Não há
donos da Democracia como quereriam regimes autoritários
António Justo
No Facebook circulam os
seguintes dizeres:
“Em vez de cantarmos:
‘contra os canhões, marchar, marchar’…Vamos cantar: ‘Contra a direita, votar,
votar!’”
Isto é cópia slogan do grupo
alemão “Avós contra a direita” organizado pela esquerda que concebe a sociedade como
campo de luta de algum grupo que se julga em posse da democracia.
A visão apresentada reduz a
democracia a um acto de oposição partidária, o que merece algumas reflexões
contrárias fundamentadas:
A Democracia não é guerra
civil eleitoral pois a metáfora belicista (“contra a direita”) contradiz o
espírito democrático, que pressupõe coexistência e competição pacífica de
ideias, não aniquilação do oponente.
O voto quer-se como construção, não como arma; com efeito, a democracia madura entende o voto como instrumento de construção coletiva, não apenas como ferramenta de oposição. A ênfase deve estar no projeto de sociedade e na mundivisão humana, que se propõe e não apenas naquilo que se rejeita.
O pluralismo é um valor
fundamental e constitutivo de uma democracia pois, uma democracia saudável
reconhece que a diversidade ideológica é necessária para o equilíbrio social e
para a qualidade das deliberações públicas.
O reducionismo é uma maneira
de se afirmar contra a democracia porque reduzir complexas escolhas societárias
a um binário “nós contra eles” empobrece o debate público e alimenta
polarização destrutiva, aproveitando-se de quem anda distraído.
Precisa-se de democracia
representativa e não de mobilização extremista permanente, pois é um facto que
sistemas democráticos estáveis dependem de instituições sólidas e alternância
pacífica no poder e não da perpetuação de um estado de mobilização contra
adversários políticos.
Quando os argumentos faltam as
partes armam-se em únicos salvadores de um povo que não precisa de tais
extremismos. Reduzir a campanha eleitoral a guerra civil torna-se num apelo a
não se ir votar!
Uma perspectiva democrática
alternativa poderia cantar: “Pelo diálogo, debater, debater” ou “Pelos
direitos, construir, construir”, enfatizando valores substantivos em vez de
oposição partidária.
A força da democracia está em
transformar conflitos em debates regrados e em garantir que todas as correntes
políticas possam expressar-se livremente, inclusive aquelas com que
discordamos.
Título, Imagem e Texto: António da Cunha
Duarte Justo é um pensador e viajante de culturas: filósofo e teólogo de
formação, escritor por vocação e comunicador por missão, dedica a sua vida a
lançar pontes entre Portugal e Alemanha. Autor do blog Pegadas do Tempo, via ContraCultura,
26-1-2026

O texto cai como uma luva no Brasil atual.
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