quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

É a união nacional pelo Seguro, atrasado mental!


Tiago Dores

Ainda bem que ontem fiquei à espera do fim do debate entre António José Seguro e André Ventura para terminar a minha crónica: as sonecas que fui tirando durante as intervenções de Seguro deixaram-me muito mais fresco para concluir a labuta.

De qualquer forma, não vi respondida a minha questão fundamental: nesta segunda volta das presidenciais ainda haverá cabines de voto? Ou já se votará de braço no ar no polidesportivo da junta, para identificar, claramente, os impuros que não votam Seguro? É só para saber se deixo de parte, para vestir dia 8, uma roupa velha que possa ficar encardida com molho de tomate podre e marcas de sapatos nas nalgas.

Quem me manda não me ter juntado ao rebanh… ao grupo!, ao grupo de 250 figuras da área “não-socialista” que declarou o seu amor incondicional — ou o seu apoio, vá — a António José Seguro. Da área “não-socialista”, ou para ser mais preciso, da área “não! socialista!”, mesmo como quem diz “mas quê, pensavam que tínhamos seguido aquela ideia do Soares de meter o socialismo na gaveta?! Ah, ah, ah!”

Bom, para não estar a apresentar estas figuras da área “não! socialista!” uma a uma e terem uma ideia do tipo de malta de que estamos a falar, ponhamos as coisas desta forma: estes 250 são uma espécie daqueles 300 do filme com o mesmo nome, mas enquanto no filme os 300 espartanos estavam prontos para a Batalha das Termópilas, estes 250 espertalhões estão prontos para manter a tralha socialista. Eh pá, até levo a mal estarem à espera de um trocadilho com o nome da localidade que batizou este confronto histórico…

Do que não há dúvida é que esta agremiação “não! socialista!” tem inegável talento. Gostemos ou não, é de grande habilidade conseguir criar o grupo de “não-socialistas” por Seguro. É ainda mais impressionante do que, digamos, organizar o grupo de jovens bloquistas pelo duche; ou o grupo de vegetarianos pelo bife Wellington; ou, melhor ainda, o grupo de ativistas LGBTQIA+ pela circunspecção.

Embora não negue que para a reunião de tal rol de celebridades muito terá contribuído a figura de Seguro, que é realmente o maior. Tenham paciência, digam o que disserem, é… o… maior. É o maior mal menor de sempre, para o maior número de gente que mais contribuiu para que quase 20% dos portugueses vivam abaixo do limiar de pobreza. Seguro reúne uma unanimidade tal que a própria União Nacional deixaria escapar, entre dentes, um “eh pá, cortem lá no unanimismo, que a coisa assim fica um bocadinho escandalosa.”

Mas, atenção, não estou com isto a insinuar que “o sistema” está contra Ventura. Aliás, sistema? Qual sistema? Quem é que falou em sistema? Mas agora só se fala no sistema? Usa-se o sistema para insinuar tudo e mais alguma coisa, quando na verdade ninguém sabe o que é o sistema. Parece que voltámos aos anos 90 do futebol português, a toda a hora com a conversa do sistema. “Oh, Tiago, mas nos anos 90 o sistema de que se falava no futebol português era, claramente, a dupla Pinto da Costa-Valentim Loureiro.” Chiu, agora sou eu quem está a escrever a crónica.

É como se tudo fizesse parte do sistema. Então, mas agora um Paulo Portas, por exemplo, também faz parte do sistema? Portas que, para justificar o apoio a Seguro, garante que já nos basta aturar um Trump nos EUA para ainda termos um Ventura por cá. Uma coisa é verdade. Ventura tem, de facto, algo em comum com o POTUS: em 2016 os apoiantes de Trump mereceram o apodo de “deploráveis” e agora Ventura viu os seus eleitores serem apelidados de “atrasados mentais”. Segundo Sérgio Sousa Pinto, ex-deputado socialista, “se o eleitorado acha que o Partido Socialista é um grande perigo e André Ventura não é, então o eleitorado é atrasado mental.”

Ou seja, se Ventura ganhar as eleições, a opinião de Sérgio Sousa Pinto — ou a Hillary Clinton portuguesa, como preferirem — é que ao Presidente dos Afetos seguir-se-á o Presidente dos Infectos. E eu bem sei que Ventura já disse não querer ser o Presidente de todos os portugueses, mas, caso ganhe, aposto que fará questão de ser também o Presidente de Sérgio Sousa Pinto.

Título e Texto: Tiago Dores, Observador, 28-1-2026, 0h17 via Rui Peres, Facebook, 29-1-2025, 14h31

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