Aparecido Raimundo de Souza
“Eu nem sonhava te amar desse jeito, hoje nasceu novo Sol no meu peito, quero acordar te sentindo ao meu lado, viver o Êxtase de ser amado”.
“Êxtase”, de Guilherme Arantes
NÃO É BARULHO. Tampouco algo assim
que se possa classificar como tumulto, desordem, alvoroço ou zoeira
descomedida. Também, do mesmo modo, não é um evento, tipo uma solenidade
comemorativa ou uma concentração semelhada a uma festa repletada de blandícias.
A maioria das pessoas, carregam na mente, ou melhor dito, pensam e imaginam que
o êxtase é um grito eufórico, uma explosão excitada, um momento de exultação
que dura pouco e depois aflora e se esvai como uma folha seca em meio a um
vendaval. Nada disso!
O verdadeiro êxtase, aquele
considerado jubiloso, ou revestido de jovialidades e alacridades nada mais é
que silêncio. Isso mesmo. Silêncio. É aquele instante mágico em que o tempo
entra num desvio da caminhada e estanca, para, fica quieto, se condescende,
como se o mundo inteiro à nossa volta, tivesse segurado a respiração só para o
nosso “eu” interior se ligasse e percebesse que está vivo. Algumas vezes,
confesso, já senti na pele esse estado contemporizado, harmonizadamente
adjudicado a um relaxamento agradável de regozijos sem explicações.
E esse instante pode acontecer assim
do nada, ou diante de um pôr do sol que pinta o céu de cores inexplicáveis que
a gente nem sabia que existiam. Pode
ser, e de fato é, também no encontro de um olhar meigo e cativo que, sem dizer
nada, fala tudo e o mais espantoso, se mostra, se amolda sem precisar de uma
única palavra. Pode ser, mesmo norte, o som de uma risada obsequiosa que acalma
o âmago como uma canção antiga, daquelas dos tempos da nossa infância, O êxtase
não corre, não sai desembestado, não exige nem clama por pressa. Ele chega de
mansinho, sem fazer barulho, sem fazer alarde, tipo assim, como quem não quer
nada, e de repente a gente percebe quando ele em voz quase inaudível sussurra:
“aqui estou, aqui sou, aqui respiro, aqui vim para fazer morada e ficar”.
Em paralelo, o êxtase se molda
naquela sensação indescritível de que, por um momento curto e eterno, a nossa
alma, a nossa vida, o nosso interior pertence ao universo inteiro. Descobrimos,
espantados e atônitos, que não há passado pesando nos ombros, nem futuro
causando ansiedades ou descambando para dissabores. Nessa hora, o nosso
recôndito percebe, toma consciência de que só existe o agora, o já inteiro e
perfeito, como uma pétala que fugiu de algum jardim de dentro de nossa vida
atribulada e pousou suavemente sobre as águas tranquilas de um rio saboreado da
mais pura e plena felicidade.