Humberto Pinho da Silva
No mês de dezembro, mês
húmido e sombrio, aproveitei os raros dias de céu lavado e de amena
temperatura, para almoçar num centro comercial.
Após suculento repasto,
juntamente com minha mulher, percorri pausadamente vários estabelecimentos, e
estaquei, por fim, numa livraria – das poucas que conseguiram sobreviver à
falência da leitura.
Estava eu a ver as
novidades livreiras, quando acidentalmente escutei diálogo travado entre
senhora e jovem de pouco mais de doze anos, logo presumi que fosse sua filha.
“Preciso de comprar os ‘Maias’”, disse a menina. “O professor de português recomendou a leitura desse livro, que é próprio para a nossa idade.”
Inclinando pudicamente os
olhos, a mãe murmurou quase segredando:
“Já o li. Parece incrível
que menina da tua idade o leia. Como é possível, que professor diga que esse
livro é próprio para a tua idade!...”
Tagarelando afetuosamente
encaminharam-se para a saída de mãos enlaçadas. A menina saltitava de
contentamento, levando na mão o grosso volume.
O diálogo entre mãe e
filha fez-me lembrar o que Dona Emília Cabral me contou, quase à puridade: a
cena ocorrida entre a Marquesa do Ficalho e a nora, Dona Maria das Dores, neta,
como ela, de Eça de Queiroz.
Certa ocasião a Marquesa
encontrou-a enterrada no macio sofá da biblioteca, lendo sofregamente livro do
avô. Qual? Já não me recordo.
“Menina!”, bradou irada a respeitada fidalga. “Esse livro não é indicado para jovens da sua idade!...”
Devo revelar ao leitor, se
ainda não conhece, que o escritor não queria que os filhos, principalmente a
Maria, lessem as suas obras.
A filha querida do grande
estilista, só conheceu as obras do pai, em Portugal, em Tornes, com avançada
idade!
Tive oportunidade de
conhecer as netas do genial escritor, que me revelaram os escrúpulos de Dona
Emília de Castro Pamplona (Resende), sentia quando tinha que abordar livros do
marido.
No tempo do Eça, mesmo
décadas depois da morte, a 16 de agosto de 1900, as meninas, mormente senhoras,
consideradas da boa sociedade, eram bastante recatadas; e se o aguilhão da
curiosidade as acicatasse a lerem livros do Eça, faziam no decoro do quarto. E
nunca revelavam que as conheciam, porque o pejo não lhas permitia.
Agora, em plena liberdade,
na decadência da civilização, as nossas donzelas leem, conversam e debatem,
temas mais apimentados que as cenas escabrosas descritas pelo romancista.
Não admira, portanto, que
os professores as recomendem, até as incentivem, essas e outras, moralmente
mais reprováveis.
Não estamos no século XXI,
onde tudo deve ser lido, provado e incentivado?
Não estamos num "
Mundo em Chamas", interessante obra de Billy Graham?
Título
e Texto: Humberto Pinho da Silva, janeiro de 2026
Se ainda não tem, compre um
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O mono palrador
Serei de Cristo ou de Pedro e Paulo?
A decadência da civilização
O que é ser Português?

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