Carina Bratt
BONITA daquele jeito, nunca ninguém havia
visto igual. De face alegre e envolvente, a diva dos olhos serenos trazia no
rosto um sentimento de profundidade jamais sentido em alguém por aquelas
paragens. De fato, qualquer um, por mais bobo que fosse, reconhecia e não só
reconhecia, via e sentia nela uma candura indescritível. Mais que uma singeleza
virginal, um sentimento nobre, conspícuo, ardoroso e dinâmico que ninguém
saberia explicar com palavras.
Ao ser apresentada pela velha avó, dona Efigênia que morava numa casinha entrelaçada em todo seu entorno por um jardim imenso lá no fim da rua, todos os presentes ficaram vidrados na magia contagiante que emanava de dentro de sua alma. Na verdade, ela a formosa, tinha uma animosidade pura. Seu coração se fazia acolhedor, a sua voz saia maviosa sabia desenhar as palavras certas e de peso ideal para serem ditas. Ao serem pronunciadas, toda a sua força interior se abria por inteira num confortar que fazia um bem danado a quem dela se aproximava.
Qualquer um que a procurasse, para conversar,
saia da sua beira com um novo alento, uma esperança renovada se instalava
Igualmente com o seu ‘eu’ tranquilo e sereno, empurrava os medos e as
atribulações por mais obscuras que fossem, ou que se apresentassem para um
distanciado bem longínquo da pequena comunidade. Sua presença na igreja, aos
domingos, fluidificava e fazia todos os frequentadores se sentirem vivificados,
como se uma força invisível carregasse para longe todas as mazelas e
dissabores.
Em igual ponto, quem tinha a alma frangalhada, ou se via desafortunado pelos dissabores, os medos e as aflições, ao estar com ela, se via totalmente revigorado e as coisas como que por encanto, voltava ao normal, os desconfortos fugiam para um longe sem volta. Fluía de dentro dela, uma espécie de conforto sempiterno e jamais sentido. A sua presença invadia e acalmava, ao tempo em que fazia o corpo inteiro de quem estivesse ao seu lado se robustecer enverdejando, apaziguado, em uma paz tranquila, como se tivesse recebido uma oração direta vinda do Pai Maior.
O coração, por sua vez, também não ficava de
fora. Dava a impressão de entrar em transe e o espírito criava uma nova
potência, se moldava num reflorir poderoso e pujante, benfazejo e acolhedor que
também por sua vez, dava a sensação do corpo inteiro estar flutuando. E se a
gente olhasse bem, de fato, estava. Bonita daquele jeito, Maria (esse era seu
nome) nunca ninguém havia visto igual. De face alegre e envolvente, a deidade
na flor dos seus vinte anos, trazia nos olhos um sentimento de profundidade jamais
sentido em alguém por aquelas paragens.
De fato, qualquer um por mais bobo que fosse,
reconheceria nela de pronto, uma candura indescritível. Mais que uma
complacência desnudada das coisas terrenas, tipo um sentimento duradouro que
ninguém saberia explicar com palavras. Maria talvez não fosse seu verdadeiro
nome, quem sabe dona Efigênia tivesse ocultado o verdadeiro patronímico, ou
logo toda a comunidade acharia que aquela garota de apenas vinte anos
representasse a Felicidade ou algo perto de uma entidade com poderes angelicais
grudados, colados em seu semblante de calmaria edificante e imorredoura.
Pasmos e abobalhados, nenhum dos moradores,
mesmo os mais longevos se animava em procurar saber mais, ou se achegar à ela e
dizer além de um bom dia, um ‘olá’, um ‘oi’, ou qualquer outra bobeira como
‘você está bem?’, como uma alma tão benfazeja veio parar onde Judas perdeu as
botas?’. O tempo corria, os dias passavam. Nos domingos a igreja de apinhava de
fiéis. Os jovens na idade dela se achegavam, na pracinha puxavam conversas. Na
lanchonete, os rapazes mais afoitos falavam em namoro sério.
