domingo, 18 de janeiro de 2026

[As danações de Carina] Inexplicável

Carina Bratt

BONITA daquele jeito, nunca ninguém havia visto igual. De face alegre e envolvente, a diva dos olhos serenos trazia no rosto um sentimento de profundidade jamais sentido em alguém por aquelas paragens. De fato, qualquer um, por mais bobo que fosse, reconhecia e não só reconhecia, via e sentia nela uma candura indescritível. Mais que uma singeleza virginal, um sentimento nobre, conspícuo, ardoroso e dinâmico que ninguém saberia explicar com palavras.

Ao ser apresentada pela velha avó, dona Efigênia que morava numa casinha entrelaçada em todo seu entorno por um jardim imenso lá no fim da rua, todos os presentes ficaram vidrados na magia contagiante que emanava de dentro de sua alma. Na verdade, ela a formosa, tinha uma animosidade pura. Seu coração se fazia acolhedor, a sua voz saia maviosa sabia desenhar as palavras certas e de peso ideal para serem ditas. Ao serem pronunciadas, toda a sua força interior se abria por inteira num confortar que fazia um bem danado a quem dela se aproximava. 

Qualquer um que a procurasse, para conversar, saia da sua beira com um novo alento, uma esperança renovada se instalava Igualmente com o seu ‘eu’ tranquilo e sereno, empurrava os medos e as atribulações por mais obscuras que fossem, ou que se apresentassem para um distanciado bem longínquo da pequena comunidade. Sua presença na igreja, aos domingos, fluidificava e fazia todos os frequentadores se sentirem vivificados, como se uma força invisível carregasse para longe todas as mazelas e dissabores.

Em igual ponto, quem tinha a alma frangalhada, ou se via desafortunado pelos dissabores, os medos e as aflições, ao estar com ela, se via totalmente revigorado e as coisas como que por encanto, voltava ao normal, os desconfortos fugiam para um longe sem volta. Fluía de dentro dela, uma espécie de conforto sempiterno e jamais sentido. A sua presença invadia e acalmava, ao tempo em que fazia o corpo inteiro de quem estivesse ao seu lado se robustecer enverdejando, apaziguado, em uma paz tranquila, como se tivesse recebido uma oração direta vinda do Pai Maior.

O coração, por sua vez, também não ficava de fora. Dava a impressão de entrar em transe e o espírito criava uma nova potência, se moldava num reflorir poderoso e pujante, benfazejo e acolhedor que também por sua vez, dava a sensação do corpo inteiro estar flutuando. E se a gente olhasse bem, de fato, estava. Bonita daquele jeito, Maria (esse era seu nome) nunca ninguém havia visto igual. De face alegre e envolvente, a deidade na flor dos seus vinte anos, trazia nos olhos um sentimento de profundidade jamais sentido em alguém por aquelas paragens.

De fato, qualquer um por mais bobo que fosse, reconheceria nela de pronto, uma candura indescritível. Mais que uma complacência desnudada das coisas terrenas, tipo um sentimento duradouro que ninguém saberia explicar com palavras. Maria talvez não fosse seu verdadeiro nome, quem sabe dona Efigênia tivesse ocultado o verdadeiro patronímico, ou logo toda a comunidade acharia que aquela garota de apenas vinte anos representasse a Felicidade ou algo perto de uma entidade com poderes angelicais grudados, colados em seu semblante de calmaria edificante e imorredoura.

Pasmos e abobalhados, nenhum dos moradores, mesmo os mais longevos se animava em procurar saber mais, ou se achegar à ela e dizer além de um bom dia, um ‘olá’, um ‘oi’, ou qualquer outra bobeira como ‘você está bem?’, como uma alma tão benfazeja veio parar onde Judas perdeu as botas?’. O tempo corria, os dias passavam. Nos domingos a igreja de apinhava de fiéis. Os jovens na idade dela se achegavam, na pracinha puxavam conversas. Na lanchonete, os rapazes mais afoitos falavam em namoro sério.

