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| Arte: Paulo Márcio |
Quando um governo se sente
ameaçado, raramente se limita a punir — ele precisa encenar uma peça que conte
a história que lhe parece útil. O que está em jogo é a vida do condenado e,
sobretudo, o controle da narrativa que pode nascer daquela morte.
A história guarda registros brutais dessa obsessão.
Em 1305, William Wallace foi
capturado e levado a Londres para ser julgado por traição. Ele teria
argumentado que não poderia trair Eduardo I porque jamais lhe jurara lealdade.
Veio então a encenação brutal: Wallace foi arrastado pelas ruas, enforcado sem
morrer por completo, para poder ser mutilado, vendo suas vísceras expostas,
para depois ser decapitado e esquartejado. Sua cabeça foi exibida, partes de
seu corpo foram usadas como didática advertência visual. A mensagem era a de
que não há glória nessa vida nem nessa morte, só desonra e degradação.
Séculos depois, no Brasil
colonial de 1720, Filipe dos Santos recebeu tratamento semelhante após liderar
uma revolta em Vila Rica. Diz a lenda que foi determinado que ele morresse de
morte “natural” enquanto era arrastado por quatro cavalos amarrados em seus
membros. Foi depois esquartejado, teve a cabeça pregada no pelourinho e os
pedaços do corpo distribuídos por locais estratégicos, transformadas em exemplo
para quem pensasse em desafiar a ordem.
Em 1757, o padrão se repete.
Robert-François Damiens foi executado em Paris por tentar matar Luís XV. Foi
jogado em brasa, depois veio o esquartejamento. Por motivo semelhante, os
jesuítas foram perseguidos, todo seu trabalho foi paralisado, e por um bom
tempo a Companhia de Jesus foi desmoralizada e proibida.
Foucault descreveu a coisa: o
poder soberano não responde só com castigo, ele reage com pedagogia pública.
Há pelo menos um furo nessa estratégia. O Estado pode controlar corpos, mas nem sempre controla a interpretação. Pode partir um homem em pedaços, mas não administrar o significado daquela morte. E muitas vezes o que deveria ser humilhação vira combustível para outra coisa.
Tiradentes é um exemplo assim.
Executado e esquartejado em 1792, com partes do corpo expostas como ameaça, ele
ressurge depois como herói cívico. Em 1965, uma lei o declara Patrono da Nação.
O mesmo tipo de morte que deveria destruir o mito acaba fornecendo
matéria-prima para sua reconstrução.
Nem preciso lembrar ao leitor
o que houve com Jesus Cristo.
A modernidade supostamente
abandonou essas práticas bárbaras. O cadafalso saiu de cena. Mas a lógica
permaneceu. Em 1967, o corpo de Che Guevara foi exibido à imprensa na Bolívia.
O objetivo era fechar a narrativa: “está morto, acabou”. Mas a fotografia,
todos sabem, alimentou exatamente aquilo que pretendia extinguir.
No Brasil, após Canudos,
Antônio Conselheiro foi exumado e seu crânio enviado para estudos. Lampião e
seu grupo tiveram as cabeças exibidas como troféu. Durante décadas, esses
restos permaneceram em circulação institucional. Em todos os casos, era o Estado
tentando manter o direito de narrar a vitória, sem grande sucesso.
Desmontar um mito pela força é
tentar pilotar um veículo desgovernado. O mito pode dormir por meses, décadas
ou séculos e acordar quando menos se espera, reativado por políticos, por
artistas, por historiadores, alçado ao nível de culto cívico, símbolo de
protesto, motivo de feriado.
A política do “antimito” não
traz paz duradoura. Pode intimidar temporariamente, sem eliminar as causas do
conflito, deixando a percepção de que o Estado cuidou menos de punir um
criminoso, do que de torturar e humilhar um significado, muitas vezes com sangue
inocente.
Hoje, arrastar corpos pelas
ruas não pega bem. Pode-se apagar, isolar, destruir reputações, sem forca nem
guilhotina. O espetáculo é diferente, mas a ideia permanece, bem como seu
problema central: revoltas não nascem necessariamente de heróis vivos. Muitas
vezes, os heróis são consequência tardia, criados pela própria violência que
tentou impedi-los de existir.
Quando o Leviatã se ocupa
demais em destruir mitos, talvez esteja confessando que teme menos a rebelião
em si do que a possibilidade de ela ganhar uma história para contar.
Título e Texto: Rafael Nogueira, O Dia, 14-1-2026

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