Aparecido Raimundo de Souza
O REPÓRTER chega para entrevistar as candidatas a “MISS BONECA DA SERRA”. E aquela loirinha de cabelos longos e olhos azuis foi a que, sem sombra de dúvidas, mais lhe chamou a atenção. Não só pela beleza inquestionável como igualmente pelo sorriso lindo e pelo porte elegante. Vibrou quando seu cinegrafista informou que ela seria a primeira de uma lista de quinze. A princípio, o jornalista a achou não só bonita e interessante, como surreal, a ponto de confidenciar com seus botões que se ele fosse um dos jurados, certamente o seu voto seria para ela. No decorrer da conversa, entretanto, a sua opinião foi se modificando literalmente. Quais motivos o fizeram alterar o arbítrio a ponto de perder totalmente a maviosidade por aquela deusa rara e deslumbrante saída de um conto de fadas?
— Oi, linda. Meu nome é João Sabugo. Sou repórter da “Revista Espia Vê Tudo”. Estou aqui para lhe entrevistar juntamente com as suas coleguinhas concorrentes ao título “Miss Boneca da Serra”. Podemos começar?
— Começar o que exatamente?
— A entrevista...
— Ah, mil perdões. Podemos sim. Por favor repita seu nome. João de quê...?
— João Sabugo. Por que você riu?
— Pelo seu sobrenome, Sabugo. Até onde sei, sabugo é uma espiga de milho sem o milho grudado. E você não se parece com um sabugo de milho.
Risos:
— Ok. Gostei da comparação. Agora me diga o seu nome.
— O meu? Ipysilone Canuda da Costa. Esse Ipysilone com ípsilon.
— Perfeito. Idade?
— A minha? Acho que 22. Não, 21. Esquece. 23...
— Local de nascimento?
— O meu? Berço da maternidade Dona Carmelita Umbingosa. Fica ao lado da prefeitura de Pau dos Cavalos.
— Quem nasce em Pau dos Cavalos é?
— Jumenta...
— O quê? Ah, tá. Entendi. Peso?
— O meu? 58. Mas sempre sobe um pouco. Agora por exemplo estou com 56.
— Altura?
— A minha?
— 1.60. Mas de uns dias pra cá, diminuiu...
— Diminuiu?
— É.
— Como assim?
— Legal. Seu apelido?
— O meu? “Letra morta”.
— Letra morta? Por quê?
— Meu pai diz sempre que o ypsilone do meu nome não se usa muito. Logo, o treco pegou. Irado, né?
— Qual a sua maior qualidade?
— A minha? Gostar de coisas perigosas.
— Do tipo?
— Tipo? Que tipo?
— Do que você gosta que acha perigoso?
— Ah...! Outro dia eu acendi um cigarro...
— Nossa, você fuma?
— Não. Detesto cigarros. É que eu estava sentada em cima de um latão cheio de gasolina. Todo mudo que estava perto, saiu em debandada... foi massa...
— Meu Deus! Que horror! Que mais?
— Ontem eu subi no topo desse hotel onde estamos. Se você olhar pra cima lá do alto, verá que ele tem 30 andares. No terraço me dependurei de cabeça pra baixo.
— E para que fez isso?
— Quem? Eu? Pra quê? Queria ver como era enxergar as coisas de cabeça pra baixo de um arranha céu dessa envergadura.
— E você não teve medo de cair?
— Quem? Eu? Não. O bicho é bem seguro...
— Qual o seu maior defeito?
— O meu? Achar que sou doida.
— E é?
— Quem? Eu? Não!
Mais risos:
— Qual a característica mais importante em um homem?
— Num homem?
— Sim...
— Você diz um homem, homem?
— Obviamente.
— O fato de ele ter uma ripa escondida...
— Ripa?
— Isso.
— Não alcancei o seu posicionamento.
— Eu explico: minha irmã Seriema tem um marido violento. À noite, vez outra, quando ele bebe, pega ela e senta a ripa...
— Ah, eles fazem sexo?
