domingo, 25 de janeiro de 2026

Onde o vento faz a curva

Ao trazer um lugar remoto como a Groenlândia para o centro do debate, Trump reafirma a disposição de promover uma guinada de 180 graus na geopolítica mundial 

Arte: Kiko

Nuno Vasconcellos

Foram tantas decisões, que geraram tantas consequências rumorosas, que Donald Trump, nesta sua segunda passagem pela Casa Branca, parece estar há mais tempo do que está à frente do governo dos Estados Unidos. Na terça-feira passada, dia 20 de janeiro, ele completou um ano de um mandato que tem dado o que falar. É impossível deixar a data passar sem registro. Ainda mais quando se observa a extensão dos acontecimentos que o presidente protagonizou desde a posse.

Não há ponto no mapa-múndi que não tenha sido alcançado pelas decisões do presidente. Nas últimas semanas, foi a vez da Groenlândia ser puxada para o centro do debate. Com uma população de pouco mais de 55 mil habitantes, a ilha é um dos rincões mais remotos da Terra — um daqueles lugares, como diz a expressão utilizada para se referir a pontos longínquos, “onde o vento faz a curva”.

Localizada no círculo Ártico, a ilha esconde sob sua superfície congelada uma reserva importante de petróleo — de mais ou menos 31 bilhões de barris, ou de, aproximadamente, 10% das reservas gigantescas da Venezuela. Seu patrimônio mais valioso, porém, não está aí, mas nas jazidas de disprósio, lítio, neodímio, térbio e outras terras raras — minerais cada vez mais indispensáveis para a indústria eletrônica, automobilística e de energia limpa e sustentável. As reservas groenlandesas desses elementos vinham sendo apropriadas sem obstáculos pela China, que nunca escondeu a intenção de expandir suas lavras na ilha. Até que Trump substituiu o inerte Joe Biden e resolveu dar um basta na situação. Desde o início de seu mando, ele passou a reivindicar não só as riquezas, mas a Groenlândia inteira, para os Estados Unidos.

O tema, como não poderia deixar de ser, dominou o debate durante as comemorações do primeiro aniversário do segundo governo Trump. E, diante da obsessão que o líder americano tem demonstrado de propor medidas extremas para defender a posição de liderança mundial que seu país exerce desde o século passado — e que vinha sendo desafiada, mais ainda não ameaçada pela China — pode-se dizer que, mais importante do que registrar o primeiro aniversário é observar que ainda faltam três longos anos para o fim do mandato.

O tema, como não poderia deixar de ser, dominou o debate durante a passagem do primeiro aniversário do segundo governo Trump. E, diante da capacidade que o presidente vem demonstrando de propor medidas extremas para defender a posição de liderança mundial que seu país assumiu no século passado e que, num futuro ainda distante, poderia ser ameaçada pelo aumento do poderio da China, pode-se dizer que, mais importante do que registrar o primeiro aniversário é observar que ainda faltam três longos anos para o fim do mandato.

GUINADA DE 180 GRAUS — Se os primeiros 12 meses já foram suficientes para alterar a rota geopolítica global de forma tão significativa, o que acontecerá nos 36 meses seguintes? As decisões tomadas pelo presidente desde o primeiro dia do atual mandato já provocaram o realinhamento das forças internacionais e desviaram o mundo da rota que vinha seguindo nos trinta anos anteriores.

As medidas de Trump chacoalharam o comércio entre as nações, impactaram o mercado mundial de energia e, se não chegaram a conter, pelo menos desaceleraram o ritmo da expansão chinesa. As decisões mais recentes do presidente, como vem sendo apontado por esta coluna nas duas últimas edições, devem puxar a Venezuela e o Irã de volta para o mercado mundial de petróleo. E criar uma situação que, no final das contas, beneficiará o continente que mais o critica no momento: a Europa.

Sim. As medidas de Trump, no final das contas, deverão reduzir a dependência da Alemanha, da Itália, da Hungria e de vários outros países da União Europeia do gás natural produzido pela Rússia. E tornar competitivo o gás produzido por países como Israel e Austrália que, hoje, enfrentam obstáculos para viabilizar sua presença no mercado. Podem aumentar a competitividade do gás da Argélia e da Nigéria. Podem, enfim, representar uma guinada de 180 graus no modelo de equilíbrio energético com o qual o mundo se habituou nas últimas décadas.

Ao longo do primeiro ano de mandato foi ficando claro que as medidas adotadas por Trump tinham uma lógica que ia muito além das intenções expansionistas que os críticos atribuem ao americano. A intenção de cada manobra foi menos ofensiva do que defensiva. Cada uma foi a de conter o avanço chinês e impedir que a Rússia, mesmo já não sendo uma sombra do que foi no passado, continue agindo como superpotência.

É lógico que nem todas as medidas que Trump tomou se relacionam diretamente para essa estratégia — mas 100% delas estão voltadas para o fortalecimento da autoridade americana. Logo no primeiro dia de mandato, o presidente revogou mais ou menos 80 ordens de seu antecessor, Joe Biden, e tornou claro o rompimento do governo dos Estados Unidos com a cultura woke, com o politicamente correto e com os acenos à esquerda mundial. Com Trump no comando, a banda passou a tocar um dobrado diferente — e isso, como é evidente, incomodou aos que não contavam com essa possibilidade.

Trump nunca se furtou a proibir a entrada no país de autoridades estrangeiras que, a seu juízo, agem contra os interesses e os princípios americanos. A lista de vistos revogados incluiu diversas autoridades brasileiras que, mesmo depois do distensionamento das relações entre os dois países, continuam impedidas de pôr os pés nos Estados Unidos. O governo também não recuou diante das críticas que recebeu pelo uso da força para reprimir a imigração ilegal e mandar de volta para seus países, algemados, os que estavam sem situação irregular no território americano.

Suas ações mais rumorosas, no entanto, se voltaram para fora do país. É o caso da ordem de lançar contra o Irã a operação militar de grandes proporções que foi determinante para o fim da Guerra dos 12 Dias entre a ditadura dos Aiatolás e Israel. Em outra frente de combate, ele utilizou o poderio econômico de seu mercado, que é o maior do mundo, para adotar sobretaxas exageradas no comércio com os demais países do mundo e o emprego de medidas ainda mais rigorosas com os que se opusessem aos interesses americanos — entre os quais o Brasil recebeu o tratamento mais severo. Tudo em nome do objetivo declarado de recuperar o protagonismo geopolítico que os Estados Unidos viam minguar até mesmo em regiões que sempre estiveram sob sua influência. É o caso específico da América Latina e, também, da Groenlândia.

TIOZÃO BOA PRAÇA — Outro detalhe que deixou marcas no mundo inteiro foi o estilo pessoal do presidente. Em seu primeiro ano de governo Trump moldou para si a imagem de um político sem compromisso com a coerência. Em determinados momentos, agiu como um chefe durão, que ameaçava lançar o poderio militar inquestionável dos Estados Unidos contra qualquer país que se colocasse em seu caminho. No momento seguinte, se transformava no tiozão boa praça e capaz de dirigir afagos até a seus críticos mais ferinos. A impressão que se tem é a de que, cada gesto de Trump tem a intenção de deixar evidente que a imprevisibilidade é o traço mais previsível de suas declarações e decisões.

Nos 12 meses que se passaram desde sua volta à Casa Branca, Trump já se voltou contra aliados que pareciam indispensáveis, como o empresário Elon Musk. Cobriu de elogios pessoas que pouco antes tinham criticado de forma contundente, como o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, a presidente em exercício da Venezuela, Delcy Rodríguez, e o próprio presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva. E se voltou contra líderes que antes elogiava, como Vladimir Putin e alguns governantes europeus.

