O livro reúne 31 textos curtos e
bem-humorados que retratam personagens excêntricos, diálogos cotidianos e
críticas sociais. O estilo vem em narrativas coloquiais, cheias de ironia e
pitadas de pura sátira, que lembram igualmente o estilo de Ari Toledo e Leon
Eliachar, todavia, lembrando sempre, com a marca pessoal e indescritível de
Aparecido Raimundo de Souza.
Um dos textos, ‘Né’ mostra duas amigas
conversando na mansão de uma milionária chamada Elena de Castro y Castro
Aparecido, enquanto tomam chá servido por uma empregada meticulosa. A cena
mistura humor, exagero e crítica às diferenças sociais.
Em contrário, ‘Fora dos Trilhos’, a
crônica que abre o livro, é narrada a história de um casal de namorados que
ficam frustrados, após a perda do trem, em face de um descuido ridiculamente
banal.
As demais crônicas, como ‘Invasão de
privacidade,’ seguida de ‘Empacotados’, ‘Foi suicídio’ e ‘Morcego cego’, entre
outras, somam um total de 31, divididas em 159 páginas de pura emoção e
fantasia. Vale a pena, caro leitor, ler todas essas comédias de ponta a ponta.
👍👍👍👍👍
Carina Bratt
Aparecido Raimundo de Souza traça com
precisão inquestionável os contornos e se alinha àquele personagem pragmático
do “Analista de Bagé”, quando se projeta e se lagartea não em seu divã, mas no
momento exato em que se acomoda em sua cadeira de trabalho e diante de seu
notebook se deixa ser levado pelo leque grandioso das artimanhas e das escritas
graciosas que cria em sua imaginação para lá de alucinada.
Nessas ocasiões, faz misérias, ou
seja, se transforma num exímio abichornado e, como tal, se molda na pele de um
atirador maluco com pitadas freudianas dos tempos modernos. De posse de uma
linguagem mais afiada que dentada de traíra, o escritor capixaba em seu livro
“Comédias da vida na privada” vira um bagual, um lambeesporas e se torna mais
frenético e obsessivo, chegando a dar a impressão de estar a meia guampa.
Em tons bem dosados, bombardeia
humoristicamente com palavras marcantes e irreverentes misturando, a um só
tempo, a sua ortodoxia com exímias pinceladas de gracejos e pilhérias acima de
quaisquer suspeitas. A sua literatura cotidiana ao mostrar o simples e
corriqueiro, o non-sense e o inadequado, prende a atenção das pessoas não só
pelos textos bem construídos como, igualmente, pelos nomes dados aos seus
personagens.
É o caso do piá Arteroscleroso que
dorme nas aulas da professora de Português, como do Zé Loroteiro, do Belmiro
Funga-Funga e do Audeusgeusto Fumouso, este último, um cidadão enrolado de
língua e na maneira de pronunciar certas palavras, o que deixa um advogado
criminalista mais furioso e possesso metido à semelhança de piolhos afogados em
costura.
No geral, Aparecido Raimundo de Souza
trouxe ao seu público um livro simples, com cenas velhas e carcomidas, como
rascunhos de bíblia. Entretanto, pautado
pela graça sedutora e pela galhardia irreverente, não se deixa prender somente
aos moldados pela ironia cultural existente, como também, e sobretudo, se
entrelaça pelas caricaturas tri-legais de personagens carregados de habitudes e
situações burlescas e jocosas, temperadas, ao sabor gostoso e assemelhado
advindos de sua mais profunda, inesgotável e criativa força imaginativa.
Luiz Fernando Veríssimo (escritor)
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