— Não, moço. Ele dá uma surra nela, de ripa. Ripa, cara. O mesmo que pau... ela sai toda cheia de hematomas, mas feliz...
— Surra de pau?
— Foi o que eu disse. Ela adora surra de ripa ou de pau. Apesar de ir parar depois no PA do bairro onde moramos toda desmilinguida. O senhor já tomou surra desse tipo?
— Desculpa. Sou eu quem faço as perguntas por aqui. E numa mulher?
— O que é que tem uma ou numa mulher?
— Qual a característica mais importante numa mulher?
— Saber endurecer “aquilo” sem precisar assoprar...
— Assoprar? Como assim?
— Preciso mesmo explicar o tal negócio?
— Deixa pra lá. O que mais aprecia em seus amigos?
— Quem? Eu? O que mais aprecio em meus amigos? O que eles mais apreciam em mim!
— Legal. E o que eles mais apreciam em você?
— O que eu mais aprecio neles.
— Sua atividade favorita?
— Qual, a minha? Ah, tá. Plantar bananeiras.
— Você frequenta alguma academia?
— Quem? Eu? Não!
— E como aprendeu a plantar bananeiras? Com as amigas da escola, suponho?
— Não, moço. Foi com meu vô Alpiste. O pai do meu pai tem um sítio enorme e nos finais de semana ele me ensina a plantar e a lidar com a terra...
— Que maneiro! E qual a sua maior felicidade?
— A minha? “Pra mim” é como uma coisa gostosa que a gente come. E quando você come o que gosta você se sente feliz...
— Entendi. E nessa linha, o que seria a maior das tragédias?
— Cair da Montanha...
— Como? Cair da montanha? Você é chegada em praticar alpinismo?
— Se eu sou chegada em quê?
— Em alpinismo. Pratica esse esporte?
— Que diabo é isso?
— Deixa pra lá. Voltemos à montanha. Você já subiu em alguma?
— Quem? Eu? Não!
— Continuo sem entender. Você disse que a maior tragédia seria...
— Moço, Montanha é o nome da égua preferida do meu vô Alpiste. Eu adoro subir nela e andar por toda parte, trotando, trotando...
— Ah, caiu a ficha. Pois bem, vamos mais. Quem você gostaria de ser se não fosse você mesma?
— Quem? Eu? Acho que a Mulher Maravilha.
— E por quê?
— Adoro quando ela dá aquelas voltinhas...
— Qual a sua viagem preferida?
— Qual? A minha? Ah, capturei. Ter ido à lua...
— Não me diga. Você já foi à lua?
— Quem? Eu? Já.
— E como foi?
— Com meu primo Juju Perneta.
— Seu primo Juju Perneta?
— É moço. Ele só tem uma perna... a outra um trator levou...
— Conta aí. Deve ter sido uma experiência bastante interessante. Quero detalhes...
— Foi assim. Aconteceu lá no celeiro do meu vô Alpiste. À noite, depois do jantar, o Juju Perneta me convidou pra dar uma volta. Aceitei. Fomos até o celeiro. Chegando lá, ele me agarrou, me jogou contra umas “tálbas” velhas, me beijou, me deu uns amassos, e depois me jogou no chão, levantou a minha saia, arriou a mi....
O repórter a interrompeu:
— Calma, calma. Relaxa. Vamos mudar de assunto. Por favor. Suas cores preferidas?
— As minhas? São três. O azul e aquela outra que quando acontece alguma coisa muito gostosa...
— Você quer dizer excitante?
— Isso. Quando acontece isso aí que você falou, a gente fica e não só fica, vê tudo vermelho piscando.
—E a terceira?
— Terceira? Que terceira?
— Esquece. Uma flor?
— Mamãe!
— Flor, flor. Margarida, orquídea, tulipa, jasmim, cravo...
— Então, moço. Mamãe. Ela é uma rosa...
— Um animal?
— Onça pintada.
— Nossa você gosta de bichos? Interessante. Acaso já viu alguma onça pintada?
