Aparecido Raimundo de Souza
Boris, papagaio 1: — Você viu o que aconteceu ontem na casa do nosso vizinho Bafo de Bode? Ele deixou a janela aberta e o papagaio dele, o Resfriado quase caiu do segundo andar!
Perereca, papagaio 2:— Ah, eu vi sim! E não foi só isso… ouvi dizer que o sacana do Resfriado anda escondendo sementes de girassol dentro do fogão.
Boris, Papagaio 1:— Sementes no fogão? Que absurdo! Eu sempre digo: se não for no poleiro, não é o lugar certo.
Perereca, papagaio 2: — A arara do seu Flávio Sem Tino contou que o cachorrinho dele, aquele Chihuahua de pelagem longa que atende pelo nome de Chupa Pinto do Cágado anda com ciúmes porque o metido a mi”si”nistro fala mais com a gente do que com ele.
Boris, papagaio 1: — Cá entre nós, minha amada Perereca, quem resiste a um sonoro e terno “bom diaaaa...” de um casal de papagaios elegantes?
Perereca, papagaio 2: — Verdade! E falando em fofoca, ouvi que a periquita da dona Carnem Prúcia ali da esquina anda treinando para imitar o som da própria campainha da casa dela. Vai virar moda!
Boris, papagaio 1: — Chiiiiii... quando isso acontecer, ninguém mais aqui do pedaço vai saber se é visita real chegando ou se é só conversa de passarinho fofoqueiro.
Perereca, papagaio 2: — Aí, compadre Boris, você não vai acreditar! O gato Boca de Sapo, aquele ali da travessa do Espião do nosso ex-amigo Peidar Mendes foi visto cantando “Bicho solto”, a nova música do Roberto Carlos. Apesar de meio desafinado… o bichano jurou em miados lancinantes e disformes que vai lançar carreira internacional!
Boris, papagaio 1: — Carreira internacional? Hahaha! Esse Boca de Sapo não consegue nem atravessar a rua sozinho se não tiver com um bando de federais colados na bundinha dele.
Perereca, papagaio 2: — Pois é! E ouvi dizer também que a capivara da dona Prosa Béber da Bunda Gorda anda ensaiando discursos políticos. Ontem ela gritou: “Mais milho e alfafa para a população!” e quase fez assembleia no galinheiro da PGR.
Boris, papagaio 1: — Assembleia? Eu já tô prevendo o futuro: vai virar partido das vagabundas unidas. O slogan será “Picanha, muita cachaça e liberdade”!
Perereca, papagaio 2: — E o pior: o ratinho do seu Toffolido da farmácia apareceu com óculos escuros, dizendo que agora é “influencer”. Tá vendendo curso de como passar batom no cu da estátua da justiça em frente ao STF e se livrar da Papuda.
Boris, papagaio 1: — Ah, esse ratinho é mesmo uma piada! Daqui a pouco, além de “influencer” o “sem noção” vai abrir canal no YouTube com dicas práticas para ensinar a rapaziada que irá trabalhar com as urnas eletrônicas da próxima corrida à caça de votos para re-eleger o novo presidiriodente, sem que a depois apareça algum engraçadinho gritando para o grande público que as urnas foram violadas “quando ainda nem pensavam em ser virgens”.
Perereca, papagaio 2:— Hahaha! Só falta o pombo do nosso vizinho Fachinchin virar coach motivacional: “Repita comigo: você consegue, você voa, você bicará seus sonhos botando na bunda dos pobres e desvalidos!”
Boris, papagaio 1: — Se isso virar realidade, eu vou me inscrever. Vai que ganho desconto em ração Premium para alimentar a manada de cavalos da câmara e do senado!
O casal de papagaios Boris e Perereca, estavam no auge da fofoca, rindo das histórias da vizinhança, quando de repente o inesperado aconteceu:
Perereca, papagaio 2: — Espera… você ouviu isso?
Boris, papagaio 1:— Claro que ouvi, mas não foi ninguém da rua… foi a nossa própria voz se dilatando!
De fato, do nada, surgido de lugar nenhum, uma repetição desordenada começou a responder sozinho, repicando tudo como se fosse um terceiro papagaio invisível. Só que esse “papagaio fantasma” não reiterava as palavras deles — ao inverso, inventava fofocas novas, mexericos cada vez mais absurdos:
Papagaio invisível (a voz rouca como se fosse de um bêbado desequilibrado):
— “A potranca do meu vizinho virou astronauta.” “A arara meio lá, meio cá, está concorrendo ao Oscar.” — “O Alcoolsemdeslumbre abriu uma pizzaria só para consumidores do petróleo da Margem Equatorial.”
