Aparecido Raimundo de Souza
MUITAS E MUITAS VEZES, a gente para no
meio do caminho, olha a casa que antes estava sempre cheia de vozes, de passos,
de portas batendo, de risos que vinham não só da cozinha, mas também da
varanda, dos quartos e, de repente, de um canto que ninguém lembrava mais que
ele existia. Num piscar de olhos, tudo calou. E então, pintou no pedaço, aquele
pensamento esdrúxulo, que bateu forte como uma chuva de granizo no telhado: foi
a morte. A morte é o fim. É o ponto final sem retorno. É o nada absoluto. Tudo
o que existiu, o que se falou, o que se construiu com o suor e com o coração, o
amor que foi regado dia após dia, de repente sumiu, se esvaiu igual fumaça que
o vento levou e não deixou o menor rastro para se tentar localizar o paradeiro.
Permaneceu no ambiente só a cadeira de
balanço encostada na parede que ninguém mais sentou, o relógio cuco no corredor
que parou na hora exata da partida, o armário do quarto que ainda guardava as
mesmas roupas, o peso do silêncio que demorou e não quis ir embora e o nome que
já não se ouvia em voz alta na porta principal da frente da casa, porque quem
chamava, ou quem respondia, já não se fazia mais presente. E o peito sentido
apertava, a garganta fechava, e a gente dizia com toda a dor do mundo: acabou.
Passou. Esse não volta nunca mais. Eu também já pensei assim, confesso. Muitas
e muitas vezes. É o que os olhos veem, é o que a razão grita bem forte dentro
da cabeça, é o que a lógica fria tenta explicar: o corpo parou, a vida acabou,
ponto final, fim da história.
Mas o coração, nossa, o coração, esse
eterno teimoso, esse que não aprendeu a obedecer às regras impostas, esse que
sabe de coisas que a inteligência humana ainda não conseguiu decifrar
sussurrava devagar, murmurava baixinho, quase sem voz, bem lá no, onde ninguém
mais ouvia: “não é bem assim, não é o fim|. É só uma mudança estratégica de
lugar”. Pode parecer triste, à primeira vista,
pode doer muito ouvir que a morte não é
o fim, porque isso, de certa forma, lembra de imediato, num sem pestanejar, o
quanto já perdemos, o quanto já choramos, o quanto a saudade apertou forte o
nosso vazio até faltar o socorro essencial, qual seja o ar que nos mantém
vivos.
Dói admitir sim, confesso, mas é
exatamente nela, nessa passagem que tanto tememos, que tanto evitamos falar,
que está guardada a nossa maior, a mais doce, a mais verdadeira e a mais segura
esperança. A morte nunca foi o lugar onde se perde quem se ama. Nunca será.
Pelo contrário, a morte é o lugar reservado, calmo, tranquilo, sereno e
luminoso, onde, um dia, (sempre há um dia) encontraremos todos os nossos
antepassados de novo, ou da mesma forma teremos os benfazejos de abraça-los
inteiros, saudosos, como nunca mais havíamos feito. Dito de outra forma:
vistos. Aqueles que um dia fizeram o nosso dia a dia valer a pena, que
estiveram presentes em cada pedacinho pequeno ou grande da nossa história. E
quem seriam essas criaturas?