Aparecido Raimundo de
Souza
ESTAR SOZINHO,
aconchegado por uma ausência robusta, é mais que uma simples presença. É fato
concreto. Alguém com certeza ao ler meu texto, perguntará: como? Será que esse
cara acha que o silêncio fala mais vigoroso, e o tempo escorre sem pressa e o
espaço onde a nossa alma fica guardada sai de seu lugar e vem nos escutar sem
interrupções? Na verdade, não sei. Há quem tema a solidão como se ela fosse um
vazio sem fundo. Não é. A solidão é uma espécie de abrigo, um lugar secreto
onde nos reencontramos depois de tanto nos perder nos ruídos subversivos do
mundo.
Sozinho, aqui, com
essa solidão, o olhar muda. As cores ganham outros tons, os pensamentos se
alongam como sombras ao entardecer. É quando o coração dá um tempo, respira
fundo e deixa de competir com o relógio da vida e começa a bater no ritmo da
sua própria vontade. Estar sozinho é também resistência. É uma fobia
desajuizada como se plantar na frente de uma metralhadora prestes a disparar
sem depender da presença alheia para existir. É aprender que companhia não é
cura, e que o amor-próprio não é egoísmo, é vida em abundância e sobrevivência
quase eternal.
Há dias, confesso, em
que o estar só é um degredo árido e fendido e por ser assim, isolado e
mortificado, flagelado e supliciado, e o pior de tudo: pesado. E como peso,
apesar de morto, “pesa, comprime, esmaga”. A admoestação se senta ao meu lado,
sem pedir licença, e teima em me fazer lembrar do que falta, do que foi e do
que nunca veio. Nesses momentos enfadados, o estar sozinho é um desafio enorme,
tipo um convite à coragem de continuar mesmo sem aplausos. No entanto, é na
solidão (essa em que estou exatamente preso nesse momento) que nascem as
ideias, que brotam os versos e que se revelam verdades.
É nela, na apertura da
abertura da alma enfraquecida, que o meu ser, todo ele se desnuda, e o meu lado
humano se reconhece. Estar sozinho não é se flagrar perdido, como se “meu eu”
vagasse no meio de um deserto. É, às vezes, estar finalmente em casa. Como
agora. Dias atrás, cheguei da rua por volta das dezenove. Tirei os sapatos que
me comprimiam os pés (tenho um par de joanetes de fazer inveja aos tênis) e me
despi, ficando totalmente pelado. Sentei no sofá da sala, de frente para a
televisão desligada. Minha casa, como sempre, inteira só para mim. Sem
empregada, sem cachorro, sem gato, sem notificações no celular, sem vozes
cruzando os cômodos.