quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

O Estado contra o Mito

Arte: Paulo Márcio
Rafael Nogueira

Quando um governo se sente ameaçado, raramente se limita a punir — ele precisa encenar uma peça que conte a história que lhe parece útil. O que está em jogo é a vida do condenado e, sobretudo, o controle da narrativa que pode nascer daquela morte.

A história guarda registros brutais dessa obsessão.

Em 1305, William Wallace foi capturado e levado a Londres para ser julgado por traição. Ele teria argumentado que não poderia trair Eduardo I porque jamais lhe jurara lealdade. Veio então a encenação brutal: Wallace foi arrastado pelas ruas, enforcado sem morrer por completo, para poder ser mutilado, vendo suas vísceras expostas, para depois ser decapitado e esquartejado. Sua cabeça foi exibida, partes de seu corpo foram usadas como didática advertência visual. A mensagem era a de que não há glória nessa vida nem nessa morte, só desonra e degradação.

Séculos depois, no Brasil colonial de 1720, Filipe dos Santos recebeu tratamento semelhante após liderar uma revolta em Vila Rica. Diz a lenda que foi determinado que ele morresse de morte “natural” enquanto era arrastado por quatro cavalos amarrados em seus membros. Foi depois esquartejado, teve a cabeça pregada no pelourinho e os pedaços do corpo distribuídos por locais estratégicos, transformadas em exemplo para quem pensasse em desafiar a ordem.

Em 1757, o padrão se repete. Robert-François Damiens foi executado em Paris por tentar matar Luís XV. Foi jogado em brasa, depois veio o esquartejamento. Por motivo semelhante, os jesuítas foram perseguidos, todo seu trabalho foi paralisado, e por um bom tempo a Companhia de Jesus foi desmoralizada e proibida.

Foucault descreveu a coisa: o poder soberano não responde só com castigo, ele reage com pedagogia pública.

Há pelo menos um furo nessa estratégia. O Estado pode controlar corpos, mas nem sempre controla a interpretação. Pode partir um homem em pedaços, mas não administrar o significado daquela morte. E muitas vezes o que deveria ser humilhação vira combustível para outra coisa.

Tiradentes é um exemplo assim. Executado e esquartejado em 1792, com partes do corpo expostas como ameaça, ele ressurge depois como herói cívico. Em 1965, uma lei o declara Patrono da Nação. O mesmo tipo de morte que deveria destruir o mito acaba fornecendo matéria-prima para sua reconstrução.

Nem preciso lembrar ao leitor o que houve com Jesus Cristo.

A modernidade supostamente abandonou essas práticas bárbaras. O cadafalso saiu de cena. Mas a lógica permaneceu. Em 1967, o corpo de Che Guevara foi exibido à imprensa na Bolívia. O objetivo era fechar a narrativa: “está morto, acabou”. Mas a fotografia, todos sabem, alimentou exatamente aquilo que pretendia extinguir.

No Brasil, após Canudos, Antônio Conselheiro foi exumado e seu crânio enviado para estudos. Lampião e seu grupo tiveram as cabeças exibidas como troféu. Durante décadas, esses restos permaneceram em circulação institucional. Em todos os casos, era o Estado tentando manter o direito de narrar a vitória, sem grande sucesso.

Desmontar um mito pela força é tentar pilotar um veículo desgovernado. O mito pode dormir por meses, décadas ou séculos e acordar quando menos se espera, reativado por políticos, por artistas, por historiadores, alçado ao nível de culto cívico, símbolo de protesto, motivo de feriado.

A política do “antimito” não traz paz duradoura. Pode intimidar temporariamente, sem eliminar as causas do conflito, deixando a percepção de que o Estado cuidou menos de punir um criminoso, do que de torturar e humilhar um significado, muitas vezes com sangue inocente.

Hoje, arrastar corpos pelas ruas não pega bem. Pode-se apagar, isolar, destruir reputações, sem forca nem guilhotina. O espetáculo é diferente, mas a ideia permanece, bem como seu problema central: revoltas não nascem necessariamente de heróis vivos. Muitas vezes, os heróis são consequência tardia, criados pela própria violência que tentou impedi-los de existir.

Quando o Leviatã se ocupa demais em destruir mitos, talvez esteja confessando que teme menos a rebelião em si do que a possibilidade de ela ganhar uma história para contar.

Título e Texto: Rafael Nogueira, O Dia, 14-1-2026 

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