Uma opinião — com frontalidade, sem eufemismos e sem mastigar as palavras
Francisco Henriques Silva
A Comissão Europeia divulgou
as suas prioridades para 2026, e a conclusão é quase inevitável: Bruxelas
parece ter perdido completamente o contacto com a realidade concreta que os
europeus enfrentam.
O continente encontra-se no
epicentro de uma tempestade perfeita:
• uma guerra ativa nas suas
fronteiras,
• economias a desacelerar,
• uma indústria a perder terreno para concorrentes globais,
• custos energéticos sufocantes,
• sistemas sociais sob pressão,
• e sociedades politicamente fracturadas.
Perante este cenário, seria
razoável esperar uma estratégia robusta, pragmática e orientada para resultados
— reforço militar, reindustrialização urgente, segurança energética, e
políticas que defendessem a prosperidade e autonomia europeias.
Mas não, nada disso. Com
efeito, a resposta institucional toma a forma de um conjunto de intenções vagas
e declarações de princípio, mais parecidas com um ensaio ideológico de um
qualquer gabinete universitário do que com um plano de ação de uma entidade que
pretende ser um “quase governo” continental.
Enquanto o mundo se torna mais
duro, competitivo e perigoso, Bruxelas insiste num registo conceptual e
doutrinário que ignora a crise real que se avizinha. No fundo, é Bizâncio já
com os turcos a escalarem as muralhas, a discutir o sexo dos anjos, perdão, o
género, como agora se diz, do homo sapiens
É uma dissonância preocupante: a Europa precisa de soluções concretas; recebe slogans. Precisa de política; recebe retórica. Punto e basta!
Se existisse coerência estratégica, este seria o momento de falar de defesa, energia nuclear, produtividade, inovação, fronteiras e segurança económica — não apenas de ambições, promessas e projetos abstratos.
Quando o mundo arde,
Bruxelas dança
Enquanto os EUA e a China
reforçam a capacidade militar, protegem empresas estratégicas e asseguram
energia barata, a UE delicia-se com discursos grandiosos sobre “transições”,
“identidades” e “valores”.
Os europeus enfrentam salários
estagnados, habitação impossível, inflação recorde e insegurança — mas as
instituições preferem discutir pronome neutro e descarbonização acelerada.
É o equivalente político a rearrumar almofadas no convés do Titanic.
O Green Deal como religião
de Estado
O Pacto Ecológico deixou de
ser política pública para se tornar doutrina obrigatória. Mesmo quando os
resultados são óbvios — fuga de investimento, indústrias a fechar, agricultores
em revolta — a Comissão reage como um fanático: a solução para o desastre é
mais do mesmo, mas mais depressa e com mais rigor.
Dois factos bastam:
1. a Europa já é a região mais
regulada e taxada do planeta, e
2. as emissões globais não caem, porque os países que contam ignoram
solenemente a obsessão europeia.
A UE atira pedras ao próprio telhado e diz que é para salvar o planeta.
Democracia ou domesticação?
Outro campo onde a Comissão se
excede é o controlo da informação. Sob pretexto de “proteger a democracia”,
avança um aparato regulatório cada vez mais agressivo sobre os media, as redes
sociais e as plataformas digitais.
Bruxelas quer proteger os
europeus — de si próprios.
O pensamento divergente não é
debatido: é policiado.
A linha que separa combater a mentira e censurar opiniões é hoje tão fina que já nem existe.
A engenharia social como
prioridade absoluta
Direitos fundamentais não
estão em causa. O que está efetivamente em causa é a tentativa de reconfigurar
culturalmente a Europa por decreto administrativo, ignorando os parlamentos
nacionais, os debates públicos e os referendos.
Uma agenda identitária agressiva é apresentada como inevitável. Quem discorda não é interlocutor — é retrógrado, populista ou extremista. Quando o consenso não existe, impõe-se. Este parece ser o novo lema.
A contradição reveladora
É extraordinário ler
documentos da Comissão que admitem preto no branco a gravidade geopolítica do
momento — e depois ver o que realmente propõem. Defesa? Segurança? Energia
acessível? Raramente passam de notas de rodapé.
É como um médico que, nas urgências do hospital, é confrontado com um sinistrado em estado grave, aponta para a maca diz: “Sim, a situação é bastante complicada— mas o que precisamos mesmo é de reorganizar as macas que não estão em condições.”
A Europa oficial vive num
universo paralelo
Enquanto os cidadãos se afogam
em contas, insegurança e incerteza, Bruxelas proclama triunfo moral e avanço
civilizacional. É difícil escapar à conclusão de que a classe política europeia
desistiu de governar e se dedica agora a educar, doutrinar e corrigir os seus
eleitores.
Não são as pessoas que escolhem prioridades democráticas — é a Comissão que lhes explica o que deveriam querer. É como se Bruxelas existisse num universo paralelo, estilo Feiticeiro de Oz.
O perigo óbvio
Uma União Europeia que
despreza as necessidades concretas das pessoas e insiste em empurrar agendas
culturais abstratas caminha, inevitavelmente, para o desastre: perderá o apoio
popular de que depende toda a sua autoridade.
E quando esse momento chegar —
quando as urnas derem o seu veredito ou quando as ruas se fizerem ouvir —
Bruxelas fingirá espanto e apontará o dedo aos suspeitos do costume:
“populistas”, “fake news”, “extrema-direita”. O refrão é sempre o mesmo,
repetido até ao enjoo, como uma banda sonora barata que ecoa eternamente num
centro comercial. Já o ouvimos mais vezes do que conseguimos contar.
A realidade, porém, será
brutal na sua simplicidade: os cidadãos fartaram-se de ser governados por quem
se comporta como se orbitasse Marte.
A Europa, em franco declínio e
a marchar de olhos fechados para a irrelevância histórica, enfrenta uma crise
existencial — e mesmo assim prefere desviar o olhar.
Título e Texto: Francisco Henriques da Silva é licenciado em História, diplomata e autor. Foi Director-geral de Assuntos Multilaterais no MNE e embaixador na Guiné-Bissau, Costa do Marfim, Índia, México e Hungria; ContraCultura, 22-1-2026
— Elon Musk (@elonmusk) January 22, 2026

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