Aparecido Raimundo de Souza
Mas basta virar a
esquina para ver o mesmo modelo em promoção, pendurado numa banca improvisada,
ao lado de um amontoado de óculos escuros que juram ser “originais”. Nem tudo o
que reluz é ouro. Às vezes esse ouro é apenas um latão polido com a fria cara
de um marketing construído a poder de falcatruas as mais cabeludas.
Na pracinha da matriz
em frente à paróquia de São Cabuloso, os doze bancos de madeira brilham como se
fossem convites ao descanso. O sol bate forte, refletindo nas superfícies
envernizadas, e os moradores se aproximam curiosos e admirando para conferirem
o “novo cartão-postal da cidade”.
As crianças correm e
pulam, os idosos comentam sem dar muito crédito e até os pombos parecem mais
animados com o cenário reluzente. Porém, sempre há um porém. Basta sentar a
bunda para perceber que o verniz esconde farpas mal lixadas, estilhas que se
infiltraram discretamente nas roupas e na pele.
O brilho, na verdade,
é só fachada: por baixo, a madeira se faz áspera, desconfortável, quase hostil.
O que parece aconchego, na verdade, não vai além de uma armadilha para ingleses
verem ou manés desconectados da realidade quem se deixa seduzir pela falsa
aparência. E não acontece assim só na praça.
Fora dela também. A coisa fluí de modo mais chamativo. Não precisa se sentar para perceber a farsa. É só direcionar o olhar para o carro importado que desliza pela avenida que esconde dívidas sufocantes. O sorriso impecável da moça na porta da ótica, talvez não seja só a maquiagem para uma rotina escondendo o seu rosto cansado.
A vitrine reluzente da
loja de roupas finas promete status, entretanto, por baixo dos panos, entrega
um punhado de prestações intermináveis. A vida nossa de cada dia, com a sua
ironia habitual, insiste sempre em nos lembrar que a joia verdadeira não precisa
de holofotes.
Ela se revela no gesto
mais simples, se condensa na palavra sincera, se firma no silêncio que acolhe.
O resto, o que sobra, por mais que brilhe com uma luz com aparência de vir de
longe, ou além da imaginação, tudo, em resumo, não passa de latão polido. Nem
tudo o que reluz pode ser considerado ouro.
Nem tudo que é ouro,
mostra a sua verdadeira face oculta. Às vezes é só um verniz malpassado, uma
tinta sem a magia espetaculosa da durabilidade, esperando o primeiro toque
sutil para revelar a aspereza da mentira escondida. Em dias de hoje, vivemos
cercados de brilhos artificiais. São pessoas vazias e desprovidas daquela
luminosidade que vem da alma.
Em épocas de caça aos
votos, um inferno a céu aberto. Surgem ratos de todos os bueiros de esgoto,
criaturas que emanam dos quintos, ou
melhor dito, aqueles vermes peçonhentos com seus discursos polidos. Brotam do nada,
roedores travestidos de políticos e ladrões, com seus sorrisos deformados de
candidatos ensaiados. Tudo parece cintilar como promessa de uma felicidade
imediata.
Contudo, se esticarmos
ao redor um olhar mais atento, mais profundo, mais contemplativo, aquele olhar
de fera enjaulada, que a gente consegue enxergar além da aparência e, então,
percebermos que o brilho que ofusca, que cega, que seduz, muitas vezes, é só
uma pincelada de verniz sobre a superfície de uma pobre madeira gasta.
O mundo moderno
aprendeu a maquiar as suas contradições. O prédio no começo da avenida, que
toca as nuvens, com seus sessenta andares, todo espelhado que se posta bonito e
charmoso no início do centro da cidade, certamente agasalha atrás de suas
paredes, jornadas exaustivas e salários que mal sustentavam os operários que
deram um duro danado para que hoje ele se faça imponente.
