terça-feira, 27 de janeiro de 2026

[Aparecido rasga o verbo] Breves palavras sobre um fundo falso que às vezes nos escapa pelos esbugalhos dos ouvidos

Aparecido Raimundo de Souza

O GOSTO GOSTOSO da vida nem sempre é doce no sentido látego da palavra. Há dias em que o café da manhã vem acompanhado de silêncios pesados, malogros e descalabros. O pãozinho francês, ainda que recheado de boa manteiga, parece duro demais para ser mastigado. Para quem usa dentaduras, um inferno. É nesses instantes que o mundo lá fora, (aquele além das nossas portas de entrada e saída) revela o seu lado mais áspero, como se quisesse nos lembrar que a existência não é feita apenas de flores, mas também de um bocado de espinhos.

O amargo fel escorre silencioso de bocas escancaradas bailando pequenas derrotas cotidianas: o ônibus perdido, a palavra mal interpretada, o abraço que não veio, o filho que não pediu a benção ao pai, a esposa que virou a cara e mandou o marido às favas. A empregada que deixou o leite derramar. A acescência rugosa se infiltra nas frestas da rotina, tingindo de negro aquilo que antes parecia colorido. Mas, paradoxalmente, é essa acrimônia mordaz que nos ensina a valorizar cada minuto o sabor gostoso daquilo que é axiomaticamente contemplativo e encantador.

Sem o amargo, ah, sem o amargo cruciante não reconheceríamos a delicadeza galopante de um gesto simples, tipo o sorriso inesperado de um amigo, a mão estendida, o olhar cálido que nos acolhe. O virulento nos obriga a parar, a refletir e, quem sabe, até a reinventar o caminho a ser seguido. Ele é a lembrança imorredoura de que a vida não se resume somente ao conforto, mas também ao enfrentamento de uma série de percalços que jamais pensaríamos ter que passar em nossa longa caminhada em direção ao futuro. Ele está logo ali, e se faz urgente agarrá-lo.

No fim, o aflitivo que nos acompanha não é apenas um castigo imposto: é também um mestre. Ele nos mostra que a dor mais profunda pode ser fértil, que da aridez enraivecida e impetuosa pode nascer a força motriz, e que até o mais duro dos dias guarda em si a promessa de um porvir menos áspero e virulento. Há um gosto perverso que não se dissolve, mesmo quando a boca se enche de palavras adocicadas. É a repulsa azeda e persistente que se instala na alma, que flui como uma sombra difusa que não se dissipa nem com o nascer de um novo chegar de sol magnânimo.

Esse enojo escorre lento, vagaroso, quase parando. Todavia, se diflui como lágrima que não ousa cair, e por conta, se mistura ao silêncio inocente das madrugadas. A fobia malevolente é o peso invisível que acompanha os passos, que segue o eco das ausências, e emborrasca o frio que se infiltra, mesmo em dias de verão. Na sua melancolia estroina, bem sabemos, há uma poesia de rima não confiável: o fel revela a fragilidade da carne e da esperança, e, de súbito, mostra que o coração, por mais que se esconda, sempre guarda um punhado de cicatrizes.

É o gosto da saudade abundante que não se cura, da promessa que por algum motivo banal se perdeu no vento, do abraço carinhoso e repletado de afeto que nunca chegou. Mas é também nesse mesmo amargo infame que a magia acontece. Nessa hora, floresce a beleza da resistência duradoura. Bem sabemos, só quem conhece o outro lado da escuridão, pode reconhecer o milagre esplendoroso da claridade. Só os que atravessam a noite turbulenta e vilipendiosa pode compreender a delicadeza da aurora que nasce ricamente sóbria e benfazeja.

E assim nós, simples mortais, bucólicos seres humanos, seguimos. Trazemos no peito os arregalados de todas as horas e na alma, as agruras da incerteza. Nos lábios dorme a esperança, nos olhos as divagações mais infundadas, todavia, aprendendo sempre que a vida é feita de contrastes: o grudento que fere, o doce mel que consola, e o silêncio barulhento que, por vezes, grita mais alto que qualquer palavra. Por isso, repito, para que fique bem sintetizado: há dias em que a vida se serve em taças de fel.

O gosto da bebida é avinagrado. De uma forma ou de outra, bebemos. Por conta, um insólito invade a nossa boca, e, de lambuja, se propaga em nossa alma, lembrando que nem tudo se adoça com a fogosidade da esperança, uma vez que ela, na maioria das vezes, sempre traz disfarçada as avarias das tribulações entrelaçadas às sonoridades do maligno. O silêncio pesa, as ausências se multiplicam, e até o sol bonito parece frio. Mas, acreditem, é nesse sabor degradante e esquizofrênico que se revela a medida certa do sentir o tão sonhado e doce equilíbrio emocional.

Só quem prova a dor em seu maior estágio de dureza reconhece a delicadeza de um gesto simples e literalmente bucólico e caliente. O escabroso e fétido, o inóspito e o acrimonioso não são apenas castigos impostos, claro que não. São também, e sobretudo, as lembranças sempre vivas e pertinentes de que resistir ao impossível é preciso. Sempre, sempre, haja o que houver. Desistir, fugir, entregar os pontos, jamais. Nesse tom, mesmo nas fustigações mais áridas ou pior, nas mais desditosas e intransponíveis, existirá sempre (ainda que a trancos e barrancos) a promessa caridosa e benéfica de um “amanhã-depois” menos ultrajante e danificadamente deteriorado e oprobrioso.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, das cidades de Candido Mota e Assis, ambas no interior de São Paulo, 27-1-2026

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