Carina Bratt
A PRAÇA, como sempre, estava cheia de sombras alongadas, distendidas, como se o sol tivesse preguiça de se despedir e ir embora. Ali, sentados nos bancos gastos, estavam os que já tinham passado da hora de dizer adeus e morrer. Não eram essas criaturas, fantasmas, tampouco moradores de rua, ou malandros. Apenas homens e mulheres que, por algum capricho do destino ficaram vagando pela Terra além do prazo que a vida costumava impor.
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| Foto daqui |
Conversavam em murmúrio, sem alterar a voz
como quem não quer chamar a atenção. Um falava das guerras que já não existia,
outro lembrava de amores que se dissolveram como fumaça num ontem tão distante
que nem o passado saberia dizer detalhadamente onde havia ficado. Havia a dona
Luzia, uma senhora que bordava flores em panos de cores invisíveis, e um
velhote, ou melhor, o seu Bozó, que ria sozinho, gargalhava como se tivesse
guardado, para si mesmo, uma piada ‘dos-tempos-do-ronca’, uma bobagem sem graça
que ninguém mais entenderia.
Todos, sem tirar nem pôr, carregavam em seus
costados, o peso árduo e desventurado de uma eternidade improvisada. O curioso
é que não havia tristeza. Em oposto, reinava nos corações dessas criaturas, uma
calma esquisita e misteriosa, uma tranquilidade para lá de anormal, um sossego
maleável com rosto fechado num misterioso indecifrável de como se o mundo
tivesse se esquecido deles e, por isso, todos viviam sem atropelos, sem
correrias e o melhor de tudo, sem pressa da chegada de um novo porvir com cara de
amanhã.
O relógio da estação de trem marcava as horas, mas para todos que cruzavam as linhas férreas o tempo já não tinha serventia. Estavam todos os ali residentes além da contagem dos anos dados pelo Criador, a bem da verdade, gozando de uma dilatação distendida para um divorciado da pressa de dar de cara com a taciturnidade fria da morte. E no passar quase parando daquela tarde tranquila que parecia suspensa no ar, os que passaram da hora de partir desta para melhor, descobriram que a vida, quando se estende além do previsto, deixa de ser obrigação e vira apenas mera contemplação.
Eles não esperavam, pois, por nada, bem
ainda, não temiam coisa alguma. Apenas existiam, vegetavam, seguiam como
árvores centenárias que ninguém mais reparava, como um carro velho e
desengonçado que nem o mais louco do pedaço ligaria para ter sobre seus cuidados.
Entretanto, por algum motivo inexplicável os idosos continuavam firmes,
respirando silenciosamente os benfazejos do mundo.
A tarde caía lenta, se expandia como se o céu
tivesse esquecido de chegar no interruptor e apagar a luz. O vento comboiava um
silêncio gordo, pesado, e nele repousavam os que já haviam passado da hora de
baixar à sepultura. Não eram lembrados, não eram esperados. Apenas permaneciam,
existiam ao acaso como páginas que o livro da vida, por descuido, esqueceu de
virar. Sentados em bancos sujos e cheios de cocôs de pombos, todos espiavam o
horizonte com olhos carcomidos.
Cada um carregava histórias que já não cabiam
em livros, no mundo, pior ainda: batalhas vencidas, promessas quebradas, amores
que se dissolveram em seus pés. O tempo, para eles, se consubstanciava apenas
em um fio esticado, de um canto a outro da rua larga e que por mera casualidade
se mantinha firme e forte, sem balançar. Havia uma melancolia suave, quase
doce. Não a dor, jamais, contudo, uma espécie marota de resignação.
Como se, ao ultrapassar o limite da morte,
algo inexplicável tivesse descoberto que a vida não é feita somente de
urgências, mas de esperas. E nessa ‘lenga-lenga” da espera longa’, a própria
morte sem pressa de se pôr a caminho, aguardava paciente no vácuo do tudo e do
nada, e embutido nesse nada, incrivelmente em tudo que ela tocava, havia uma
paz duradouramente bela e aconchegante e o melhor de tudo: enfeitiçadamente
imutável.
Título e Texto: Carina Bratt, de São Paulo,
Capital, 8-2-2026
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