
intimidação ao trabalho jornalístico. O discurso mudou porque o risco mudou.
O que esse episódio revela é
algo mais profundo: há fissuras no próprio establishment.
O pacto de proteção mútua que
sustentou o regime de exceção começa a apresentar rachaduras. Colunistas
relatam clima de desconfiança interna. Há suspeitas de dossiês. Há acusações
cruzadas. Há temor de chantagem. Quando um sistema sustentado por repressão
perde coesão interna, ele entra numa fase crítica.
Regimes se mantêm por
legitimidade ou por medo. A legitimidade foi perdida quando a Lava Jato expôs o
mar de lama. A resposta foi ampliar o medo. Agora, se o medo começa a atingir
também aliados, a estabilidade fica comprometida.
É nesse contexto que surgem
vozes defendendo paciência estratégica. Argumentam que basta aguardar a próxima
eleição. Que o processo institucional normal produzirá correção. Essa leitura
ignora o ambiente real.
Com o inquérito aberto, com
precedentes de censura e inelegibilidade recentes, com líderes presos e
centenas de pessoas ainda respondendo sob regime de exceção, não existe
processo eleitoral normal. Uma canetada pode redefinir candidaturas. A
experiência de 2022 não é hipótese; é antecedente.
A única possibilidade concreta
de restauração institucional passa pela perda acelerada de legitimidade do
regime. E legitimidade não se perde apenas por escândalo. Perde-se quando há
pressão social organizada, constrangimento político e exposição sistemática do
que está ocorrendo.
Impeachment, por exemplo, não
é apenas instrumento jurídico. É instrumento político de emparedamento. Mesmo
que não prospere, retira o conforto narrativo de quem governa sob a
justificativa da defesa democrática.
O que está em curso não é
apenas disputa jurídica. É disputa de sobrevivência dentro do próprio
establishment. E quando um sistema entra nesse tipo de conflito interno, ele se
torna imprevisível.
A revolução que prometeu
salvar a democracia criou um mecanismo permanente de exceção. Agora esse
mecanismo começa a se mover em direções inesperadas.
Essa é a fase mais delicada.
Porque ou haverá recomposição
institucional, ou haverá aprofundamento da repressão.
E o tempo para fingir
normalidade está se esgotando.
Título, Imagem e Texto: Leandro
Ruschel, Newsletter, 18-2-2026

Oi @malugaspar, tudo bem?
ResponderExcluirPrimeiro, meus sinceros PARABÉNS pelo primoroso trabalho.
Apesar dos 129 milhões de motivos, honestamente, não aprecio nenhum profissional que tenha vínculos com o grupo GLOBO (por seu desserviço ao Brasil - Grupo Globo).
Mas o objetivo desta publicação é humanitário, e profissional.
Você está se arriscando muito, fazendo o seu trabalho de total interesse público, e que é louvável.
O problema é que está expondo interesses criminosos de togados supremos, desprovidos de pudor e vergonha na cara. SÃO CRIMINOSOS da pior espécie (pois utilizam o status de "agentes públicos" com o poder da caneta suprema maldita).
Apenas, cuide de sua segurança.
Ainda, e por fim, prepare-se que o Xandão irá atrás de você com vigança estampada nos olhos demoníacos... infelizmente.
Torço, de coração, que resista... e não seja presa ou use tornozeleira.
Boa sorte, e... cuide-se!