Todavia, a viçosa Maria se desvencilhava, a
avó sorria um sorriso triste e logo depois tudo se acalmava. Assim foi por
muito tempo. De repente, do nada, dona
Efigênia sumiu. Maria, a neta, idem. Vizinhos procuraram por elas, mas nem
sinal de seus paradeiros. Seu Olavo, o homem que cuidava do cemitério, teve a
ideia de ir até a casa delas. O povoado estava estranhando a ausência das duas.
Tanto nas ruas, como na praça, no mercado, na padaria, na quitanda, e nos domingos,
nas missas do padre Gregório.
Seu Olavo diante dessa ‘sumida’ estranha e
anormal, misteriosa e atípica, chamou alguns vizinhos e também os dois senhores
que o ajudavam a cuidar dos túmulos no cemitério local. Foram à casa de dona
Efigênia e Maria. Bateram palmas, nada. Tudo normal, coisa alguma fora dos
conformes. Entretanto, quando entraram e vasculharam a casa e em seguida o
quintal, ao chegarem perto de um enorme abacateiro, coberto por muito mato
crescido ao redor, se depararam com duas cruzes de madeira carcomidas que se
faziam escondidas perto da cerca.
Sem tirar nem, pôr, todos os que ali estavam,
se quedaram boquiabertos, assombrados, extasiados, perplexos, atônitos, os
olhos esbugalhados. Seu Olavo, como igualmente os demais que o haviam
acompanhado na empreitada, se depararam com dois nomes conhecidos escritos com
letras quase apagadas pelo tempo. ‘Aqui repousam os restos mortais de Efigênia
da Conceição Ramires e sua neta Maria do Amor Perfeito Ramires’. Ninguém soube
explicar o que, de fato, aconteceu. E como. Mais incomum: o sepultamento
remontava datado de quatro anos passados.
Título e Texto: Carina Bratt, da Lagoa
Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, 18-1-2026
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O magnifico texto “Inexplicável” de Carina Bratt faz parte das suas “Danações”, de todos os domingos, ou seja, de uma série de crônicas, escrito poéticos e narrativas que misturam confissão íntima, perplexidade existencial e imagens surrealistas. O “Inexplicável” vem justamente da forma fragmentada, emocional e às vezes com tons salpicados de absurdez evidentemente levando em conta que essa jovem aborda outros temas como perda, solidão e memória. Seu estilo mostra certa fragmentação e intensidade. Como assim? Seus textos alternam entre poesia lírica e narrativas quase fantásticas, criando uma sensação de descontinuidade e estranhamento. A maioria de seus temas são recorrentes. Perda e ausência: “Procurei dentro de mim e nada achei... que desgosto!”. Um exemplo da busca frustrada por alguém ou por si mesma. Carina também fala muito de solidão e perplexidade. Ela frequentemente se pergunta “quem sou eu?”, revelando uma crise de identidade. Há, em contrapartida, um surrealismo cotidiano. Em outro texto, também publicado aqui na “Cão que Fuma”, onde essa paranaense descreve com maestria uma saga de baratas como se fosse uma epopeia, misturando humor grotesco e drama. Ela sempre que pode, baila resgate de vozes esquecidas: Também dedica espaço a poetas desconhecidos, como eu, reforçando a sua visão de literatura como acolhimento dos marginalizados. Carina Bratt, a bem da verdade, é como seu texto: “Inexplicável”. E por qual motivo eu a rotulo assim? Pela forma híbrida. Não se encaixa em gênero fixo, ora poesia, ora crônica, ora fábula. Excesso de emoção. O texto parece mais um desabafo visceral do que uma narrativa organizada. Ambiguidade. O leitor nunca sabe se está diante de uma metáfora, de uma memória real ou de pura invenção. Em resumo, o texto “Inexplicável” a meu humilde entender, é um convite ao desconforto e à reflexão. Ele não busca clareza, mas sim invoca provocar o leitor com imagens intensas e desconexas. Carina é simplesmente sensacional. E eu me bratt ”o” muito levando isso em conta.
ResponderExcluirAparecido Raimundo de Souza, da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro.