Aparecido Raimundo de Souza
EU NÃO ESTAVA no encalço dela.
Nem pensando em procurá-la. O destino, que às vezes gosta de pregar peças que
doem e machucam, foi quem nos colocou frente a frente, ali, no meio do
aeroporto. Eu chegava para embarcar destinado ao Rio de Janeiro, ela estava sentada
numa cafeteria, com o uniforme impecável, aquela farda que ela tanto sonhou
usar. Quando escrevi uma crônica sobre isso, lhe dando os parabéns, ela não
gostou do texto publicado e me bloqueou.
Por conta disso, dois anos sem
me ver. Sem trocarmos uma palavra. A minha menina mudou de vida, de cidade, foi
morar em São Paulo. E ali, assim do nada, ela estava ali, alguns passos de mim,
ao lado do namorado, também piloto, os dois falando baixo, como se o mundo
deles fosse só deles. E, na verdade, era.
Eu, assustado, pego assim de
súbito, me escondi. Fui tomado por uma vergonha que me paralisou os passos. A
presença dela, ao mesmo tempo em que me gelou o sangue, me entristeceu a alma,
ao passo em que uma onda inexplicável de saudade adormecida e incondicional
aumentou de tamanho. Sem ação, fiquei
ali estático, preso ao chão, observando de longe, e de repente o aeroporto
inteiro (com todas as pessoas que transitavam de um lado para outro), sumiu.
Por conta disso, o barulho das
falas se calaram e eu voltei um bocado de anos no meu tempo, como se alguém
tivesse puxado um fio invisível e me transportado de volta. E nesse regresso,
me deparei com a minha menininha e seus cinco anos, sentada num sofazinho azul
que comprei só para ela. Amanda tão pequena, tão frágil, e já nessa idade com
um olhar que ia longe, muito além do que eu conseguia entender.
Lembrei do dia em que fui
embora. Veio à mente o dia que deixei ela e a mãe e parti com outra mulher. Fui
covarde, fui egoísta, fui tudo de ruim que um pai não deveria ser. Fiquei
longe, muito tempo, perdido em caminhos que não eram os meus. E quando voltei,
não sei quanto tempo depois, esperava encontrar raiva, silêncio, talvez um
portão fechado. Mas ela não me esqueceu. Me aceitou.