Carina Bratt
Minhas condolências e a minha saudade à dona
Vanda Caldeira Saiter, do 302, que ontem, sábado, veio a óbito.
NA VARANDA do meu apê, na Borges de Medeiros, de frente para a Lagoa Rodrigo de Freitas e o Cristo Redentor, eu e mais três vizinhas aqui do prédio, enquanto tomamos café espiamos, quietas a tarde bonita e calma se achegando vagarosa. Mandei a Lidiane, minha secretária do lar servir refrigerante com bolo de chocolate. Nos fazendo companhia, um vento ameno passa e o silêncio que se instala como nosso convidado penetra solenemente.
Não precisamos de palavras para nos
entendermos. O olhar de uma carrega o momento mágico que a outra já conhece. O
gesto de ajeitar o lenço no cabelo é resposta suficiente para a pergunta que
nunca foi feita. O silêncio entre eu e elas não é um silêncio vazio: é um
silêncio terno, tecido de cumplicidade, de histórias que não precisam ser
narradas porque já vivemos, já passamos por elas de alguma forma, juntas.
Dona Odete do 701 suspira, e o suspiro é pura
lembrança. A Vanda do 302 sorri, e o sorriso dela é consolo. A Elisabeth do 202
fecha os olhos, e o fechar dos seus olhos é pura oração silenciosa. Conversamos
sem falar, e nesse diálogo invisível construímos uma fortaleza intransponível
contra o mundo que tantas vezes atravessamos, ora com pedaços bons, ora com
momentos de recordações que não desgrudam de nosso corpo, nem de nossa alma.
O silêncio delas não é submissão, é resistência. O meu não é tristeza, é saudade. Saudade do meu papito que partiu para o andara de cima e eu não pude dizer a ele tudo o que queria ter dito. Cada uma de nós tem a sua linguagem secreta. É a linguagem bem guardadinha de quem aprendeu a se comunicar nas entrelinhas, de quem sabe que nem sempre o que importa cabe em palavras ou frases.






















