Aparecido Raimundo de
Souza
“ESTAR SÓ” é diferente
de “estar sozinho”. Será? E qual a diferença entre um e outro? O “estar só”
pode ser povoado de lembranças, de vozes que ecoam dentro da memória, de
fantasmas os mais diversificados que atormentam com seus traços remotos e
obsoletos e que por sua vez nos acompanham sem pedir licença. O “estar só”
pinta do nada, escorrega pelo corpo como uma dor de barriga fortemente armada
trazendo presságios maléficos como se ressuscitasse fatos passados, lembranças
de feições iracundas e sem mais nem menos, nos deixa no meio do mato sem o
sorriso cativo do cachorro de todas os latidos.
Nessa hora, o “estar
só” é como caminhar por um espaço sem paredes, sem chão, sem teto. É como ser
transportado para um lugar de mata carbonizada pelo desconhecido. Um lugar
hediondo, onde o tempo não passa, apenas se arrasta. Nesse ponto sem volta, o
coração aflito mendiga por uma gota de felicidade. E ela, a felicidade, não
aparece, não marca presença, se distancia sem coragem de mostrar o rosto. O
silêncio, nesse lugar é o pesadelo maior. Se torna obsoleto, retrógrado e sem
limites. Entra numa espécie de dança esquizofrênica que além de machucar
profundamente, também maltrata, fere o âmago, pega pesado e desequilibra a
alma.
Além de pegar pesado,
se faz denso e odioso, se agiganta não só de uma ausência infame como se
reveste de uma balburdia ensurdecedora e constante que nos lembra a falta de um
abraço amigo ou de qualquer resquício benfazejo que nos acolha e nos de o abrigo
procurado. “Estar só” revive o vazio imensurável. O medo planta flores
carregadas de maus presságios onde até os pensamentos parecem perder o peso do
brilho, a candura do viço, a sensatez de uma palavra de consolo. No “estar
sozinho” não há certezas, não há direção, não há porto seguro. Apenas um mar
revolto se apresenta insólito.
O “estar só” vem com
sensações iracundas que se projetam em sustos assombrosos e do nada,
transformam tudo ao redor numa via de mão incerta, de suspensão sem
escapatória, como se o mundo tivesse, desse “nada” e num piscar de olhos, se
esquecido de dizer que apesar dos pesares, apesar dos desconfortos, tudo, no
final ficará bem e em paz. Em via igual, no “estar sozinho” encontramos algo
raro: como assim, algo raro? Uma anormalidade brutal, com a possibilidade de
nos perdermos da verdadeira paz interior. Ela vem sem distrações, se apresenta
sem máscaras, e sem pressa de ir embora.