domingo, 8 de fevereiro de 2026

[As danações de Carina] A tarde eterna dos que se esqueceram que precisavam partir

Carina Bratt

A PRAÇA, como sempre, estava cheia de sombras alongadas, distendidas, como se o sol tivesse preguiça de se despedir e ir embora. Ali, sentados nos bancos gastos, estavam os que já tinham passado da hora de dizer adeus e morrer. Não eram essas criaturas, fantasmas, tampouco moradores de rua, ou malandros. Apenas homens e mulheres que, por algum capricho do destino ficaram vagando pela Terra além do prazo que a vida costumava impor.

Foto daqui

Conversavam em murmúrio, sem alterar a voz como quem não quer chamar a atenção. Um falava das guerras que já não existia, outro lembrava de amores que se dissolveram como fumaça num ontem tão distante que nem o passado saberia dizer detalhadamente onde havia ficado. Havia a dona Luzia, uma senhora que bordava flores em panos de cores invisíveis, e um velhote, ou melhor, o seu Bozó, que ria sozinho, gargalhava como se tivesse guardado, para si mesmo, uma piada ‘dos-tempos-do-ronca’, uma bobagem sem graça que ninguém mais entenderia.

Todos, sem tirar nem pôr, carregavam em seus costados, o peso árduo e desventurado de uma eternidade improvisada. O curioso é que não havia tristeza. Em oposto, reinava nos corações dessas criaturas, uma calma esquisita e misteriosa, uma tranquilidade para lá de anormal, um sossego maleável com rosto fechado num misterioso indecifrável de como se o mundo tivesse se esquecido deles e, por isso, todos viviam sem atropelos, sem correrias e o melhor de tudo, sem pressa da chegada de um novo porvir com cara de amanhã.

O relógio da estação de trem marcava as horas, mas para todos que cruzavam as linhas férreas o tempo já não tinha serventia. Estavam todos os ali residentes além da contagem dos anos dados pelo Criador, a bem da verdade, gozando de uma dilatação distendida para um divorciado da pressa de dar de cara com a taciturnidade fria da morte. E no passar quase parando daquela tarde tranquila que parecia suspensa no ar, os que passaram da hora de partir desta para melhor, descobriram que a vida, quando se estende além do previsto, deixa de ser obrigação e vira apenas mera contemplação.

Eles não esperavam, pois, por nada, bem ainda, não temiam coisa alguma. Apenas existiam, vegetavam, seguiam como árvores centenárias que ninguém mais reparava, como um carro velho e desengonçado que nem o mais louco do pedaço ligaria para ter sobre seus cuidados. Entretanto, por algum motivo inexplicável os idosos continuavam firmes, respirando silenciosamente os benfazejos do mundo.

A tarde caía lenta, se expandia como se o céu tivesse esquecido de chegar no interruptor e apagar a luz. O vento comboiava um silêncio gordo, pesado, e nele repousavam os que já haviam passado da hora de baixar à sepultura. Não eram lembrados, não eram esperados. Apenas permaneciam, existiam ao acaso como páginas que o livro da vida, por descuido, esqueceu de virar. Sentados em bancos sujos e cheios de cocôs de pombos, todos espiavam o horizonte com olhos carcomidos.

Cada um carregava histórias que já não cabiam em livros, no mundo, pior ainda: batalhas vencidas, promessas quebradas, amores que se dissolveram em seus pés. O tempo, para eles, se consubstanciava apenas em um fio esticado, de um canto a outro da rua larga e que por mera casualidade se mantinha firme e forte, sem balançar. Havia uma melancolia suave, quase doce. Não a dor, jamais, contudo, uma espécie marota de resignação.

Como se, ao ultrapassar o limite da morte, algo inexplicável tivesse descoberto que a vida não é feita somente de urgências, mas de esperas. E nessa ‘lenga-lenga” da espera longa’, a própria morte sem pressa de se pôr a caminho, aguardava paciente no vácuo do tudo e do nada, e embutido nesse nada, incrivelmente em tudo que ela tocava, havia uma paz duradouramente bela e aconchegante e o melhor de tudo: enfeitiçadamente imutável.

Título e Texto: Carina Bratt, de São Paulo, Capital, 8-2-2026

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