— Muitas vezes. Quando eu era pequena, papai vivia me botando medo por conta de uma onça pintada que um amigo dele, o Zé Abestado desenhou no muro do nosso vizinho, que ficava do outro lado da rua, em frente ao nosso portão. Se eu fizesse algo errado, se desobedecesse, ele, a mãe, ou o vô Alpiste, ele me botava sentada à noite, no portão de cara para a tal onça pintada. Era cruel.
— Imagino...
— Quais são seus autores preferidos?
— Os meus? Gilberto Gil, e Chico Buarque.
— Autores, autores. Não cantores...
— Pois então. Gilberto Gil é um grande autor. O Chico Buarque também...
— Ta legal. Me diga então o nome de uma música do Chico Buarque que você aprecia?
— Mulheres de antenas...
— Não conheço. Canta um pedacinho...
— “Mirem-se no espelho daquelas mulheres de antenas, sofrem por seus sofridos...”
— Não são antenas, querida. O certo é Atenas.
— Então, foi o que eu disse. Antenas.
— Pois bem. Qual superpoder gostaria de ter?
— Quem? Eu? Um, deixa ver! Voar como o Tarzan...
— Pera lá, Ipysilone. O Tarzan não voa...
— Como não, moço. De galho em galho.
— Como gostaria de morrer?
— Quem? Eu? Morrendo...
— Eu sei, mas de que forma?
— Deixando de viver...
— Qual seu maior pecado?
— O meu? Gostar de paixão da minha amiga Simone Lantejoulas.
— Você gosta da sua amiga Simone Lantejoulas?
— Gosto. E muito. Sou vidrada nela.
— E eu posso saber por quê?
— Pode. Ela é ele. E ele é ela.
— Ela o quê? Como? Repita, por favor.
— Ela, a Simone Lantejoulas é ele, e, ao mesmo tempo, é ela e vice-versa...
O jornalista coça a cabeça num gesto desesperado:
— Minha linda. Obrigado pela sua atenção. Beijos, abraços. Tenha um bom dia. Foi um prazer. Por favor, mande vir para cá a sua outra coleguinha. Se ela for igual a você e concorrendo ao mesmo troféu, tanto faz. Espera. Pode ser aquela moreninha vestida de prisioneira.
Ipysilone arregala os olhos, fica pálida:
— Moço, posso lhe dar um aviso, ou melhor, um conselho. Falo sério!
— Sou todo ouvidos, tanto de um lado, como de outro.
— Melhor eu chamar no lugar dela, a candidata vestida de laranja.
— E por qual motivo eu não poderia entrevistar a de roupa de presidiária?
— Ela rouba, afana, tem a mão leve...
— Nossa! Obrigado pelo aviso. Agradeço. Ok. Manda vir então, por gentileza, a de laranja.
— Claro, mas ouça bem o que vou lhe dizer. Fica entre nós. Tome cuidado. Se você resolver chupar a laranja, verá com a própria língua que você tem em sua boca, que toda ela é azeda.
Explicação necessária:
(*) Pedra de Nagamani, o título do presente texto faz referência aos encantadores de serpentes indianos que apregoam ser possuidores de poderes míticos, e, que por conta, dizem retirar joias raras, ou seja, removem pedras ou gemas preciosas encontradas nas cabeças e nos rabos das cobras venenosas como a Naja. A intenção desse povo, não outra, senão a de passar a perna na grandiosa massa de curiosos que acreditam estar diante de uma realidade incontestável. Todavia, de passagem, e a bem da verdade, uma lorota mentirosa. No texto, a Ipysilone, embora deslumbrante, sedutora e glamourosa não vai além de uma moça jovem, de fundo falso. Em outras palavras, a criatura, em comparação, é totalmente vazia, oca e sem conteúdo. Não passa, em resumo, de uma pedra bruta sem valor. Uma autentica joia de aparência dissimulada. Bonita por fora, mas por dentro... nada que se possa ser aproveitado, apesar de ser, como um todo, uma extasiante escultura em formato angelical.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de São Paulo, Capital, 23-1-2026
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