Aparecido Raimundo de Souza
Izabel morava numa
casa simples, bem antiga, conhecida como “Morada da Alegria”. Todavia, essa
residência, com o descender do dia e das horas, uma luz resplandecia. Ela tinha
as mãos habilidosas e um coração para lá de grandioso. Todos os dias, assim que
se via em pé e depois de ter tomado o seu café, se sentava perto da janela da
sala cercada por um punhado de linhas, tecidos e botões e a partir daí dava
formatos mágicos à sua imaginação.
Cada boneca de pano,
se anunciava única: umas tinham vestidos floridos, outras usavam chapéus
engraçados, e algumas traziam bolsos secretos para guardar pequenos tesouros.
Izabel costurava com tanto carinho e amor, que esse amor primoroso se tornava
grandioso demais e parecia por conta, colocar um pedacinho de seu “eu” interior
em cada ponto de arremate. As crianças da cidade, sem tirar nem pôr, adoravam
visitar essa jovem criatura moldadora de embevecimentos perpétuos.
Quando elas recebiam
uma boneca... uau! seus olhinhos brilhavam de alegria. O presente não se
consubstanciava apenas num brinquedo. Se transformava num abraço feito de
tecido e amor. As bonecas, por seu turno, se faziam companheiras de aventuras,
se viam prontas e de certa forma adultas para encararem os segredos confidentes
da guardiã de todos os sonhos.
Com o tempo, passaram a dizer que a Izabel não fazia apenas bonecas, mais que isso, construía a felicidade costurada à mão. E assim, nesse tom magnânimo, a sua pequena casa simples se transformou num palacete à margem de um lago imaginável de água azul, um lugar indubitavelmente mágico, onde cada criança que chegava encontrava um pedaço de ternura enorme para levar consigo dentro do peito batendo intermitentemente em festa.
A rua de Izabel não
era uma via qualquer. Parecia comum é bem verdade, mas para quem passava diante
da sua morada, se defrontava com um pé de abacate enorme, e, por conta, dava
uma parada básica. Nesse momento, a jovem artesã sentia que ali havia de fato
algo diferente. Algo grandioso, tipo como se o ar carregasse uma promessa
bucólica de ternura infinita dentro de uma plenitude simples, todavia difícil
de descrever com simples palavras.
As crianças, curiosas
meninas, iam e vinham e nessa algazarra deixavam pelo chão risadas que se
misturavam ao cheiro de café fresco. Izabel não precisava de palavras para ser
lembrada: bastava o gesto, o olhar paciente, o tempo que dedicava a transformar
simples pedaços de vida em alegria, apesar de seu pai ter esquecido de colocar
depois da Conceição, o seu Oliveira como parte de um patronímico de família.
Havia nela, em
paralelo, uma calma de querência maviosa, uma blandícia que só os corações
puros e destituídos de maldade conheciam. Havia também uma paz que se fazia
grudada indissoluvelmente com um espírito arraigado de uma calma condexa, uma
bonança que não se apressava, mas que entendia que a felicidade, a verdadeira
felicidade se fazia feita de trocentos pequenos detalhes.
Na cidade, muitos
diziam à alta voz, que a Izabel tinha um dom.
Quem a conhecia, sabia, de cor e salteado, que não um dote sem mais nem
menos, contudo, um mérito na verdadeira acepção da palavra, mas uma escolha, ou
a consagração ou o desposar da graça de viver com a delicadeza constante, bem
ainda com a meiguice polida sedimentada à rosa da epiderme e o mais importante:
o acreditar, sobretudo o acreditar que a infância merece sempre um lugar
seguro.
Um espaço cheio de
cores as mais exuberantes como sonhos pastoris que brotam do seio melíaco do
mais profundo da Terra. Assim, dia após dia, semana após semana, a Izabel
seguia. Se emaranhava entre linhas invisíveis e silêncios cheios de
significados, enfim, por epítome, costurava não objetos, mas memórias.
Apontamentos de rascunhos bucólicos que, mais tarde, as crianças guardariam
como quem acondiciona um segredo precioso, qual seja: o de ter conhecido alguém
que acreditava piamente na magia simples de fazer o bem.
O tempo passou
depressa. Voou como costuma acontecer com a infância. As crianças que um dia
corriam pela rua das memórias de sua vida de menina travessa cresceram, as
outras mocinhas se agigantaram, se resplandeceram e seguiram seus trilhos e
veredas, foram embora da cidade. Mas, sempre que voltavam, havia um ritual
silencioso: passar diante da casa de Izabel.
Não importava se a
porta estava fechada ou se o jardim já não tinha tantas flores. Na amenta, tudo
permanecia intacto: o sorriso doce, a meiguice no olhar, a calma que abraçava o
mundo. Era impossível não lembrar das tardes em que a vida se coadunava simples,
quando a felicidade cabia em gestos pequenos e em presenças generosas.
Izabel da Conceição,
sem o Oliveira faltoso do pai, não se constituiu apenas em uma figura da
infância; foi um bocadinho mais longe. Se redundou num pedaço da própria
cidade. Ela ensinava, sem palavras, evangelizava “que o carinho pode ser
costurado no cotidiano, que a bondade deixa marcas mais fortes do que o tempo”.
Pois bem! E assim,
cada retorno se mesclava num reencontro com aquilo que nunca se perde: a
lembrança de Izabel, as efusividades guardadas como um tesouro invisível, uma
fartura opulenta e inestimável, um raro palpável capaz de devolver às pessoas a
certeza fidedigna de que a infância, mesmo distanciada, ou divorciada, continua
viva, emergente e fantástica dentro de cada um de nós.
Hoje, em idade adulta,
hoje, o agora, o já da Izabel na casa dos mais de sessenta, lindamente o seu
cotidiano, as suas mãos, a sua imaginação, não envelheceram. Tudo, ao seu
entorno, continua efêmero como o brilho daquela menininha dos tempos em que o
pé de abacate florescia diante de um porvir que nunca morre. E nunca morrerá.
Igualmente, de um amanhã que floresce a cada novo raiar de dia, e o faz,
acreditem, de maneira “ad aeternum”.
Título e Texto:
Aparecido Raimundo de Souza, da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro,
9-1-2026
Os papagaios também vestem Prada
O futuro do “Hoje” pode ser um “Amanhã” sem talvez
Sempre haverá, onde menos se espera, uma Fênix eterna ressuscitando das cinzas
Um paraíso perdido bem aqui debaixo de nossos olhos
[Aparecido rasga o verbo – Extra] Eram assim, os meus natais de outrora...

Olá. Muito obrigado Aparecido por escrever esse texto contando um pouquinho de minha história. O mundo das bonecas de pano é encantador. Eu amo esse mundo mágico. Gratidão ❤️
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