Expressões como “qual foi?”, “brotei” e “marca um 10” revelam o jeito descontraído de viver na cidade e ajudam visitantes a se sentirem em casa com este manual do carioquês
Gabriella Lourenço
Quem chega ao Rio de Janeiro pela primeira vez pode até se perder um pouco no nosso jeito de falar. Não é só o sotaque cantado, o “s” puxado ou o ritmo acelerado das frases. O carioca tem um vocabulário próprio, cheio de gírias, expressões e atalhos que fazem parte da identidade da cidade.
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| Foto: Alexandre Macieira |
Tem turista que estranha, fica
confuso e pede para repetir. Outros entram na brincadeira, começam a usar as
palavras no segundo dia e já se sentem meio locais. E, no fim das contas, quase
todo mundo sai com uma história divertida sobre alguma expressão que ouviu na
praia, no bar, no táxi ou na fila da padaria, para um café no típico copo
americano — que à noite vira cerveja.
Cada canto do Brasil tem seu
sotaque e seu jeito de falar, mas o carioca carrega uma informalidade que
aproxima, quebra o gelo e cria conversa até com desconhecido. A cidade pode até
receber críticas aqui e ali, mas quem conhece de perto sabe: não tem lugar
igual. Tanto que a maioria dos turistas sempre acaba voltando.
Enquanto muita gente escolhe o
Rio para passar férias, a gente vive aqui todos os dias — com um vocabulário
que é praticamente um idioma próprio.
Pensando em quem está chegando
agora (ou em quem já mora e quer se reconhecer), preparamos um pequeno guia com
algumas das frases e gírias mais usadas no dia a dia do carioca. Um manual
básico para não boiar na conversa e aproveitar melhor o clima da cidade.
As gírias cariocas que todo
turista precisa conhecer
De bobeira
Estar sem fazer nada, à toa,
tranquilo. “Se você estiver de bobeira mais tarde, bora dar um rolé.” “Tô de
bobeira em casa hoje, sem fazer nada.” “A gente ficou de bobeira na praia até o
sol se pôr.”
Brotei/Vou brotar
Chegar de repente, aparecer, confirmar presença. “Do nada ele brotou na festa.” “Mais tarde eu vou brotar aí na sua casa.” “Bora brotar na praia hoje pra aproveitar o sol.”
Qual foi?
Expressa estranhamento,
surpresa ou pedido de explicação. “Qual foi? Tu não avisou que ia se atrasar.”
“Qual foi essa história aí?” “Ih, qual foi? Deu ruim?”
Pega leve, irmão
Um pedido para acalmar,
relaxar, não exagerar. “Pega leve, irmão, essa bebida tá forte demais.” “Pega
leve, irmão, não precisa gritar.”
Pega a visão
Presta atenção, aprende,
observa isso aqui. “Pega a visão: o lugar enche rápido, melhor chegar cedo.”
“Pega a visão do esquema pra não dar problema.”
Tá ligado?
Confirmação de entendimento,
concordância ou sintonia. “A gente se encontra às sete, tá ligado?”. “Chega
cedo pra evitar fila, tá ligado?”
Pegar um jacaré
Surfar na espuma da onda,
geralmente sem prancha. Clássico das praias cariocas. “As crianças ficaram a
tarde toda pegando jacaré.” “Quando a maré tá boa, dá pra pegar vários
jacarés.”
Marca um 10
Dar uma pausa, descansar um
pouquinho, dar uma respirada. “Marca um 10 aí pra gente beber uma água.”
“Depois dessa subida, vamos marcar um 10.
Irado
1. Qualificação positiva
relacionada a um fato, ocorrência ou objeto. “O jogo de ontem foi irado!”.
2. Qualificação positiva a um sujeito. “Aquele cara é irado”.
Já é!
[Termo composto] Exclamação da pessoa que demonstra concordância com o que
foi proposto. “Vamos embora daqui a uma hora?” “Já é!”.
Sin. “Demorô”.
Maluco
Cara; sujeito; indivíduo. “Eu não conheço aquele maluco”. “Estava com uns
malucos da faculdade”.
Maneiro
Muito legal. Show de bola. Um estágio acima do simples “legal”. Às vezes
menos eufórico do que “irado”.
Mermão (masculino)
Aglutinação de “meu irmão”. “Aí, mermão, que parada é essa?”
Mó
Aglutinação de maior. “Ih, coé? Mó otário, aê!”.
Na mão do palhaço
[Termo composto] Diz-se da condição das pessoas entorpecidas, não importa
com qual substância. “Virou dez copos de pinga e agora está na mão do palhaço”.
Nego
Toma o lugar da terceira pessoa do plural. Curiosamente flexiona o verbo
que o segue para a terceira pessoa do singular. “Nego vai pra festa amanhã”
(Eles vão pra festa amanhã). “Nego é muito burro” (Eles são muito
burros).
Night
Diz-se sobre a diversão noturna, comumente acompanhada de entorpecentes e
saliências com outrem. Chamada de diferentes formas pelo Brasil, como “Balada”
em São Paulo. “Partiu night hoje!”
