Aparecido Raimundo de Souza
A GENTE costuma pensar que o drama é
uma coisa de palco grande, de cortinas de veludo, de vozes estridentes que
enchem a sala e de gritos que ecoam nos corredores. A gente espera que tudo
venha anunciado, com luzes que de repente surgem do nada, de músicas que
encantam, de atores e atrizes que choram e riem, riem e choram, enfim, tudo
assim, num espetáculo escrito com letras de forma: “agora vem a parte triste”.
Nesse ponto, todo mundo se engana.
Redondamente. O drama de verdade não avisa. Não tem intervalo. Não tem segundo
ato. Não tem ensaio. É um ato só, um ato curto e grosso, mudo e calado, e
acontece onde menos se espera: num ponto de ônibus, numa fila de banco, na
feira livre, na mesa de uma padaria às seis e quinze da tarde, quando o dia já
está cansando de ser dia, e a chuva doída para dar o fora, começa a cair fina,
grudenta e persistente.
Foi ali nesse momento que eu vi a
situação dele.
Era um homem de estatura mediana, uns
sessenta e poucos anos, os cabelos brancos e ralos caídos na testa enrugada.
Usava um casaco de lã que foi bastante útil em outros tempos, mas hoje trazia
as bainhas desfiadas e uma mancha antiga de algum remédio no cotovelo esquerdo.
Entrou devagar, quase parando, como quem tem medo de atrapalhar o ar, e foi
direto ao balcão mais afastado.
Quando a garçonete de olhos verdes se
aproximou com um sorriso fagueiro e mavioso, pediu pão simples, manteiga e
queijo em fatias, três unidades e um café com leite duplo e logo corrigiu,
baixo, quase sem som: “faz a bebida meio a meio. Nem muito preto, nem muito
branco, por favor”. Enquanto esperava para ser servido, se ateve a olhar
rapidamente para todas as direções e antes de garota dar meia volta, completou:
“O estômago já não é mais o mesmo. Obrigado”.
A beldade sorriu de modo faceiro e
cortês dando por concluído que havia entendido de primeira, ou melhor, (como
quem já ouvira aquele pedido umas mil vezes de outros clientes que chagaram
vinte ou trinta minutos atrás), e foram embora agraciados antes dele colocar os
pés ali. Enquanto esperava, o cidadão apoiou as duas mãos no mármore. Mãos
grandes, marcadas, as veias saltadas, unhas curtas e limpas, de quem trabalhou
a vida inteira com o que a força e o tempo lhe permitiram.