No rastro dessas guinadas e dessas atitudes quase circenses, Trump tomou iniciativas que beneficiaram antigos adversários ao mesmo tempo em que adotou medidas que, à primeira vista, se voltavam contra os velhos aliados. Uma de suas ações mais rumorosas foi tratada, no momento inicial, como um gesto impulsivo, improvisado e de resultados modestos demais para os riscos que envolveu. Trata-se da operação que, nos primeiros momentos deste ano, extraiu o ditador Nicolás Maduro no território da Venezuela e o levou para enfrentar julgamento numa prisão nos Estados Unidos.

Em pouquíssimo tempo, ficou claro para todo mundo que a remoção do caudilho do poder não foi um movimento isolado como pareceu à primeira vista. Foi apenas o movimento inicial de um jogo que prosseguiu com o imediato estabelecimento de diálogo com Delcy Rodríguez e se mostrou parte de uma estratégia que leva ao realinhamento do poderio energético global. Essa estratégia resultará, no final das contas, no retorno da Venezuela ao mercado mundial, fato que — conforme vem sendo defendido por esta coluna — deverá derrubar os preços do petróleo e criar uma pressão que não estava nos planos dos principais adversários de Washington.

FORÇA MILITAR — O capítulo seguinte dessa estratégia é o que envolve a remota Groenlândia, que, de uma hora para outra, foi puxada para o centro do debate e gerou tensões geopolíticas inesperadas entre os Estados Unidos e seus velhos aliados europeus.

Quem observa os movimentos de Trump percebe que a ilha congelada — um território autônomo que pertence ao Reino da Dinamarca — é o terceiro vértice de um triângulo geopolítico que se completa com a volta da Venezuela e do Irã ao mercado de petróleo e dos impactos negativos que isso gera para a Rússia e para a China.

Desde que voltou a pôr os pés na Casa Branca, já no primeiro dia do atual mandato, Trump vem manifestando seu descontentamento com a presença chinesa na ilha — mas, pelo visto, as autoridades da Dinamarca, que detém o controle do território gelado, não o levaram muito a sério. Nos últimos anos, a China se estabeleceu e tentou consolidar sua presença na ilha valendo-se de investimentos vultosos em infraestrutura — sobretudo, portos — e em mineração.

Por meio de uma empresa chamada Shenghe Resources, a China é a segunda maior acionista do projeto de mineração de Kvanefjeld, um dos maiores complexos para extração e processamento de terras raras do mundo. Ao longo do primeiro ano de seu mandato, Trump mandou recados atrás de recados para o governo autônomo da Groenlândia, para a Dinamarca e para toda a Europa. Diante da ausência de respostas, resolveu apertar o torniquete.

Bastou que a Casa Branca admitisse a possibilidade do uso da força militar para resolver o problema para que o mundo se voltasse contra suas intenções. “Utilizar as forças armadas dos Estados Unidos é sempre uma opção à disposição do comandante-em-chefe”, disse um porta-voz de Trump a respeito dessa possibilidade.

Fora essa declaração que, embora não queira dizer absolutamente nada, foi recebida como uma declaração de guerra, nada nos movimentos recentes de Trump deixa transparecer a intenção de utilizar seu exército para hastear a bandeira dos Estados Unidos nos principais mastros da ilha. Desde 1951, o país mantém bases na Groenlândia e, sob o ponto de vista estritamente militar, Trump não teria dificuldades para assumir o controle da ilha. Bastaria, se tivesse mesmo a intenção de se apoderar do lugar, mandar aumentar os contingentes das quatro bases que a Marinha e a Força Aérea dos Estados Unidos têm por lá. Acontece, porém, que nem tudo se resolve na base da ocupação militar e se ele levasse adiante uma ideia como essa talvez criasse problemas maiores do que aqueles que estaria resolvendo.