Parada
Substantivo genérico. Pilar da linguagem carioca. Refere-se a qualquer
coisa para a qual a pessoa não ache um termo digno. “Que parada é essa?”.
“Qualquer parada me liga”. “Parada doida”. “Preciso fazer uma parada”.
Partiu
1. Interrogação sobre se é o momento certo de iniciar uma ação. “Partiu?”.
2. Exclamação de quem julga ser aquele o momento certo para começar uma ação.
“Partiu!”.
Paraíba
Indivíduo nascido ou residente acima do paralelo que passa por Copacabana.
Peidão
Covarde, frouxo, borra-botas. “Maluco mó peidão”.
Pela-saco
1. Pessoa chata; piegas.
2. Puxa-saco; baba-ovo; rabiola.
Ver Arroz.
Perdeu a linha
[Termo composto] Fala-se do indivíduo que cometeu um ato
inconsequente/insensato. “Perdeu a linha e virou seis doses de tequila em meia
hora”. “Perdeu a linha e foi o centro das atenções na festa da empresa”.
Porra
Segundo sustentáculo da linguagem carioca.
1. Interjeição (“Porra!”).
2. Substitutivo para “parada”. “Olha aquela porra ali!”
3. Advérbio de intensidade. “Em São Leopoldo estava um frio da porra!”.
Porrada
1. Coletivo genérico. Multidão – uma porrada de gente. Matilha – uma
porrada de cachorros.
2. Briga. Sujeitos em momento não muito romântico.
Se liga
[Termo composto] Apelo por atenção para o que será dito a seguir. “Se liga,
pra onde a gente vai hoje a noite?”.
Sin. “Então”.
Sinistro
1. Adjetivo que qualifica aquilo que acompanha. “O Neymar é um jogador
sinistro”
2. Adjetivo que expressa dificuldade. “Essa fase do jogo é bem mais sinistra
que a outra”.
Tu
Pronome pessoal do caso reto de comportamento esquizofrênico. Segue sendo
segunda pessoa do singular, mas flexiona o verbo que o segue na terceira
pessoa. “Tu viu”,”Tu faz”, “Tu é”.
Fluir
Dar certo. “Meu projeto
fluiu”. “Essa parada tá fluindo”. “Rolou”.
Filha da puta
1. Interjeição genérica de descontentamento. Pode ser usada após qualquer
acontecimento desagradável e/ou inesperado.
2. Adjetivo utilizado para humilhar, xingar, ofender aqueles que merecem.
Ver fura-olho.
Foda
1. Qualificação indicativa de dificuldade. “Aquela parada é foda!”.
2. Qualificação positiva indicando algo muito bom “Aquela parada é foda!”.
3. Qualificação que indica algo impressionante “Aquela parada é foda!”.
Fura-olho
[Termo composto] Fala-se do indivíduo que, incapaz de conseguir realizar os
feitos próprios, usufrui das glórias alheias.
Ver filhodaputa.
Goxtosa
Diz-se da mulher de formas físicas harmoniosas. Elogio glorioso. “Ela é
goxtosa”.
Aê
1. Partícula iniciadora de frase. “Aê, se liga (…)”.
2. Advérbio de lugar. “A parada está por aê”.
A porra toda
[Termo composto] “Tudo”, com eventual viés agressivo. Totalidade do que
está ao alcance. “Quebramos a porra toda”. “Sai xingando a porra toda”.
Arroz
Aquele que só acompanha. Sujeito que vive rodeado de mulheres, tem muitas
amigas, e não pega nenhuma.
Sin. “Arame-liso” (cerca, mas não machuca); “mestre-sala” (só dança em volta);
“Cantor de churrascaria” (canta enquanto os outros comem).
Beleza
1. Cumprimento usual. “E ai,
beleza?”
2. Aceitação. “Tá ok, beleza!”
3. Expressa exaltação. “Que beleza!!”
Bolado
Condição de incompreensão momentânea ou preocupação em qualquer nível. “Tô
ficando bolado”.
Bucha
Indivíduo com marra de malandro, mas que não passa de um tremendo prego; as
antigas era chamado de malandro coca-cola (só dar um sacode que ele perde o
gás).
Cabaço
Sujeito trapalhão. “Tu viu que merda? Esse cara é mó cabaço!”.
Caído
1. Evento pouco divertido. “A festa estava caída”.
2. Mulher de traços físicos ou mentais pouco atraentes. “Achei a mulher meio
caída”.
Coé
Aglutinação de “qual é”.
1. Partícula iniciadora da frase. “Coé, irmão, beleza?!”.
2. Partícula afrontativa. “Coé, irmão, tá maluco?!”
3. artícula de incerteza. “Não entendi coé a do maluco”.
Conto
Unidade monetária sem plural. “Essa parada custa 10 conto”.
Dá uma moral (aê!)
[Termo composto]
1. Pedir auxílio a outrem. “Dá uma moral pra eu empurrar o carro, aê!”
2. Barganhar pequena vantagem. “Dá uma moral nessa dose, aê!
0800
Diz-se de qualquer situação que não demandará gasto monetário. De graça. “O
show será 0800”. “Pode vir que hoje é tudo 0800”
Título e Texto: Gabriella Lourenço, Diário do Rio, 16-1-2026

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