Carina Bratt
SEU ANSELMO do apartamento 701, do meu
prédio, lá na Borges de Medeiros, foi preso num domingo. Calma. Eu explico. Foi
preso não por roubar, não por matar, ou por cometer qualquer tipo de crime
hediondo. Nada disso. Seu Anselmo foi preso pelo silêncio. O bom velhinho dos
cabelos brancos e ralinhos tinha 86 anos, morava sozinho desde que dona Flora,
sua esposa, veio a óbito.
Dia seguinte ao sepultamento dela, ao se
despedir dos filhos, noras e netos, e dos vizinhos condôminos, se trancou no
apartamento por dentro. Não saiu mais. As janelas da sala, dos quartos e até a
da porta que acessava a varanda, se fizeram fechadas. Imaginem, (no sétimo
andar a carecer de se aferrolhar feito um bicho raivoso!). Até o radinho que ganhara de dona Flora se
quedou desligado.
Os vizinhos estranharam. Bateram na
porta, tocaram a campainha. Seu Edu, o porteiro e seu Carvalho, o vigia da
noite, ligaram da portaria, acionaram o celular, nada. Chamaram a polícia.
Quando arrombaram a porta, acharam Seu Anselmo sentado na cadeira de balanço,
na sala, lúcido, e o mais engraçado, tomando uma taça de vinho. Perguntas
surgiram de todos os lados:
— Por que o senhor não atendeu, Seu
Anselmo? — Indagou dona Lurdes do 201.
— Ficamos preocupados, — soou forte a voz
de dona Bete do 902.
A todos que fizeram indagações, ele
respondeu com um sorriso radiante:
— Não atendi ninguém, porque eu me
prendi...
E diante do espanto dos inquilinos e
locatários, acrescentou:
— Cumpri 50 anos de casamento. Agora
estou fazendo o mesmo com o luto...
O policial que estava à frente e ajudara
na hora do arrombamento coçou a cabeça:
— Senhoras, senhores, não tem artigo em
nenhum código para se agir, ou se punir alguém sobre esse fato que estamos
presenciando. Eu e meus policiais estamos nos retirando...
Apesar dos prós e contras, toda a
comunidade do prédio decidiu que Seu Anselmo estava preso mesmo. Encarcerado
naquele apartamento enorme, naquela cadeira de balanço tomando a sua taça de
vinho, cercado por uma ausência branda, suave, envolvente e acolhedora.
Silvinha, a filha do síndico, (menina na época em que o casal e seus filhos
vieram de mudança para o edifício), lembrou que muito tempo atrás, mas muito
mesmo, passeava na calçada com seu cachorrinho e cumprimentava seu Anselmo.