quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Casa & Video consegue proteção de 60 dias contra credores no Rio e se aproxima de recuperação judicial

O grupo por trás de Casa & Video e Le Biscuit conseguiu na Justiça do Rio uma cautelar que suspende cobranças por 60 dias, abrindo espaço para negociação com credores e possível pedido de recuperação judicial

Quintino Gomes Freire

O grupo que controla as varejistas Casa & Video e Le Biscuit conseguiu na Justiça do Rio uma cautelar que dá proteção contra credores por 60 dias. Na prática, a decisão abre um respiro de dois meses para mediação e renegociação, num movimento que costuma ser usado como ensaio para uma Recuperação Judicial. As informações são da coluna Capital/O Globo.

O processo tramita na 1ª Vara Empresarial do Rio, sob segredo de Justiça. Ao pedir a medida, o grupo argumentou que enfrenta “dificuldades econômicas decorrentes de choques sistêmicos no setor varejista”, que estariam “comprometendo a liquidez da operação em razão da elevação da taxa Selic”, segundo a própria empresa.

Ainda de acordo com a petição, o cenário aumentou custos financeiros e afetou diretamente o público-alvo do grupo. A companhia afirma que o poder de compra das classes C, D e E teria sido “drasticamente reduzido”, num ambiente em que juros altos e pressão competitiva do e-commerce apertam as margens. Pessoas que acompanham o negócio também citam mudanças de comportamento de consumo, incluindo o impacto das bets na renda disponível, especialmente na classe C.

Endividamento e desempenho em 2025

O grupo diz que o desempenho comercial de 2025 ficou abaixo do projetado e inferior ao de 2024. Também admite que não conseguiu resolver o “elevado endividamento”, mas sustenta que já demonstrou capacidade de recuperação no passado quando “amparado por instrumentos adequados de proteção judicial”.

Atualmente, a companhia mantém 344 lojas, sendo 226 da Casa & Video. A marca carioca concentra a operação no Sudeste, enquanto a Le Biscuit atua quase toda no Norte e no Nordeste.

Nos nove primeiros meses de 2025, as vendas totais somaram R$ 1,82 bilhão, queda de 6,5% na comparação anual. As vendas digitais subiram 12,3%, mas ainda representaram 16,1% do total. No mesmo período, o prejuízo líquido saltou 80%, chegando a R$ 246 milhões.

O endividamento líquido também cresceu: alta de quase 9% em 12 meses, atingindo R$ 689,1 milhões em setembro. Segundo o último balanço citado no material, a empresa vem alongando a dívida com notas comerciais e empréstimos.

Fusão e histórico

Casa & Video e Le Biscuit anunciaram fusão em 2022, formando a CVLB. Na época, a gestora carioca Polo Capital, de Marcos Duarte e controladora da Casa & Video, ficou com quase dois terços da companhia resultante. O restante ficou com antigos acionistas da Le Biscuit, como a Vinci, a família Santana e a gestora americana Siguler Guff.

Polo Capital entrou na Casa & Video há mais de uma década, após um período conturbado da rede. Em 2008, a empresa chegou a ser fechada pela Polícia Federal, acusada de sonegação fiscal, passou por recuperação judicial e depois foi comprada pelo advogado Fábio Carvalho. Pouco antes da pandemia, a Polo comprou a participação de Carvalho e se tornou a única dona da varejista. Antes da fusão, as duas empresas chegaram a tentar IPOs, mas as operações não avançaram.

Nota oficial do grupo CVLB

Decisão permite negociação estruturada com credores; empresa afirma que operação segue normalmente e que “para o cliente nada muda”

O Grupo CVLB, controlador das marcas CASA&VIDEO e Le biscuit, informou que nesta quarta- feira (14) obteve na Justiça a aprovação de um pedido de Tutela Cautelar, medida prevista em lei e adotada em processos de reorganização financeira por várias empresas para viabilizar um ambiente mais organizado e estável de negociação com credores.

Em comunicado, a empresa destacou que para o cliente nada muda: a operação segue normalmente, com lojas físicas e canais digitais em funcionamento, e o foco permanece no atendimento e na experiência de compra, em linha com nosso propósito do grupo de tornar os
sonhos dos nossos clientes acessíveis.

A aprovação do pedido ocorre em um contexto em que o varejo brasileiro enfrenta desafios macroeconômicos relevantes, como juros elevados, crédito mais restrito, aumento de custos e maior concorrência do mercado digital. Segundo o Grupo CVLB, a medida cria as condições para a companhia conduzir um processo estruturado de diálogo e mediação com credores, buscando construir uma solução para reorganização de compromissos financeiros com transparência e responsabilidade, preservando relações de longo prazo com parceiros e
fornecedores. O período de proteção temporária previsto na Tutela Cautelar é de até 60 dias.

“Estamos dando um passo importante para organizar as negociações com responsabilidade e respeito às relações sólidas construídas ao longo do tempo. Seguimos com a operação funcionando e com foco total no cliente”, informou o Grupo CVLB.

Título e Texto: Quintino Gomes Freire, Diário do Rio, 14-1-2026

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