Boris e Perereca se entreolharam, confusos. Pela primeira vez, os fofoqueiros ficaram sem palavras.
Como num passe de mágica, a duplicação desagradável tomou forma: um papagaio transparente, vestido de Lula com roupa de prisioneiro pintou cheio de fofocas as mais estapafúrdicas. Ele olhou para os dois e grunhiu:
Papagaio invisível, grunhindo... em inglês... oinc, oinc, oinc... uma espécie de onomatopeia de taquara rachada:
— “Caro Boris e formosa Perereca. Vocês falam tanto dos outros… agora eu vou falar de vocês!”
No instante seguinte, Boris e Perereca escafederam, desapareceram dentro da própria fofoca, virando, por conta, personagens eternos das histórias que inventavam. Desde esse dia, ninguém mais os viu. Todavia, vez ou outra, aqueles abestalhados que passam em frente daquela mansão paradisíaca onde ambos residiam, juram, de pés juntos, ouvirem risadinhas de papagaios saindo das entranhas das paredes.
O jornaleco local não deixou por menos. Na primeira página, em letras garrafais: “Papagaios somem misteriosamente e viram lenda viva das próprias fofocas!”
O texto apregoava, ainda a todo vapor: “Apesar dos meses passados, alguns moradores juram ouvir risadinhas dessas aves vindas de várias outras residências do bairro. A matéria faz uma indagação severa: “Será assombração ou excesso de fofocas acumuladas?”.
Hahaha, parece até as risadas dos papagaios fofoqueiros pegando no tranco! Imaginem a cena: os dois inseparáveis, Boris e Perereca lembrando, começaram a rir assim, um imitando o outro, e num piscar de olhos o pequeno e pacato bairro dos marajás virou um enorme coral de “kikikikikikis”… onde até as hienas e as éguas de todas as demais comunidades se deixaram ficar pasmas, sem entenderem se a coisa se resumia numa festa ao longo do Lago Paranoá ou em uma reunião secreta de todos os parlamentares ali residentes.
A risada dos dois papagaios: Aquele “kikikikikikiki” interminável começou a ecoar pelos demais espaços adjacentes, que compunham o humilde vilarinho.
O porco do papagaio invisível, o Lula, numa dessas manhãs passadas, achou que ouvia a sirene de uma viatura da Polícia Federal e começou a chafurdar, perdão, a parlar, ou melhor dito, a curupaco papar... curupaco papar... em ritmo idêntico a de uma cen-100-topeia de noventa e nove pernas, literalmente faltando uma de suas perninhas.
As galinhas Manja e a irmã dela, a Nanja entraram em pânico. Passaram a correr em círculos como se fosse a anunciação esmagadora do fim do mundo: — “É o maduro, é o maduro!. Ele poderá ser o próximo, o próximo...”.
O carniceiro, perdão, o caneteiro de plantão, subiu num poste, roubou uma lâmpada e em seguida pulou de um pé de coqueiro como se tentasse fugir desse som agonizante. Por puro azar, acabou preso lá em cima, balançando o rabo como um pêndulo meio parecido com o de Foucault.
Os vizinhos do deus fajuto A”lei”xandre “Master”, saíram às ruas pelados. Invadiram a W3 Norte, a Torre de Televisão e o Palácio do Itamarati, achando que alguém promovia uma festa de quengas clandestinas e começaram a bater punhetas tentando acompanhar as vadias vindas das cidades satélites do Guará e Núcleo Bandeirantes.
O eco das risadas e das gritarias multiplicava tudo, até parecer que havia uma centena de papagaios fofoqueiros rindo ao mesmo tempo.
No auge do caos, os papagaios Boris e Perereca se olharam e disseram em uníssono:
— “As fofocas nos venceram! Já estamos vendo a repetição do 8 de janeiro A Papuda, toda “posuda”, espera por nós de braços e portões abertos...
Num repente abrupto e inopinado, a comunidade inteira, de um extremo ao outro, sem entender porra nenhuma, acabou rindo junto, como se tivesse sido hipnotizada pelas gargalhadas estridentes e satíricas desse alegre casal de aves travessas. Apesar, obviamente, de mexeriqueiros e coscuvilheiros, duas criaturinhas dóceis pra ninguém decente e de honra intocável, botar um dedinho assim de defeito.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, no Espírito Santo, 6-1-2026
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