Rafael Nogueira
O Rio de Janeiro é Capital Mundial do Livro em
2025, título concedido pela UNESCO, o primeiro a uma cidade de língua
portuguesa. Tive a honra de inscrever a candidatura quando presidi a Biblioteca
Nacional, e o reconhecimento é merecido: o Rio abriga a Academia Brasileira de
Letras, a Biblioteca Nacional, o Real Gabinete Português de Leitura e a Bienal
do Livro. Tem universidades de peso, livrarias tradicionais, editoras
históricas e uma tradição verbal que ainda se percebe nas conversas de botequim
e nas crônicas de jornal.
Nenhuma cidade brasileira produziu tantos
escritores de primeira linha. Foi no Rio que floresceram Machado de Assis, Lima
Barreto, Olavo Bilac, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Drummond, Vinícius,
Nelson Rodrigues, Clarice Lispector. A própria Biblioteca Nacional foi, durante
gerações, um centro de gravidade intelectual por cujos corredores passaram
Ramiz Galvão, Capistrano de Abreu, Rodolfo Garcia, Josué Montello, Afonso
Arinos. E são só alguns exemplos.
Tudo isso, porém, pertence a uma fatia da cidade.
A vanguarda literária carioca sempre foi coisa de certa elite letrada. A
maioria fica de fora, como mostram os números.
A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2024)
revelou que apenas 47% dos brasileiros leram ao menos parte de um livro nos
três meses anteriores à entrevista. É a primeira vez, desde 2007, que os não
leitores superam os leitores. Em nove anos, o país perdeu mais de 11 milhões de
leitores. Se considerarmos apenas livros inteiros lidos, o número cai para 27%.
Até entre os bons leitores a média caiu de 5,04 para 4,36 livros.
Aposto que tem menos livro dentro de casa. Se tem,
é decorativo.
Um estudo conduzido por Evans, Kelley, Sikora e
Treiman em 2010, com mais de 70 mil participantes de 27 países, estimou que
crianças criadas entre livros acumulam cerca de três anos a mais de
escolaridade do que crianças de lares sem livros, mesmo com controle de
educação e classe dos pais. Já Sikora, Evans e Kelley, em 2019, a partir de
dados do programa PIAAC da OCDE em 31 sociedades, mostraram que a biblioteca
doméstica na adolescência se associa, na vida adulta, a melhores habilidades de
leitura, cálculo e resolução de problemas digitais, para além da educação
formal.