Marcelo Duarte Lins
Há quem leia o futuro nas cartas, quem
consulte os astros e quem prefira uma bola de cristal.
Há também aqueles que, por
conveniência, preferem embaralhar o passado.
São as cartomantes com Alzheimer.
Não aquele que a medicina procura
combater, mas uma modalidade muito particular de amnésia política: a memória
funciona perfeitamente para recordar os pecados dos adversários, mas sofre
apagões inexplicáveis quando precisa reconhecer os dos aliados.
Na aviação, mudar de rota é
perfeitamente aceitável. Às vezes, até necessário.
O que não se pode é alterar o plano de
voo depois do acidente e jurar que aquela sempre foi a rota prevista.
Com a VARIG, entretanto, parece que
alguns resolveram reescrever o relatório final.
Houve um tempo em que antigos colegas
denunciavam, indignados, os responsáveis políticos pelo desaparecimento da
nossa companhia.
Escreviam cartas emocionadas. Falavam
de sonhos destruídos, noites sem dormir, casas que não puderam comprar,
famílias desestruturadas e da angústia de não saber como pagar as contas do mês
seguinte.
Eram testemunhos dolorosos.
Verdadeiros documentos de uma tragédia humana.
O tempo passou.
A VARIG não voltou. O AERUS não recuperou os anos perdidos. Os direitos trabalhistas continuam percorrendo os intermináveis corredores da Justiça.




















