sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

[Aparecido rasga o verbo] Nem o nosso ouro reluz como em tempos passados

Aparecido Raimundo de Souza 

NA VITRINE gigantesca da loja, o relógio dourado que marca indefinidamente as horas, parece prometer status, elegância e até uma vida mais organizada. Por conta, brilha sob a luz artificial, como se tivesse o dom de iluminar o futuro de quem passar ali e comprar um igual.

Mas basta virar a esquina para ver o mesmo modelo em promoção, pendurado numa banca improvisada, ao lado de um amontoado de óculos escuros que juram ser “originais”. Nem tudo o que reluz é ouro. Às vezes esse ouro é apenas um latão polido com a fria cara de um marketing construído a poder de falcatruas as mais cabeludas.

Na pracinha da matriz em frente à paróquia de São Cabuloso, os doze bancos de madeira brilham como se fossem convites ao descanso. O sol bate forte, refletindo nas superfícies envernizadas, e os moradores se aproximam curiosos e admirando para conferirem o “novo cartão-postal da cidade”.

As crianças correm e pulam, os idosos comentam sem dar muito crédito e até os pombos parecem mais animados com o cenário reluzente. Porém, sempre há um porém. Basta sentar a bunda para perceber que o verniz esconde farpas mal lixadas, estilhas que se infiltraram discretamente nas roupas e na pele.

O brilho, na verdade, é só fachada: por baixo, a madeira se faz áspera, desconfortável, quase hostil. O que parece aconchego, na verdade, não vai além de uma armadilha para ingleses verem ou manés desconectados da realidade quem se deixa seduzir pela falsa aparência. E não acontece assim só na praça.

Fora dela também.  A coisa fluí de modo mais chamativo.  Não precisa se sentar para perceber a farsa. É só direcionar o olhar para o carro importado que desliza pela avenida que esconde dívidas sufocantes. O sorriso impecável da moça na porta da ótica, talvez não seja só a maquiagem para uma rotina escondendo o seu rosto cansado.

A vitrine reluzente da loja de roupas finas promete status, entretanto, por baixo dos panos, entrega um punhado de prestações intermináveis. A vida nossa de cada dia, com a sua ironia habitual, insiste sempre em nos lembrar que a joia verdadeira não precisa de holofotes.

Ela se revela no gesto mais simples, se condensa na palavra sincera, se firma no silêncio que acolhe. O resto, o que sobra, por mais que brilhe com uma luz com aparência de vir de longe, ou além da imaginação, tudo, em resumo, não passa de latão polido. Nem tudo o que reluz pode ser considerado ouro.

Nem tudo que é ouro, mostra a sua verdadeira face oculta. Às vezes é só um verniz malpassado, uma tinta sem a magia espetaculosa da durabilidade, esperando o primeiro toque sutil para revelar a aspereza da mentira escondida. Em dias de hoje, vivemos cercados de brilhos artificiais. São pessoas vazias e desprovidas daquela luminosidade que vem da alma.

Em épocas de caça aos votos, um inferno a céu aberto. Surgem ratos de todos os bueiros de esgoto, criaturas que   emanam dos quintos, ou melhor dito, aqueles vermes peçonhentos com seus discursos polidos. Brotam do nada, roedores travestidos de políticos e ladrões, com seus sorrisos deformados de candidatos ensaiados. Tudo parece cintilar como promessa de uma felicidade imediata.

Contudo, se esticarmos ao redor um olhar mais atento, mais profundo, mais contemplativo, aquele olhar de fera enjaulada, que a gente consegue enxergar além da aparência e, então, percebermos que o brilho que ofusca, que cega, que seduz, muitas vezes, é só uma pincelada de verniz sobre a superfície de uma pobre madeira gasta.

O mundo moderno aprendeu a maquiar as suas contradições. O prédio no começo da avenida, que toca as nuvens, com seus sessenta andares, todo espelhado que se posta bonito e charmoso no início do centro da cidade, certamente agasalha atrás de suas paredes, jornadas exaustivas e salários que mal sustentavam os operários que deram um duro danado para que hoje ele se faça imponente.

