sábado, 1 de agosto de 2026

[Versos de través] Minha confissão leal

Aparecido Raimundo de Souza











O que temos dela?
de toda a vida boa que passou,
lealmente confesso, sem floreios nem mentiras:
Não temos mais as mãos quentes da mamãe em nossa cabeça,
não temos o sorriso da esposa esperando na porta,
não temos os gritos dos filhos correndo pelo corredor,
não temos o peso quente do neto dormindo no colo,
não temos a força dos dias de glória,
não temos o beijo roubado no escuro do cinema,
não temos a noite que nunca acabava
com os amigos, a cerveja, a risada que doía a barriga.

Tudo isso ficou lá. Lá onde?
No passado que não volta mais,
no tempo que se foi como o vento na praia.
Mas o que temos dela,
o que realmente é nosso,
ninguém nunca vai poder tirar:
Temos o gosto do bolinho de chuva
que a língua ainda lembra, trocentos anos depois.

Temos o jeito exato de dobrar uma camisa
que ela nos ensinou, e que fazemos até hoje,
sem perceber, como quem reza uma oração.
Temos a marca do primeiro passo do filho mais velho
gravada no osso do peito, mais forte que qualquer tatuagem.