sábado, 10 de janeiro de 2026

[Aparecido rasga o verbo] As bonecas de pano da Izabel ou a Izabel das bonecas de pano?

Aparecido Raimundo de Souza 

A MARIA IZABEL da Conceição tinha uma coleção de bonecas de pano, cada uma com um nome e uma personalidade. À noite, quando o silêncio tomava conta da casa de feições humildes, parecia que elas ganhavam vida e conversavam longamente com a sua criadora. Em tom amigável, dialogavam sobre aventuras mágicas vividas em mundos de algodão e bordadas com linhas coloridas que pareciam descidas do mais alto céu...

Izabel morava numa casa simples, bem antiga, conhecida como “Morada da Alegria”. Todavia, essa residência, com o descender do dia e das horas, uma luz resplandecia. Ela tinha as mãos habilidosas e um coração para lá de grandioso. Todos os dias, assim que se via em pé e depois de ter tomado o seu café, se sentava perto da janela da sala cercada por um punhado de linhas, tecidos e botões e a partir daí dava formatos mágicos à sua imaginação. 

Cada boneca de pano, se anunciava única: umas tinham vestidos floridos, outras usavam chapéus engraçados, e algumas traziam bolsos secretos para guardar pequenos tesouros. Izabel costurava com tanto carinho e amor, que esse amor primoroso se tornava grandioso demais e parecia por conta, colocar um pedacinho de seu “eu” interior em cada ponto de arremate. As crianças da cidade, sem tirar nem pôr, adoravam visitar essa jovem criatura moldadora de embevecimentos perpétuos.

Quando elas recebiam uma boneca... uau! seus olhinhos brilhavam de alegria. O presente não se consubstanciava apenas num brinquedo. Se transformava num abraço feito de tecido e amor. As bonecas, por seu turno, se faziam companheiras de aventuras, se viam prontas e de certa forma adultas para encararem os segredos confidentes da guardiã de todos os sonhos.

Com o tempo, passaram a dizer que a Izabel não fazia apenas bonecas, mais que isso, construía a felicidade costurada à mão. E assim, nesse tom magnânimo, a sua pequena casa simples se transformou num palacete à margem de um lago imaginável de água azul, um lugar indubitavelmente mágico, onde cada criança que chegava encontrava um pedaço de ternura enorme para levar consigo dentro do peito batendo intermitentemente em festa.

A rua de Izabel não era uma via qualquer. Parecia comum é bem verdade, mas para quem passava diante da sua morada, se defrontava com um pé de abacate enorme, e, por conta, dava uma parada básica. Nesse momento, a jovem artesã sentia que ali havia de fato algo diferente. Algo grandioso, tipo como se o ar carregasse uma promessa bucólica de ternura infinita dentro de uma plenitude simples, todavia difícil de descrever com simples palavras.

As crianças, curiosas meninas, iam e vinham e nessa algazarra deixavam pelo chão risadas que se misturavam ao cheiro de café fresco. Izabel não precisava de palavras para ser lembrada: bastava o gesto, o olhar paciente, o tempo que dedicava a transformar simples pedaços de vida em alegria, apesar de seu pai ter esquecido de colocar depois da Conceição, o seu Oliveira como parte de um patronímico de família.

Havia nela, em paralelo, uma calma de querência maviosa, uma blandícia que só os corações puros e destituídos de maldade conheciam. Havia também uma paz que se fazia grudada indissoluvelmente com um espírito arraigado de uma calma condexa, uma bonança que não se apressava, mas que entendia que a felicidade, a verdadeira felicidade se fazia feita de trocentos pequenos detalhes.

Na cidade, muitos diziam à alta voz, que a Izabel tinha um dom.  Quem a conhecia, sabia, de cor e salteado, que não um dote sem mais nem menos, contudo, um mérito na verdadeira acepção da palavra, mas uma escolha, ou a consagração ou o desposar da graça de viver com a delicadeza constante, bem ainda com a meiguice polida sedimentada à rosa da epiderme e o mais importante: o acreditar, sobretudo o acreditar que a infância merece sempre um lugar seguro.

Um espaço cheio de cores as mais exuberantes como sonhos pastoris que brotam do seio melíaco do mais profundo da Terra. Assim, dia após dia, semana após semana, a Izabel seguia. Se emaranhava entre linhas invisíveis e silêncios cheios de significados, enfim, por epítome, costurava não objetos, mas memórias. Apontamentos de rascunhos bucólicos que, mais tarde, as crianças guardariam como quem acondiciona um segredo precioso, qual seja: o de ter conhecido alguém que acreditava piamente na magia simples de fazer o bem.

O tempo passou depressa. Voou como costuma acontecer com a infância. As crianças que um dia corriam pela rua das memórias de sua vida de menina travessa cresceram, as outras mocinhas se agigantaram, se resplandeceram e seguiram seus trilhos e veredas, foram embora da cidade. Mas, sempre que voltavam, havia um ritual silencioso: passar diante da casa de Izabel.

Não importava se a porta estava fechada ou se o jardim já não tinha tantas flores. Na amenta, tudo permanecia intacto: o sorriso doce, a meiguice no olhar, a calma que abraçava o mundo. Era impossível não lembrar das tardes em que a vida se coadunava simples, quando a felicidade cabia em gestos pequenos e em presenças generosas.

Izabel da Conceição, sem o Oliveira faltoso do pai, não se constituiu apenas em uma figura da infância; foi um bocadinho mais longe. Se redundou num pedaço da própria cidade. Ela ensinava, sem palavras, evangelizava “que o carinho pode ser costurado no cotidiano, que a bondade deixa marcas mais fortes do que o tempo”.

Pois bem! E assim, cada retorno se mesclava num reencontro com aquilo que nunca se perde: a lembrança de Izabel, as efusividades guardadas como um tesouro invisível, uma fartura opulenta e inestimável, um raro palpável capaz de devolver às pessoas a certeza fidedigna de que a infância, mesmo distanciada, ou divorciada, continua viva, emergente e fantástica dentro de cada um de nós.

Hoje, em idade adulta, hoje, o agora, o já da Izabel na casa dos mais de sessenta, lindamente o seu cotidiano, as suas mãos, a sua imaginação, não envelheceram. Tudo, ao seu entorno, continua efêmero como o brilho daquela menininha dos tempos em que o pé de abacate florescia diante de um porvir que nunca morre. E nunca morrerá. Igualmente, de um amanhã que floresce a cada novo raiar de dia, e o faz, acreditem, de maneira “ad aeternum”.  

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, 9-1-2026

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Um comentário:

  1. Olá. Muito obrigado Aparecido por escrever esse texto contando um pouquinho de minha história. O mundo das bonecas de pano é encantador. Eu amo esse mundo mágico. Gratidão ❤️

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