Aparecido Raimundo de Souza
DECIDIDAMENTE, cheguei à cruel e insólita conclusão que eles não têm
rosto, não têm voz. Não têm forma humana definidamente conhecida. Apesar disso,
estão sempre aqui, colado ao meu lado, caminhando comigo, ombro a ombro, como
pulgas num cachorro adoentado, como um câncer raro estropiando um corpo
saudável, ou dito de forma mais clara, tipo uma sombra espúria e negra, que o
sol, por mais bonito que seja, nunca consegue afastar por completo. Chegam,
esses “Medos malévolos”, como sempre, de mansinho, sem dar sinais de presença.
Não batem na porta, não tocam a campainha, e sem que eu queira, se instalam no
meu peito na raça, se desfraldam como hóspedes indesejados que nunca pensam em
ir embora.
Há em mim um outro “Medo”, ou melhor, um “Medo paralelo” com o semblante
ameno, sociável, cortês, hospitaleiro, e lhano, me mostrando que eu não fui
suficiente. Ou dito de outra forma, de não ter sido capaz o bastante. Mas me
acolhe. Me abraça, me aquece. Não é o mesmo “Medo” de ter chegado até aqui e,
no fim, me descobrir incapaz ou inapto ou pior, o de me pegar
“abestalhadamente” beócio e atônito, pelo fato de que durante toda a minha vida
errônea não fiz o bastante, não amei o suficiente, ou que não vivi em nenhum
momento vendo a vida por uma visão mais amena e cálida. Apesar disso, esse
“Medo bom”, me bota pra cima, me enaltece e me acalma. Me tranquiliza.
Esse meu “Medo bom” e acessível, aparece quando o silêncio se alonga,
quando olho para trás e vejo caminhos diferenciados que não tomei, palavras
adocicadas que não disse, abraços que não troquei com as pessoas que faziam
parte ativa do meu “eu” diário. Nessas
horas amargas e difíceis, esses “Outros Medos” os fétidos e devassos, caem
matando, enquanto o meu “Medo bom” e sublime me chama a atenção o tempo
todo:
— Aparecido, tenha calma. Acredite, olhe para cima. Pense em Deus. Sua
paz chegará o mais rápido que possa imaginar...
Os outros “Medos”, os desafortunados da sorte aproveitam esse meu estado
de fraqueza com incidência emocional para aquele buraco maior e mais complexo
notadamente o de perder realmente quem verdadeiramente dentro do meu coração eu
amo. De um dia à frente, acordar e perceber que alguém partiu, que a presença
dos que faziam parte do meu cotidiano virou lembrança, que o som da voz dessas
criaturas se calou para sempre. Esse é o mais silencioso e o mais doloroso dos
meus “outros medos”. Eles se escondem atrás de cada despedida, se engrandecem
em cada noite que cai, criam uma espécie de vida paralela a cada vez que o
telefone demora a tocar.