Aparecido Raimundo de Souza
DENTRO DO ÔNIBUS, naquele vaivém de
gente subindo e descendo, atrelado ao barulho ensurdecedor, havia dois bancos
que seguiam lado a lado. Um à direita, outro à esquerda. Sempre ali, calmos,
firmes, cumprindo seus ofícios de receberem quem cansava os esqueletos e os
pés. Até que numa das muitas paradas, subiu aquela preciosidade de tirar o
fôlego.
A beldade se aprochegou
vagarosamente despreocupada, acondicionada num vestidinho curto de verão, um
tecido de natureza leve que dançava ao ritmo de seus passos. A jovem não fazia
mal nenhum, não buscava provocar, apenas vinha, como qualquer outra pessoa,
indo para onde precisava. Assim que ela pisou os primeiros passos após a
roleta, o silêncio do ônibus se mexeu. E dois bancos começaram a sussurrar
entre si.
— Ela senta aqui! — insistiu o da
direita, todo prosa. Olha como ela é
delicada. Merece um cantinho bom, perto aqui da janela, pra sentir o vento...
nas partes salientes... e na hora de descer...
— Não, seu desmilinguido. Aqui é
melhor! — rebateu o da esquerda, meio ruidoso.
Do meu lado, ela ficará mais perto da terceira porta e obviamente mais
fácil pra se locomover quando precisar deixar o recinto. Ela deve estar
cansada. Olhe para o rostinho dela.
E foi assim, baixinho, mas teimoso,
que a briga entre esses dois “sentadores de um coletivo” começou. Um dizendo
que o seu assento era mais confortável, o outro observando que o seu se fazia
mais seguro. Um elogiando a luz do sol que batia ali, o outro garantindo que ao
seu lado, havia mais espaço. Enquanto isso, a jovem passageira parada, com a
mão na bolsa, tentava guardar a carteira com o passe, ao tempo em que se
segurava, como podia, ao arrepio em que a condução seguia a sua rota fazendo
curvas e freando abruptamente diante de um trânsito caótico. Olhando de um lado para outro, se segurando
espavorida, se fazia a preciosa desatenta, sem saber onde se acomodar,
mantendo, todavia, um sorriso tímido nos lábios bem torneados.
A verdade é que nenhum dos dois
admitia: não era apenas sobre oferecer um lugar seguro. A coisa se fundava na
admiração tola e genuína de quem se enamora e fica de queixo caído com a beleza
indescritível de uma mulher de porte elegante, não sabendo muito bem
(exatamente por serem míseros bancos),
como lidar com toda aquela venustidade primorosa. Queriam ambos, ser úteis,
almejavam ser, obviamente, os escolhidos, mas no exagero da disputa que se
fazia acirrada, quase esqueciam de ser um bocadinho ajuizado e acolhedores.