Carina Bratt
NO TEATRO DA VIDA, há sempre uma cortina.
Essa cortina não sei por qual motivo é pesada, vermelha, aliás, um vermelho
tétrico às vezes parece empoeirada, outras vezes se coaduna reluzente. Ela
separa o que se mostra do que se esconde, o espetáculo da preparação, o riso da
lágrima.
Naquela noite de estreia, a pequena
cidade interiorana parecia suspensa em expectativa. O público aguardava,
inquieto, o início da peça. As luzes se apagaram, e o silêncio se fez tão
profundo, tão intenso, que até o respirar dos presentes parecia um ato ousado.
A cortina, imóvel, guardava segredos.
Mas eis que, por descuido ou destino,
ela, do nada, se abriu de repente. Se escancarou antes da hora. Não havia
atores prontos, nem falas ensaiadas. Apenas gente comum, em seus gestos banais.
O contrarregra ajeitando o cenário, a atriz principal acertando a calcinha, uma
outra retocando o batom.
O diretor nervoso, com olhar aflito
mordia as unhas. O público, sentado, sala cheia, se fazia quieto, mas num
instante, se moldou atônito. Na verdade, essa galera viu, num piscar de olhos,
o que não deveria ver. E o que exatamente não deveria ser visto? A verdade por
trás da ilusão.
E foi nesse instante de clima denso que
se revelou o maior espetáculo. Porque a vida, ao contrário do teatro, não tem
ensaio. O que se mostra sem máscara é sempre mais intenso. A cortina de fundo,
ao ser revelada, expôs não a fragilidade da arte, mas a sua essência: o humano,
imperfeito, o mundo real, o agora de todos nós.
O aplauso no final, retumbou. Veio
tímido, depois forte, como quem agradece não pela ficção, mas pela coragem de
mostrar o que há por trás dela. Desde então, euzinha, aprendi a desconfiar das
cortinas. Aliás, confesso, tenho um medo meio mórbido. Motivos não me faltam.
Elas escondem, mas também protegem. E quando se abrem sem aviso, revelam que o
espetáculo mais bonito é aquele que efetivamente não estava no ‘script’, se
esvaiu dentro de um previsto meio que impreciso.