A motocicleta que desfila na avenida principal, de igual forma, pode ser fruto de dívidas sufocantes. O “influenciador”, essa nova modalidade de praga criada pela modernidade, que exibe uma vida perfeita, talvez lute contra o vazio imenso quando a câmera que ele carrega, se apaga. A nossa sociedade confunde aparência com essência.

E nós, espectadores idiotizados, ávidos por coisas novas, incendidos pela ganância, aceitamos o espetáculo sem questionar. Afinal, cá entre nós, é mais fácil acreditar no brilho dissimulado, enganoso, adulterado, postiço e fraudulento que encarar de peito aberto as incertezas das sombras.

Mil vezes mais confortável admirar o ouro falso, a joia de latão, que reconhecer que a verdadeira riqueza não se mede em curtidas, cifras ou etiquetas. O ouro verdadeiro repetindo, não reluz: ele se referenda em gestos discretos, se mostra na honestidade que não precisa de palco, se engrandece na simplicidade que não pede aplausos.

O resto, uau, o resto, a sobra, é apenas um reflexo enganoso. É uma luz que apesar de mostrar que encanta, é cega, é ainda, promessa vã que não se cumpre. Nem tudo o que reluz pode ser considerado ouro. Talvez o maior desafio seja aprendermos a enxergar além do brilho para não confundirmos o espetáculo que a vida realmente nos mostra em toda a sua formosura.

Vivemos em uma época em que a cintilação esplendorosa é fabricada em série. As telas dos celulares se tornaram palcos permanentes, onde cada gesto é editado, cada palavra é filtrada e cada sorriso é calibrado para parecer perfeito. O espetáculo é constante: políticos que prometem mundos e fundos em discursos ensaiados, marcas que vendem felicidade em embalagens coloridas, e mais “influenciadores” que transformam a rotina em “caos fantasia”.

Tudo reluz. Mas será ouro? A política, por exemplo, é mestre em polimentos. Palavras bonitas, slogans inspiradores, campanhas recheadas de imagens cuidadosamente produzidas. No entanto, por trás da nitescência das promessas, muitas vezes se escondem interesses obscuros, acordos silenciosos e uma realidade que não cabe nos cartazes.

O ouro verdadeiro da política o compromisso com o bem comum, raramente aparece nas vitrines. A mídia também aprendeu a reluzir. Manchetes chamativas, escândalos em letras garrafais, notícias embaladas como produtos de consumo rápido e rasteiro.

O resplendor da informação instantânea seduz, mas quantas vezes nos damos conta de que o conteúdo é raso, enviesado ou manipulado? De novo, o jargão: Nem tudo o que reluz é verdade. E o consumo, esse espetáculo diário, talvez seja o maior palco por onde a ilusão se faz de carne e osso.

A casa palácio, o celular da última geração, a roupa da marca famosa: símbolos que alimentam status, mas que muitas vezes escondem dívidas, exploração de mão de obra e uma busca incessante por reconhecimento. O ouro verdadeiro a dignidade, a simplicidade, o valor humano não precisa de etiquetas.

A vida contemporânea nos desafia a enxergar além do brilho. A distinguir o ouro da purpurina, a essência da aparência. Devemos ter em mente que o que reluz pode nos encantar, mas também pode nos cegar. Talvez o maior ato de resistência seja aprender a olhar para além da superfície, a espiar reconhecendo que o verdadeiro valor raramente se encontra onde a luz é mais forte.

Repeti algumas falas para que fique bem claro. Nem tudo o que reluz é ouro. Acreditem. É a mais pura verdade. Nem tudo o que reluz é ouro. Às vezes é apenas um reflexo passageiro de uma sociedade oca, depauperada, melindrada que prefere o espetáculo lindo e maravilhoso à verdade pobre, simplória e humilde, mas que no fundo, bem lá no âmago, engrandece sobejamente o que a nossa alma tem de mais sublime.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de São Paulo, capital, 30-1-2026

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