Aparecido Raimundo de Souza
— Esse maldito é um ladrão —
sussurravam os mais antigos, com os olhos cheios de tristeza.
Outros, mais abrasados pelo ódio,
acrescentavam numa espécie de coro esfacelado sem se fazerem presentes as
entonações e os clamores das vozes ativas:
— É um pilantra, que aproveita da fé
de quem não tem outra saída. Mais atrás, ocupando os bancos derradeiros, as
senhoras abraçadas aos seus maridos, filhos e netos, emendavam, as vozes
embargadas para não serem reconhecidas. Sabiam, de antemão, se fossem descobertas,
os castigos lancinantes chegariam sem os contornos da piedade:
— E sempre sobra para nós, que
pagamos o pato, completavam aturdidos, outros irmãos como se as paredes
pudessem ouvir ou pior, denunciá-los.
Diziam que ele, o larápio, sabia de antemão como chegar ao coração dos mais simples e fracos, para depois lhes esvaziarem as prateleiras dos alimentos mais essenciais. E não eram apenas palavras jogadas ao vento. O homem já havia estado atrás das grades, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, não uma, mas duas outras vezes. Alardeavam que em outras congregações, o amaldiçoado afanou as poupanças de famílias que economizaram a vida inteira, extorquindo os que viviam com tão pouco, enquanto a sua presença satânica enchia a própria vida de excessos. Viajando pelo mundo afora com uma mulher de reputação duvidosa, uma prostituta de gestos refinados, ninguém ousava desmascarar a tal rameira e trazer à tona as suas estrepolias, por puro horror e pânico ensombrados numa estupefação sem precedentes.





















