Em 1965, o último governante legítimo do Irã esteve no Rio de Janeiro, foi recebido pelas mais altas autoridades brasileiras, encontrou a família imperial e deixou marcas na cidade; hoje, com iranianos nas ruas pedindo o fim do regime islâmico e gritando “Javid Shah”, o episódio ganha novo significado histórico
Bruna Castro
Enquanto o mundo acompanha a
mais profunda convulsão política do Irã desde o golpe que derrubou a o monarca
persa em 1979, com multidões enfrentando a repressão da República Islâmica e
clamando abertamente pela restauração da monarquia, um nome que alguns
acreditavam sepultado pela história volta a ecoar nas ruas do país persa: o do
xá, o rei do Irã. Entre os gritos de protesto, “Javid Shah” — viva o xá —
tornou-se palavra de ordem de um movimento que rejeita a teocracia instaurada
há mais de quatro décadas e que gerou muito retrocesso no Oriente Médio. É
nesse cenário que um episódio quase esquecido da memória carioca reaparece com
força simbólica: a visita oficial do xá do Irã ao Rio de Janeiro.
Em 1965, Mohammad Reza Pahlavi esteve no Brasil em uma viagem de Estado marcada por forte conteúdo político, econômico e simbólico. O objetivo era claro: estreitar relações diplomáticas e comerciais com o nosso país, especialmente no setor industrial, em um momento em que o Irã buscava se afirmar como potência moderna, culta e aliada do Ocidente. Embora Brasília já fosse a capital formal, o Rio de Janeiro seguia como centro diplomático, social e cultural incontornável — e, por isso, integrou a agenda oficial da visita.
O xá não veio sozinho. Ao seu lado estava a imperatriz Farah Pahlavi, figura central no projeto de modernização cultural do Irã naquele período. O casal imperial foi recebido pelas mais altas autoridades brasileiras e participou de compromissos que reforçavam a imagem de um Irã em transformação, voltado à indústria, à educação e à cooperação internacional. Farah montou uma das maiores coleções institucionais de arte do mundo, criando o maior Museu de Arte do Oriente Médio, infelizmente desfalcado e apagado pelo regime que se seguiu.
No Rio, a passagem do xá
deixou marcas concretas. O presidente-general Castello Branco recebeu aqui o
monarca que reinou por quase 40 anos. Durante sua estadia na cidade, foi
fundada uma escola em Vila Isabel, originalmente batizada de Colégio Estadual Irã,
hoje conhecida como Escola Municipal Francisco Manuel. Um detalhe pouco
lembrado, mas revelador do peso simbólico da visita: não se tratava apenas de
diplomacia de gabinete, mas de um gesto pensado para permanecer no cotidiano
urbano carioca.
A visita também teve um capítulo de alto significado histórico ao reunir o casal imperial iraniano com representantes da família imperial brasileira. O xá encontrou-se com os príncipes brasileiros Dom Pedro Gastão de Orléans e Bragança e Dom João Maria de Orléans e Bragança, em um encontro discreto, mas carregado de simbolismo, que aproximou duas tradições monárquicas em pleno século XX, numa cidade que sempre foi palco de encontros improváveis da história mundial.
À época, a visita de 1965 foi
celebrada como um marco político e social. Ela intensificou a presença
diplomática do Irã no Brasil e ampliou os acordos de cooperação entre os dois
países, consolidando o Rio como cenário privilegiado da diplomacia internacional,
mesmo após a perda do título de capital federal. O glamour, o peso simbólico e
a centralidade carioca ainda falavam alto.
A chegada do casal imperial ao
Rio foi marcada por um aparato de segurança pouco comum para os padrões da
época. O xá e a imperatriz Farah Diba desembarcaram no Aeroporto Militar do
Galeão às 15h30, protegidos por um dispositivo de segurança em formato de
pirâmide, com cerca de cem policiais posicionados em anéis sucessivos ao redor
da comitiva, além de agentes distribuídos em pontos estratégicos formando
ângulos de vigilância. Do Galeão, seguiram diretamente para o Copacabana
Palace, onde uma suíte presidencial foi especialmente preparada e decorada para
hospedá-los. A programação incluía ainda, naquela mesma noite, um banquete
oficial nos jardins do Palácio Guanabara, sede do governo do então Estado da
Guanabara. Parte do armamento utilizado na operação foi cedida pelo Exército,
com coordenação da Polícia Federal ao longo de todo o deslocamento do casal
pelo país, indicando o grau de importância atribuído à visita.
Hoje, seis décadas depois, o
retorno do nome do xá ao noticiário internacional lança nova luz sobre aquela
visita. O homem que caminhou pelo Rio como chefe de Estado de um Irã em
modernização é o mesmo cuja memória, representada agora por seu filho, reaparece
agora como símbolo de oposição a um regime teocrático atrasado e belicoso
contestado por milhões de seus próprios cidadãos. E o Rio, mais uma vez, surge
como testemunha silenciosa de um capítulo decisivo da história global.
O DIÁRIO fala do mundo quando
o mundo passa pela cidade. E, neste caso, passou — com pompa, bandeiras,
encontros imperiais e até uma escola batizada em solo carioca. Em meio às
transformações dramáticas que hoje sacodem o Irã, revisitar essa visita é lembrar
que o Rio sempre esteve conectado às grandes viradas da história, mesmo quando
elas pareciam distantes demais para importar.
Título e Texto: Bruna
Castro, Diário do Rio, 18-1-2026
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