Carina Bratt
DAQUI A POUCO, todas as ruas, praças e jardins estarão tímidas, mas já, apesar disso, se percebe um certo burburinho no ar. É como se o vento soprasse mais colorido, trazendo consigo o cheiro de confete e a lembrança de marchinhas antigas. O calendário insiste em dizer que faltam alguns dias, mas o coração do brasileiro parece viver em contagem regressiva desde o último adeus à Quarta-Feira de Cinzas.
Nos bares, o assunto escorrega entre goles de
cerveja:
— E aí, mano, já comprou a fantasia?
— Sim. Sairei fantasiado de Papudinha...
Nas padarias, o pão francês divide espaço com
conversas sobre blocos e desfiles. Até o trânsito parece ensaiar passos de
samba, com buzinas que se confundem com tamborins imaginários.
O Carnaval não chega de repente. Ele se
aproxima devagar, como quem não quer nada, mas vai ocupando os espaços:
primeiro nos ensaios das escolas de samba, depois nos cartazes coloridos
pregados nos postes, e finalmente no brilho nos olhos de quem já pensa na
folia.
E há quem reclame, claro:
— Bagunça demais, dizem uns.
— Trânsito impossível, resmungam outros. Mas
no fundo, até os mais sisudos sabem que o Carnaval é mais que festa: é memória,
é tradição, é ainda, a chance única de ser quem se quiser por quatro dias.
— Vou me vestir de STF.
— Eu de estátua da justiça com batom na
bunda...
Enquanto isso, euzinha sigo observando. A vizinha já pendurou serpentinas na varanda, o rapaz do açougue da esquina ensaia passos desengonçados, e as rádios insistem em tocar marchinhas que parecem nunca envelhecer. O Carnaval se aproxima e, gostando ou não, ele sempre encontra um jeito tresloucado de nos lembrar que a vida também pode ser pura celebração de uma desgraça anunciada.
De repente, o calendário resolveu nos avisar:
“atenção, foliões e reclamões, o Carnaval está chegando”. Como se fosse
possível esquecer. Basta sair na rua e ver o vizinho testando o som do carro
com marchinhas de 1900 e antigamente, ou aquele amigo que jura que “não gosta
de Carnaval”, mas já está pesquisando abadá escondido da mulher no celular da
amante.
Os blocos começam a ensaiar e parece que o
mundo inteiro vira percussionista. Até o cara que nunca conseguiu acompanhar o
ritmo da palma na missa agora se sente mestre de bateria. O barulho invade a
cidade como se fosse uma privada cheia de merda, melhor dito, como uma prévia
de apocalipse tropical: tambores, apitos, gritos e, claro, aquele sujeito que
insiste em treinar o solo de cuíca às três da manhã no corredor do prédio onde
você mora.
E aí vem a parte irônica: todo mundo, sem
tirar nem pôr, fala pelos cotovelos:
— Ah, trânsito insuportável”, “não dá pra
dormir”, “essa bagunça não acaba nunca”.
Porém sempre há um porém, basta tocar os
primeiros acordes de “Mais que calor, o “Ô... ô... ô... ô... ô... ô...” seguido
do Ô abre alas” que até o mais rabugento se pega balançando os chifres, os pés
a bunda magra, discretamente, como quem não quer nada querendo tudo e mais um
pouco.
O comércio, claro, já entendeu o espírito da
coisa: fantasia de unicórnio, purpurina biodegradável, puta de zona, de lula,
de ministro de óculos em formato de abacaxi e até de policial federal. Porque
Carnaval é isso: a chance de se vestir de fruta tropical ou de qualquer outra
bosta e achar que está arrasando. Se eu fosse amante de carnaval, sairia com
uma privada na cabeça.
No fim das contas, o Carnaval é como aquele
parente inconveniente: você reclama que ele vem, mas quando chega, a festa só
acontece porque ele está lá. E assim seguimos, entre a ironia e a alegria,
esperando o grande momento em que o país inteiro esquece e decide que, o
Alexandre de Morais é um rico excêntrico por quatro dias, a vida é só confete,
serpentina e uma desculpa oficial para esquecer os processos e as canetadas.
Na Quarta-Feira de Cinzas, só cinzas. O
brasil se despe e se despede de todas as fantasias. Inclusive da sua
imbecilidade galopante. O pobre volta a ser pobre, o rico fica mais abastado e
abestado e o brasil sem noção, sem futuro, sem rumo, sem prumo, sem talvez,
segue os dias vindouros tomando, como sempre no olho frio do próprio rabo.
Título e Texto: Carina Bratt, de São Paulo,
capital, 25-1-2026
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