A simples menção à possibilidade de os Estados Unidos assumirem o controle da ilha provocou uma reação violenta da Europa e, em especial, da Dinamarca — que deram início a um discurso que, de tão previsível, nem precisa se apoiar em fatos concretos. De acordo com as autoridades da Dinamarca e da Europa, as intenções de Trump são inaceitáveis, ferem a soberania e atentam contra os direitos da população da Groenlândia. Ponto final.

LIMPEZA ÉTNICA — Sinal dos tempos. Em outubro de 2023, logo depois do atentado terrorista do Hamas a Israel, o governo da Dinamarca teve uma postura tão deplorável quanto a do governo brasileiro. Enquanto os mortos ainda eram sepultados e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu ordenava as operações para resgatar os reféns arrastados para as masmorras dos estupradores, infanticidas e sequestradores do Hamas, a primeira-ministra da Dinamarca, a social-democrata Mette Frederiksen, que na época ocupava a presidência da União Europeia, dava início a uma série de pressões destinadas não a condenar os terroristas e os países que o apoiavam os terroristas, como o Irã, o Qatar e a Turquia. Mas a impedir que Israel exercesse o direito de defender sua soberania violada e resgatar seus cidadãos sequestrados.

E, mais ou menos no mesmo tempo que a Europa condenava as ações de Israel na Faixa de Gaza como atos de “violência inaceitável”, sem jamais mencionar o uso da população civil palestina como escudos humanos pelos terroristas, foram sendo escancarados os detalhes da campanha de limpeza étnica levada a cabo pelo Estado da Dinamarca contra os povos inuítes — habitantes naturais da Groenlândia. Entre 1960 e 1992, o governo da Dinamarca ordenou a implantação de Dispositivos Intrauterinos (DIU) em mais de 4.500 mulheres inuítes apenas porque, no entender das autoridades, essa população vinha se tornando grande demais.

Em setembro do ano passado, e já como reação à intenção de Trump de conter a presença chinesa na ilha, Mette Frederiksen fez um pedido formal e tardio de desculpas às mulheres que tiveram seus direitos desrespeitados. Seja como for, as últimas semanas foram marcadas por algumas ações americanas que, é claro, geraram reações previsíveis dos europeus.

A menção à possibilidade de anexação da Groenlândia, por exemplo, foi respondida por uma declaração de oito países europeus em defesa da soberania da ilha. A ameaça de imposição de tarifas a quem se colocasse contra os interesses americanos foi respondida pela aplicação do instrumento anti-coerção criado pela Europa justamente para lidar com as pressões de Trump. A alegação de que a Europa não cuidava da própria segurança e sempre jogou nas costas dos Estados Unidos a obrigação de defendê-la contra eventuais agressões da Rússia e da China (o que é uma verdade absoluta) foi respondida com um acordo que assegura o aumento da presença da OTAN e de tropas americanas no Ártico. E isso, no final das contas, era justamente o que Trump pretendia.

Mais importante do que assumir o governo local e transformar a Groenlândia no 51º estado americano, a intenção da Casa Branca é assegurar o acesso às terras raras da região. É, também, obstruir a expansão da presença chinesa no Ártico e deixar claro que Washington não pretende ceder espaço para um adversário voraz numa ilha que ocupa uma posição tão estratégica no hemisfério norte. Seguindo ao pé da letra o roteiro que já se tornou clássico em seu segundo mandato, enquanto o presidente fazia, em público, ameaças de sanções comerciais e do uso da força militar, sua diplomacia (que ao contrário da brasileira não se move por impulsos ideológicos, mas pelos interesses do país), destravou, em menos de uma semana, um acordo que vinha se arrastando desde a volta de Trump à Casa Branca. Se o mundo tivesse escutado o que ele queria dizer e levado a sério os argumentos que ele apresentou, talvez a situação não precisasse chegar ao ponto que chegou. É bom levar isso em conta nos próximos embates. 

Título e Texto: Nuno Vasconcellos, O Dia, 25-1-2026 

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