Henrique Pereira dos Santos
Um dos meus amigos fica muito incomodado por
eu escrever o que me apetece a propósito de coisas sobre as quais ele tem uma
opinião diferente.
É normal, a mim também me
irritam os advogados de elites que dão entrevistas em horário nobre das
televisões a propósito de anúncios de processo crime ao comandante nacional da
polícia por abuso de poder, fugindo de esclarecer em que medida vê uma intenção,
reforço, uma intenção, do comandante da polícia beneficiar ilegitimamente das
ordens dadas para reposição da legalidade em espaço público, ou prejudicar
terceiros, que é a substância do abuso de poder.
Mas isso não me faz considerar
que isso são meras estratégias comerciais de um advogado que vive de defender
gente que usou o poder em seu benefício, eu limito-me a discordar da ideia de
que há qualquer indício de intenção, reforço, intenção, do comandante nacional
da polícia beneficiar das suas decisões, ou prejudicar terceiros.
Mas à actual esquerda, em
manifesto momento (estas coisas são de ir e vir, como os pêndulos) de perda de
influência social, não chega discutir as ideias pelo seu valor facial, precisa
mesmo de destruir a base moral de quem discorda dos delírios que a esquerda
insiste em defender, contra o senso comum (a esquerda, como qualquer pessoa ou
organização, poderia estar carregada de bom senso e, mesmo assim, perder
influência social por não se aproximar do senso comum).
Vai daí, ofensivamente,
embora, tenho a certeza, sem a consciência da gravidade da acusação (por isso
continuo bastante próximo desse meu amigo em muitas outras coisas), o meu amigo
acusa-me: "É o terreno escorregadio que o Henrique escolhe diariamente para
justificar as suas ideias aqui, na Palestina e nos outros sítios onde os mais
fortes armados abusam dos mais fracos".
Eu não me ofendo, limito-me a
lamentar a falta de consequência prática da leitura de Descartes “O bom senso é
a coisa que, no mundo, está mais bem distribuída: de facto, cada um pensa estar
tão bem provido dele, que até mesmo aqueles que são os mais difíceis de
contentar em todas as outras coisas não têm de forma nenhuma o costume de
desejarem mais do que o que têm. E nisto, não é verosímil que todos se enganem;
mas antes, isso testemunha que o poder de bem julgar, e de distinguir o
verdadeiro do falso que é aquilo a que se chama o bom senso ou a razão, é
naturalmente igual em todos os homens; da mesma forma que a diversidade das
nossas opiniões não provém do facto de uns serem mais razoáveis do que outros,
mas unicamente do facto de nós conduzirmos os nossos pensamentos por vias
diversas, e de não considerarmos as mesmas coisas”.