Carina Bratt
HÁ CERTOS TIPOS de dores que não se curam,
nem se apaziguam. Apenas se acomodam, ou fingem se ajustar. O trauma, por
exemplo, é uma dessas feridas invisíveis que, ao contrário das cicatrizes na
pele, não se fecha com o tempo. Ele se instala como hóspede indesejado,
rearranja os móveis da memória e insiste em acender a luz quando a casa já
deveria estar no escuro e em paz.
Marlucia aprendeu isso cedo. Não havia
remédio que apagasse o estampido da noite em que perdeu o marido. O cara
simplesmente foi embora e deixou a sua família, ou seja, abandonou a Marlucia,
a Amanda e a Luana. Não havia abraço que desfizesse o nó que se formava em sua
garganta sempre que o silêncio se tornava profundo demais. O trauma não era uma
lembrança, era uma presença: caminhava com ela, sentava ao seu lado, dormia em
sua cama. E falava do vazio...
O mundo, com sua pressa, dizia que era
preciso seguir em frente. Mas como seguir quando o chão se parte em cada passo?
Marlucia descobriu que o incurável não é sinônimo de fim, mas de convivência. O
trauma não desaparece; a gente aprende a viver com ele, como quem carrega uma
sombra que nunca se desprende.
Paradoxalmente, foi nessa convivência que ela
encontrou uma forma de resistência. O trauma a lembrava da fragilidade da vida,
mas também da força que brota quando se insiste em continuar. Não havia cura,
mas havia caminho. Não havia esquecimento, mas havia sobrevivência.
Assim, Marlucia passou a escrever cartas de
amor que nunca enviava. Em cada palavra, depositava o peso daquilo que não
podia ser dito em voz alta. Era à sua maneira de transformar o incurável em
linguagem, de dar forma ao silêncio que tomava conta do seu ‘eu interior’.
O trauma, afinal, não se cura. Mas pode ser
narrado. E, ao ser narrado, deixa de ser apenas dor: se torna memória, se torna
história, se torna parte de quem insiste em existir apesar dele. Há dores que
não cicatrizam. São como rios subterrâneos: invisíveis à superfície, mas sempre
correndo, erodindo. O trauma incurável é esse rio que insiste em atravessar a
alma, mesmo quando a vida parece seguir em frente.