Leah Levy Cohen Ligia
Ontem escrevi sobre Lula. Hoje é a vez de Macron. Mudam o sotaque, a gravata, o idioma e
a pose diante do púlpito, mas Israel permanece no mesmo lugar: o banco dos réus
da Assembleia Geral da ONU. É impressionante perceber que o mundo está pegando
fogo em vários cantos, mas, quando os líderes internacionais chegam a Nova
York, parece existir apenas um incêndio digno de discursos inflamados, gestos
indignados e lágrimas protocolares: Israel e Gaza.
A guerra entre Rússia e
Ucrânia continua, e não estamos falando de uma crise distante, mas de uma
guerra no quintal da Europa, com drones, mísseis, cidades atacadas e ameaças
cada vez mais próximas das fronteiras. A situação não está apenas preocupante, está
fedendo, e Macron sabe disso, tanto que há poucos dias alertou para o aumento
dos ataques híbridos russos contra a Europa e a própria França.
Mesmo assim, na ONU, Israel
continua despertando uma indignação que nenhum outro conflito parece provocar.
Macron falou em justiça, soberania, direito internacional e no retorno da “lei
da selva”, criticou Israel e afirmou que a situação em Gaza deveria envergonhar
o mundo. Até aí, nenhuma novidade, porque culpar Israel na ONU já faz parte do
protocolo, quase como testar o microfone antes do discurso. O problema foi
quando, embalado pela própria eloquência, declarou que o Hamas nunca havia
operado na Cisjordânia.
Talvez Macron conheça uma versão alternativa do Hamas, uma espécie de filial organizada que respeita fronteiras administrativas e atua exclusivamente dentro dos limites de Gaza. Porque o Hamas real, aquele que recruta, financia e planeja atentados também na Judeia e Samaria, aparentemente não foi apresentado ao presidente francês. Nada como falar com absoluta convicção sobre uma realidade que não se conhece, pois essa segurança dos desinformados é sempre impressionante.





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