André Marsiglia
O Supremo Tribunal Federal
deixou de ser um poder constitucional quando parte dos ministros passou a usar
o cargo para fazer política, da pior espécie, tornando a Corte um trampolim
para projetos pessoais, empresariais e, em alguns casos, até mesmo ilegais.
A velha mídia, se não pariu os
abusos dos ministros, os adotou de bom grado, legitimando todo o processo de
corrosão que passou a existir a partir de 2019, com a instauração do inquérito
4781, ou “das fake news”.
Uma imensa parte da imprensa
tradicional enxergou ali uma conveniência. Sob a narrativa de que as redes
sociais seriam “tóxicas” e ameaçariam a democracia, construiu-se um discurso
moralizante que escondia um interesse mais prosaico: a concorrência.
As redes passaram a disputar
audiência, influência e protagonismo com a imprensa. Permitiram o surgimento de
um jornalismo independente, amador até mesmo. Reduziram o poder dos grandes
veículos. Era natural, portanto, que a mídia tradicional visse com simpatia
qualquer poder estatal capaz de enfraquecer essa novidade.
Sob o pretexto de combater “desinformação”, passou-se a censurar comunicadores, influenciadores e veículos alternativos. Do ponto de vista político, também era conveniente, pois os alvos do inquérito eram evidentes: a direita e o bolsonarismo. Não é segredo que parcela relevante do jornalismo brasileiro é ideologicamente alinhada à esquerda. Mesmo os donos dos veículos tradicionais, que muitas vezes rejeitam a esquerda, rejeitam igualmente a direita e se dizem neutros, tendendo a enxergar o bolsonarismo como uma ameaça às suas pretensões.
Formou-se, assim, um
alinhamento tácito da imprensa com o Supremo. A mídia silenciou diante de
ilegalidades, relativizou garantias constitucionais, justificou abusos dos
ministros e tratou exceções como regra. Acreditou que estava protegida. Apoiou
o arranjo enquanto lhe foi útil.
Se, em 2019, houvesse a mesma
disposição crítica que agora surge no caso do Banco Master, certamente a
escalada autoritária teria sido contida. Talvez ministros não tivessem
aprendido que podem tudo. Mas não houve reação. Houve conivência.
Hoje, a grande imprensa começa
a perceber o monstro que pariu ou que ajudou a criar. Descobre, talvez
tardiamente, que instituições acostumadas a agir sem freios não selecionam
vítimas.
Um sistema treinado para
perseguir jornalistas independentes, cedo ou tarde, avança sobre os grandes
veículos. A censura revela sua natureza estrutural e a velha mídia pode passar
a sofrer o que ignorou por anos. Pressões, investigações informais, constrangimentos,
silenciamentos.
Durante anos, poucas vozes,
dentre as quais a minha, alertaram para o caráter excepcional e perigoso da
conduta dos ministros. Tudo foi ignorado, ridicularizado, tratado como uma
visão radical.
Quando eu defendia a
Constituição, a imprensa chamava minha posição de “bolsonarismo”. Agora,
pagaremos o preço da cegueira. Não foi por falta de aviso.
Título e Texto: André Marsiglia, Poder 360, 29-1-2026, 5h57
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