Aparecido Raimundo de Souza
Seria essa coisa chata uma
espécie de válvula de escape de uma ferida enraizada e não totalmente curada? O
ódio, na sua base, não é raiva, nem é dor. Quem odeia muito alguém, carrega no
seu DNA um ferimento antigo. Uma espécie de fardo ou peso morto, um pacote
melindrado e enganoso que nunca foi tratado como deveria ter sido E por ele ser
um “pacote trambolhado”, uma carga sem vida, incomoda, aborrece, desagrada e
enraivece. Importuna, enfada, e se engrandece.
Faço referência a uma traição,
um abandono, uma humilhação, um sofrimento que ninguém reconheceu. Em vez de
chorar ou perdoar, a pessoa se brinda e carreia isso tudo para dentro de seu
“eu” interior, e a partir daí a coisa toda se complica e se agarra e se muda de
mala e cuia para dentro do coração. O ódio se multiplica como erva daninha,
como políticos safados e ladrões, enganadores do povinho furreca. Essa bosta se
adultera, se abalança e se deprava. Em paralelo, se constrange, se desfigura e
se conturba... pior, ainda, se encoleriza e modifica literalmente o âmago do
ser vivente porque odiar dói menos do que admitir que foi um dia ferido, seja
no ontem, seja no hoje, no agora e, sobretudo, no amanhã.
Iria mais longe e acrescentaria que o ódio é uma forma mórbida de defesa imbecilizada em grau máximo. O cérebro faz isso sem que a pessoa que odeia perceba: "se eu odiar muito, não me deixarei machucar de novo". Ledo engano! O ódio, a meu ver, acaba virando um escudo, notadamente se a pessoa se deixar ser levada a bel prazer de outros aparentados, ou a se convencer de que o “odiado” é totalmente mau, ruim, perverso, asqueroso, filho da puta, um borra-botas que ninguém precisa sentir pena, nem carece de um pingo de compaixão, pior ainda, não necessita sequer ser lembrado.




















