Aparecido Raimundo de Souza
O amargo fel escorre
silencioso de bocas escancaradas bailando pequenas derrotas cotidianas: o
ônibus perdido, a palavra mal interpretada, o abraço que não veio, o filho que
não pediu a benção ao pai, a esposa que virou a cara e mandou o marido às
favas. A empregada que deixou o leite derramar. A acescência rugosa se infiltra
nas frestas da rotina, tingindo de negro aquilo que antes parecia colorido.
Mas, paradoxalmente, é essa acrimônia mordaz que nos ensina a valorizar cada
minuto o sabor gostoso daquilo que é axiomaticamente contemplativo e
encantador.
Sem o amargo, ah, sem
o amargo cruciante não reconheceríamos a delicadeza galopante de um gesto
simples, tipo o sorriso inesperado de um amigo, a mão estendida, o olhar cálido
que nos acolhe. O virulento nos obriga a parar, a refletir e, quem sabe, até a
reinventar o caminho a ser seguido. Ele é a lembrança imorredoura de que a vida
não se resume somente ao conforto, mas também ao enfrentamento de uma série de
percalços que jamais pensaríamos ter que passar em nossa longa caminhada em
direção ao futuro. Ele está logo ali, e se faz urgente agarrá-lo.
No fim, o aflitivo que nos acompanha não é apenas um castigo imposto: é também um mestre. Ele nos mostra que a dor mais profunda pode ser fértil, que da aridez enraivecida e impetuosa pode nascer a força motriz, e que até o mais duro dos dias guarda em si a promessa de um porvir menos áspero e virulento. Há um gosto perverso que não se dissolve, mesmo quando a boca se enche de palavras adocicadas. É a repulsa azeda e persistente que se instala na alma, que flui como uma sombra difusa que não se dissipa nem com o nascer de um novo chegar de sol magnânimo.
Esse enojo escorre
lento, vagaroso, quase parando. Todavia, se diflui como lágrima que não ousa
cair, e por conta, se mistura ao silêncio inocente das madrugadas. A fobia
malevolente é o peso invisível que acompanha os passos, que segue o eco das
ausências, e emborrasca o frio que se infiltra, mesmo em dias de verão. Na sua
melancolia estroina, bem sabemos, há uma poesia de rima não confiável: o fel
revela a fragilidade da carne e da esperança, e, de súbito, mostra que o
coração, por mais que se esconda, sempre guarda um punhado de cicatrizes.
É o gosto da saudade
abundante que não se cura, da promessa que por algum motivo banal se perdeu no
vento, do abraço carinhoso e repletado de afeto que nunca chegou. Mas é também
nesse mesmo amargo infame que a magia acontece. Nessa hora, floresce a beleza
da resistência duradoura. Bem sabemos, só quem conhece o outro lado da
escuridão, pode reconhecer o milagre esplendoroso da claridade. Só os que
atravessam a noite turbulenta e vilipendiosa pode compreender a delicadeza da
aurora que nasce ricamente sóbria e benfazeja.
E assim nós, simples
mortais, bucólicos seres humanos, seguimos. Trazemos no peito os arregalados de
todas as horas e na alma, as agruras da incerteza. Nos lábios dorme a
esperança, nos olhos as divagações mais infundadas, todavia, aprendendo sempre
que a vida é feita de contrastes: o grudento que fere, o doce mel que consola,
e o silêncio barulhento que, por vezes, grita mais alto que qualquer palavra.
Por isso, repito, para que fique bem sintetizado: há dias em que a vida se
serve em taças de fel.
O gosto da bebida é
avinagrado. De uma forma ou de outra, bebemos. Por conta, um insólito invade a
nossa boca, e, de lambuja, se propaga em nossa alma, lembrando que nem tudo se
adoça com a fogosidade da esperança, uma vez que ela, na maioria das vezes, sempre
traz disfarçada as avarias das tribulações entrelaçadas às sonoridades do
maligno. O silêncio pesa, as ausências se multiplicam, e até o sol bonito
parece frio. Mas, acreditem, é nesse sabor degradante e esquizofrênico que se
revela a medida certa do sentir o tão sonhado e doce equilíbrio emocional.
Só quem prova a dor em
seu maior estágio de dureza reconhece a delicadeza de um gesto simples e
literalmente bucólico e caliente. O escabroso e fétido, o inóspito e o
acrimonioso não são apenas castigos impostos, claro que não. São também, e
sobretudo, as lembranças sempre vivas e pertinentes de que resistir ao
impossível é preciso. Sempre, sempre, haja o que houver. Desistir, fugir,
entregar os pontos, jamais. Nesse tom, mesmo nas fustigações mais áridas ou
pior, nas mais desditosas e intransponíveis, existirá sempre (ainda que a
trancos e barrancos) a promessa caridosa e benéfica de um “amanhã-depois” menos
ultrajante e danificadamente deteriorado e oprobrioso.
Título e Texto: Aparecido
Raimundo de Souza, das cidades de Candido Mota e Assis, ambas no interior
de São Paulo, 27-1-2026
Totalmente falsa como uma pedra de Nagamani (*)
Engraçadices do dia a dia quando não se tem nada melhor para escrever...
Os eternos intocáveis que abundam as bundas do poder
[Aparecido rasga o verbo] Sem saída, sem escape, literalmente de frente para o inferno. Aqui vamos nós...
As bonecas de pano da Izabel ou a Izabel das bonecas de pano?

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