domingo, 18 de janeiro de 2026

Quando o Xá do Irã veio ao Rio: a visita lembrada em meio à revolta popular contra a República Islâmica

Em 1965, o último governante legítimo do Irã esteve no Rio de Janeiro, foi recebido pelas mais altas autoridades brasileiras, encontrou a família imperial e deixou marcas na cidade; hoje, com iranianos nas ruas pedindo o fim do regime islâmico e gritando “Javid Shah”, o episódio ganha novo significado histórico

Bruna Castro

Enquanto o mundo acompanha a mais profunda convulsão política do Irã desde o golpe que derrubou a o monarca persa em 1979, com multidões enfrentando a repressão da República Islâmica e clamando abertamente pela restauração da monarquia, um nome que alguns acreditavam sepultado pela história volta a ecoar nas ruas do país persa: o do xá, o rei do Irã. Entre os gritos de protesto, “Javid Shah” — viva o xá — tornou-se palavra de ordem de um movimento que rejeita a teocracia instaurada há mais de quatro décadas e que gerou muito retrocesso no Oriente Médio. É nesse cenário que um episódio quase esquecido da memória carioca reaparece com força simbólica: a visita oficial do xá do Irã ao Rio de Janeiro.

Em 1965, Mohammad Reza Pahlavi esteve no Brasil em uma viagem de Estado marcada por forte conteúdo político, econômico e simbólico. O objetivo era claro: estreitar relações diplomáticas e comerciais com o nosso país, especialmente no setor industrial, em um momento em que o Irã buscava se afirmar como potência moderna, culta e aliada do Ocidente. Embora Brasília já fosse a capital formal, o Rio de Janeiro seguia como centro diplomático, social e cultural incontornável — e, por isso, integrou a agenda oficial da visita.

O xá não veio sozinho. Ao seu lado estava a imperatriz Farah Pahlavi, figura central no projeto de modernização cultural do Irã naquele período. O casal imperial foi recebido pelas mais altas autoridades brasileiras e participou de compromissos que reforçavam a imagem de um Irã em transformação, voltado à indústria, à educação e à cooperação internacional. Farah montou uma das maiores coleções institucionais de arte do mundo, criando o maior Museu de Arte do Oriente Médio, infelizmente desfalcado e apagado pelo regime que se seguiu.

No Rio, a passagem do xá deixou marcas concretas. O presidente-general Castello Branco recebeu aqui o monarca que reinou por quase 40 anos. Durante sua estadia na cidade, foi fundada uma escola em Vila Isabel, originalmente batizada de Colégio Estadual Irã, hoje conhecida como Escola Municipal Francisco Manuel. Um detalhe pouco lembrado, mas revelador do peso simbólico da visita: não se tratava apenas de diplomacia de gabinete, mas de um gesto pensado para permanecer no cotidiano urbano carioca.

A visita também teve um capítulo de alto significado histórico ao reunir o casal imperial iraniano com representantes da família imperial brasileira. O xá encontrou-se com os príncipes brasileiros Dom Pedro Gastão de Orléans e Bragança e Dom João Maria de Orléans e Bragança, em um encontro discreto, mas carregado de simbolismo, que aproximou duas tradições monárquicas em pleno século XX, numa cidade que sempre foi palco de encontros improváveis da história mundial. 

À época, a visita de 1965 foi celebrada como um marco político e social. Ela intensificou a presença diplomática do Irã no Brasil e ampliou os acordos de cooperação entre os dois países, consolidando o Rio como cenário privilegiado da diplomacia internacional, mesmo após a perda do título de capital federal. O glamour, o peso simbólico e a centralidade carioca ainda falavam alto.

A chegada do casal imperial ao Rio foi marcada por um aparato de segurança pouco comum para os padrões da época. O xá e a imperatriz Farah Diba desembarcaram no Aeroporto Militar do Galeão às 15h30, protegidos por um dispositivo de segurança em formato de pirâmide, com cerca de cem policiais posicionados em anéis sucessivos ao redor da comitiva, além de agentes distribuídos em pontos estratégicos formando ângulos de vigilância. Do Galeão, seguiram diretamente para o Copacabana Palace, onde uma suíte presidencial foi especialmente preparada e decorada para hospedá-los. A programação incluía ainda, naquela mesma noite, um banquete oficial nos jardins do Palácio Guanabara, sede do governo do então Estado da Guanabara. Parte do armamento utilizado na operação foi cedida pelo Exército, com coordenação da Polícia Federal ao longo de todo o deslocamento do casal pelo país, indicando o grau de importância atribuído à visita.

Hoje, seis décadas depois, o retorno do nome do xá ao noticiário internacional lança nova luz sobre aquela visita. O homem que caminhou pelo Rio como chefe de Estado de um Irã em modernização é o mesmo cuja memória, representada agora por seu filho, reaparece agora como símbolo de oposição a um regime teocrático atrasado e belicoso contestado por milhões de seus próprios cidadãos. E o Rio, mais uma vez, surge como testemunha silenciosa de um capítulo decisivo da história global.

O DIÁRIO fala do mundo quando o mundo passa pela cidade. E, neste caso, passou — com pompa, bandeiras, encontros imperiais e até uma escola batizada em solo carioca. Em meio às transformações dramáticas que hoje sacodem o Irã, revisitar essa visita é lembrar que o Rio sempre esteve conectado às grandes viradas da história, mesmo quando elas pareciam distantes demais para importar.

Título e Texto: Bruna Castro, Diário do Rio, 18-1-2026

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