Carina Bratt
A ‘Ferida invisível’, não vai embora, ela sempre se disfarça alegremente numa dor de barriga infernal que não deixa a gente ficar com os fundilhos das calças cheirando a bumbum de criança que a mãe acabou de trocar a fralda’.
Thompson de Panasco, pensador de rua.
ELA NÃO APARECE nos olhos de quem só olha
por fora. Não tem sangue escorrendo, não tem curativo, não tem cor que denuncie
onde dói. A gente pode passar por uma pessoa na rua, cumprimentá-la, vê-la
sorrir, contar uma piada, e até soltar uma gargalhada, porém, jamais imaginar
que ali, por dentro daquela criatura, algo dói calado, persistente, dia após
dia. É a ‘ferida invisível’. Aquela que não se mostra, mas de igual modo, não
se apaga. Pior, se APEGA.
Dói quando o sol nasce logo cedinho e
traz a lembrança de quem partiu. Dói no silêncio da casa, no vazio de um lugar
que ficou sem dono. Dói, igualmente, quando a vida parece seguir adiante para
todos, menos para nós, que ainda estamos parados no mesmo instante, revivendo o
mesmo momento, respirando o mesmo pesar. O pior não é a dor em si: é ter que
escondê-la. Coloca-la num cantinho dentro de nós. É sorrir quando o peito pesa
como se fosse uma tonelada.
É dizer ‘estou bem’ quando o que mais a
gente quer é sentar num canto e chorar, se fazer em lágrimas até a alma
descansar. As pessoas que conheço falam: ‘já passou’, ‘tem que seguir em
frente’, ‘o tempo cura tudo’. E nessa hora a gente acena, concorda, mas sabe
que aqui no fundo da alma, que o danado do tempo não apaga. Ele apenas ensina a
carregar a dor, a transporta-la com mais soberba e discrição. A ferida aberta,
embora invisível, não cicatriza de vez.
Ela aprende a doer mais baixinho, a se
esconder atrás da geladeira, da máquina de lavar roupas, se acasala debaixo do
chuveiro e da mesma forma nas tarefas dos dias corridos, como também das noites
em claro.