Todavia, a viçosa Maria se desvencilhava, a avó sorria um sorriso triste e logo depois tudo se acalmava. Assim foi por muito tempo.  De repente, do nada, dona Efigênia sumiu. Maria, a neta, idem. Vizinhos procuraram por elas, mas nem sinal de seus paradeiros. Seu Olavo, o homem que cuidava do cemitério, teve a ideia de ir até a casa delas. O povoado estava estranhando a ausência das duas. Tanto nas ruas, como na praça, no mercado, na padaria, na quitanda, e nos domingos, nas missas do padre Gregório.

Seu Olavo diante dessa ‘sumida’ estranha e anormal, misteriosa e atípica, chamou alguns vizinhos e também os dois senhores que o ajudavam a cuidar dos túmulos no cemitério local. Foram à casa de dona Efigênia e Maria. Bateram palmas, nada. Tudo normal, coisa alguma fora dos conformes. Entretanto, quando entraram e vasculharam a casa e em seguida o quintal, ao chegarem perto de um enorme abacateiro, coberto por muito mato crescido ao redor, se depararam com duas cruzes de madeira carcomidas que se faziam escondidas perto da cerca.

Sem tirar nem, pôr, todos os que ali estavam, se quedaram boquiabertos, assombrados, extasiados, perplexos, atônitos, os olhos esbugalhados. Seu Olavo, como igualmente os demais que o haviam acompanhado na empreitada, se depararam com dois nomes conhecidos escritos com letras quase apagadas pelo tempo. ‘Aqui repousam os restos mortais de Efigênia da Conceição Ramires e sua neta Maria do Amor Perfeito Ramires’. Ninguém soube explicar o que, de fato, aconteceu. E como. Mais incomum: o sepultamento remontava datado de quatro anos passados.

Título e Texto: Carina Bratt, da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, 18-1-2026

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Um comentário:

  1. O magnifico texto “Inexplicável” de Carina Bratt faz parte das suas “Danações”, de todos os domingos, ou seja, de uma série de crônicas, escrito poéticos e narrativas que misturam confissão íntima, perplexidade existencial e imagens surrealistas. O “Inexplicável” vem justamente da forma fragmentada, emocional e às vezes com tons salpicados de absurdez evidentemente levando em conta que essa jovem aborda outros temas como perda, solidão e memória. Seu estilo mostra certa fragmentação e intensidade. Como assim? Seus textos alternam entre poesia lírica e narrativas quase fantásticas, criando uma sensação de descontinuidade e estranhamento. A maioria de seus temas são recorrentes. Perda e ausência: “Procurei dentro de mim e nada achei... que desgosto!”. Um exemplo da busca frustrada por alguém ou por si mesma. Carina também fala muito de solidão e perplexidade. Ela frequentemente se pergunta “quem sou eu?”, revelando uma crise de identidade. Há, em contrapartida, um surrealismo cotidiano. Em outro texto, também publicado aqui na “Cão que Fuma”, onde essa paranaense descreve com maestria uma saga de baratas como se fosse uma epopeia, misturando humor grotesco e drama. Ela sempre que pode, baila resgate de vozes esquecidas: Também dedica espaço a poetas desconhecidos, como eu, reforçando a sua visão de literatura como acolhimento dos marginalizados. Carina Bratt, a bem da verdade, é como seu texto: “Inexplicável”. E por qual motivo eu a rotulo assim? Pela forma híbrida. Não se encaixa em gênero fixo, ora poesia, ora crônica, ora fábula. Excesso de emoção. O texto parece mais um desabafo visceral do que uma narrativa organizada. Ambiguidade. O leitor nunca sabe se está diante de uma metáfora, de uma memória real ou de pura invenção. Em resumo, o texto “Inexplicável” a meu humilde entender, é um convite ao desconforto e à reflexão. Ele não busca clareza, mas sim invoca provocar o leitor com imagens intensas e desconexas. Carina é simplesmente sensacional. E eu me bratt ”o” muito levando isso em conta.
    Aparecido Raimundo de Souza, da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro.

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