A motocicleta que
desfila na avenida principal, de igual forma, pode ser fruto de dívidas
sufocantes. O “influenciador”, essa nova modalidade de praga criada pela
modernidade, que exibe uma vida perfeita, talvez lute contra o vazio imenso
quando a câmera que ele carrega, se apaga. A nossa sociedade confunde aparência
com essência.
E nós, espectadores
idiotizados, ávidos por coisas novas, incendidos pela ganância, aceitamos o
espetáculo sem questionar. Afinal, cá entre nós, é mais fácil acreditar no
brilho dissimulado, enganoso, adulterado, postiço e fraudulento que encarar de
peito aberto as incertezas das sombras.
Mil vezes mais
confortável admirar o ouro falso, a joia de latão, que reconhecer que a
verdadeira riqueza não se mede em curtidas, cifras ou etiquetas. O ouro
verdadeiro repetindo, não reluz: ele se referenda em gestos discretos, se
mostra na honestidade que não precisa de palco, se engrandece na simplicidade
que não pede aplausos.
O resto, uau, o resto,
a sobra, é apenas um reflexo enganoso. É uma luz que apesar de mostrar que
encanta, é cega, é ainda, promessa vã que não se cumpre. Nem tudo o que reluz
pode ser considerado ouro. Talvez o maior desafio seja aprendermos a enxergar além
do brilho para não confundirmos o espetáculo que a vida realmente nos mostra em
toda a sua formosura.
Vivemos em uma época
em que a cintilação esplendorosa é fabricada em série. As telas dos celulares
se tornaram palcos permanentes, onde cada gesto é editado, cada palavra é
filtrada e cada sorriso é calibrado para parecer perfeito. O espetáculo é
constante: políticos que prometem mundos e fundos em discursos ensaiados,
marcas que vendem felicidade em embalagens coloridas, e mais “influenciadores”
que transformam a rotina em “caos fantasia”.
Tudo reluz. Mas será
ouro? A política, por exemplo, é mestre em polimentos. Palavras bonitas,
slogans inspiradores, campanhas recheadas de imagens cuidadosamente produzidas.
No entanto, por trás da nitescência das promessas, muitas vezes se escondem
interesses obscuros, acordos silenciosos e uma realidade que não cabe nos
cartazes.
O ouro verdadeiro da
política o compromisso com o bem comum, raramente aparece nas vitrines. A mídia
também aprendeu a reluzir. Manchetes chamativas, escândalos em letras
garrafais, notícias embaladas como produtos de consumo rápido e rasteiro.
O resplendor da
informação instantânea seduz, mas quantas vezes nos damos conta de que o
conteúdo é raso, enviesado ou manipulado? De novo, o jargão: Nem tudo o que
reluz é verdade. E o consumo, esse espetáculo diário, talvez seja o maior palco
por onde a ilusão se faz de carne e osso.
A casa palácio, o
celular da última geração, a roupa da marca famosa: símbolos que alimentam
status, mas que muitas vezes escondem dívidas, exploração de mão de obra e uma
busca incessante por reconhecimento. O ouro verdadeiro a dignidade, a
simplicidade, o valor humano não precisa de etiquetas.
A vida contemporânea
nos desafia a enxergar além do brilho. A distinguir o ouro da purpurina, a
essência da aparência. Devemos ter em mente que o que reluz pode nos encantar,
mas também pode nos cegar. Talvez o maior ato de resistência seja aprender a olhar
para além da superfície, a espiar reconhecendo que o verdadeiro valor raramente
se encontra onde a luz é mais forte.
Repeti algumas falas
para que fique bem claro. Nem tudo o que reluz é ouro. Acreditem. É a mais pura
verdade. Nem tudo o que reluz é ouro. Às vezes é apenas um reflexo passageiro
de uma sociedade oca, depauperada, melindrada que prefere o espetáculo lindo e
maravilhoso à verdade pobre, simplória e humilde, mas que no fundo, bem lá no
âmago, engrandece sobejamente o que a nossa alma tem de mais sublime.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de São Paulo, capital, 30-1-2026
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