O que temos dela?
de toda a vida boa que passou,
lealmente confesso, sem floreios nem mentiras:
Não temos mais as mãos quentes da mamãe em nossa cabeça,
não temos o sorriso da esposa esperando na porta,
não temos os gritos dos filhos correndo pelo corredor,
não temos o peso quente do neto dormindo no colo,
não temos a força dos dias de glória,
não temos o beijo roubado no escuro do cinema,
não temos a noite que nunca acabava
com os amigos, a cerveja, a risada que doía a barriga.
Tudo isso ficou lá. Lá onde?
No passado que não volta mais,
no tempo que se foi como o vento na praia.
Mas o que temos dela,
o que realmente é nosso,
ninguém nunca vai poder tirar:
Temos o gosto do bolinho de chuva
que a língua ainda lembra, trocentos anos depois.
Temos o jeito exato de dobrar uma camisa
que ela nos ensinou, e que fazemos até hoje,
sem perceber, como quem reza uma oração.
Temos a marca do primeiro passo do filho mais velho
gravada no osso do peito, mais forte que qualquer tatuagem.
Temos a voz do caçula dizendo “papai”
que toca de novo no ouvido, quando a casa está muito quieta.
Temos o cheiro do cabelo do neto mais novo
que ainda fica nos dedos, muito tempo depois do abraço.
Temos a alegria da casa própria paga,
de toda a vida boa que passou,
lealmente confesso, sem floreios nem mentiras:
Não temos mais as mãos quentes da mamãe em nossa cabeça,
não temos o sorriso da esposa esperando na porta,
não temos os gritos dos filhos correndo pelo corredor,
não temos o peso quente do neto dormindo no colo,
não temos a força dos dias de glória,
não temos o beijo roubado no escuro do cinema,
não temos a noite que nunca acabava
com os amigos, a cerveja, a risada que doía a barriga.
Tudo isso ficou lá. Lá onde?
No passado que não volta mais,
no tempo que se foi como o vento na praia.
Mas o que temos dela,
o que realmente é nosso,
ninguém nunca vai poder tirar:
Temos o gosto do bolinho de chuva
que a língua ainda lembra, trocentos anos depois.
Temos o jeito exato de dobrar uma camisa
que ela nos ensinou, e que fazemos até hoje,
sem perceber, como quem reza uma oração.
Temos a marca do primeiro passo do filho mais velho
gravada no osso do peito, mais forte que qualquer tatuagem.
Temos a voz do caçula dizendo “papai”
que toca de novo no ouvido, quando a casa está muito quieta.
Temos o cheiro do cabelo do neto mais novo
que ainda fica nos dedos, muito tempo depois do abraço.
Temos a alegria da casa própria paga,
da promoção no trabalho, da mangueira que plantamos
e que hoje dá frutos para quem não somos mais nós.
Temos o calor do sol nas costas num sábado de manhã,
o sabor da primeira goiaba da temporada,
a música que tocou no dia do nascimento,
que até hoje arrepia a espinha inteira.
Temos, acima de tudo,
a certeza calma e leal:
fomos amados.
Amamos muito.
Vivemos dias que valeram a pena,
mesmo que hoje só existam dentro de nós.
Confesso também a parte que dói:
temos a saudade que bate de surpresa,
o silêncio da casa que às vezes é pesado demais,
a mão que estendemos no escuro
e não encontra mais nenhuma outra mão para apertar.
Temos a velhice que lembra tudo,
e o corpo que já não consegue mais correr atrás de nada.
Mas ser leal com a vida
é não esconder nem a graça nem a ferida.
E no fim, o que temos dela?
Temos dentro do coração,
ela mesma:
toda a luz, todo o amor, todo o encanto,
todas as glórias pequenas e grandes,
transformadas em nós.
Não é o que queríamos, talvez.
Mas é tudo o que realmente fica.
E é muito.
É mais do que muita gente tem,
mesmo vivendo ainda no meio do seu dia.
Quando fecho os olhos,
ela está toda aqui:
mãe, esposa, cuidadora, filhos, netos, amigos, amores,
todos os dias bons que já passaram.
Não estão mais fora de mim.
Passaram a ser “eu”.
Isso é o que temos dela.
Nada mais.
Nada menos.
Tudo, na verdade,
Desemboca, desagua, termina, finda
NELA...
Aparecido Raimundo de Souza, julho de 2026
Anteriores:
Rei Cortiço
Eurídice
e que hoje dá frutos para quem não somos mais nós.
Temos o calor do sol nas costas num sábado de manhã,
o sabor da primeira goiaba da temporada,
a música que tocou no dia do nascimento,
que até hoje arrepia a espinha inteira.
Temos, acima de tudo,
a certeza calma e leal:
fomos amados.
Amamos muito.
Vivemos dias que valeram a pena,
mesmo que hoje só existam dentro de nós.
Confesso também a parte que dói:
temos a saudade que bate de surpresa,
o silêncio da casa que às vezes é pesado demais,
a mão que estendemos no escuro
e não encontra mais nenhuma outra mão para apertar.
Temos a velhice que lembra tudo,
e o corpo que já não consegue mais correr atrás de nada.
Mas ser leal com a vida
é não esconder nem a graça nem a ferida.
E no fim, o que temos dela?
Temos dentro do coração,
ela mesma:
toda a luz, todo o amor, todo o encanto,
todas as glórias pequenas e grandes,
transformadas em nós.
Não é o que queríamos, talvez.
Mas é tudo o que realmente fica.
E é muito.
É mais do que muita gente tem,
mesmo vivendo ainda no meio do seu dia.
Quando fecho os olhos,
ela está toda aqui:
mãe, esposa, cuidadora, filhos, netos, amigos, amores,
todos os dias bons que já passaram.
Não estão mais fora de mim.
Passaram a ser “eu”.
Isso é o que temos dela.
Nada mais.
Nada menos.
Tudo, na verdade,
Desemboca, desagua, termina, finda
NELA...
Aparecido Raimundo de Souza, julho de 2026
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