Aparecido Raimundo de Souza
NA CELA ALFA 1025 do Corredor “B”, do pavilhão 4, eram ao todo, em número
de sete. O preso Renato do Rego Melindrado, conhecido como 675, ou como lhe
alcunharam os demais moradores do barraco, de “Tatu”, esperava que o preso
Ariclério Bebezão da Costa, no dizer dos detentos e detidos, um infeliz
“marinheiro de primeira viagem” registrado como o 1877 se curvasse aos
instintos bestiais do Renato. Na verdade, ele, Renato, queria que o novato
fosse a sua mulher. Literalmente. E, como tal, cuidasse dele, das suas roupas,
lavasse as suas cuecas, fizesse a sua comida, providenciasse os seus banhos e
lhe higienizasse, sem melindres asseando as partes íntimas, como se ambos
vivessem uma vida normal, tipo marido e mulher.
Renato do Rego Melindrado, ou o asqueroso 675, até agora, só conseguiu, a
muito custo, colocar no 1877 ou para ficar bem explicado, o Ariclério Bezerrão
da Silva, uma calcinha cor de rosa minúscula, com um coraçãozinho na parte de
trás e, por cima dela, uma sainha bastante curta e esvoaçante, que ao abaixar
deixava a mostra toda a retaguarda ainda virginal do infeliz enterrada em seu
rego de aspecto esfomeadamente magro. Essa façanha teve efeito com a ajuda dos
detentos 455, 903, 524 e 719, respectivamentes o Perrota, o Minguadinho, o
Chico Beiçudo e o Tiguel. O preso Ariclério, infelizmente era marinheiro de
primeira viagem, ou seja, grosso modo, um novato e infeliz ainda completamente
virgem no sentido látego da sofrida e penosa vida carcerária. Dos seis, havia
um sétimo ocupante, o esquisito e temido 666’, ou o Negro Caladão. Esse
personagem, um sujeito com cara de poucos amigos, quase batia a cabeça no teto.
Alto, magro e careca, numa briga que tivera com outro detento da ala M. acabou
deixando o cara com um olho furado. No mais, se fazia no único inquilino que
ninguém se metia com ele, nem mesmo o salafrário do 675.
Os crimes desse agregado temeroso os piores de todos. Homicida, matava
para ver o tombo. Mandava quem quer que o seu santo não agradasse da fuça, logo
se punha a caminho de ver Deus ou o diabo mais cedo. A figura matava por puro
gosto e prazer. Sem falar que da sua ficha voavam relatos escabrosos, do tipo,
“matava por diversão” ateando fogo em pessoas vivas, em crianças e
adolescentes, sem mencionar os inúmeros estupros com menores de idade. Antes de
ser preso pela última vez, decapitou a própria esposa, as duas filhas, e, de
lambuja, tirou a vida dos próprios pais. Suas condenações passavam de duzentos
anos. No dia a dia da cela, esse cara se
prostrava num canto e não se socializava. Lado outro, por medo de ser morto à
noite, na hora em que todos estavam tentando conciliar o sono, o 1877 fazia de
tudo o que o 675 ordenava, sem fugir à risca, exceto (pelo menos, até agora, o
se entregar de corpo e alma como a garota-mulher, ou a diva bonita, gostosa
carinhosa e leal, se prestando a receber, sem pestanejar os afagos brutais e
asselvajados do crápula, perverso e desalmado, Renato do Rego Melindrado. Como
se dizia vulgarmente, do alto da sua triste situação, o 1877 estava intimidado
e acovardado. Cagava um quilo certo, ao tempo em que vislumbrava seu futuro como
uma névoa funestamente ilacrimável, em face da situação deteriorante que o
envolvia a cada novo começo e final de dia.